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A trajetória política de João Goulart
Do Rio Grande do Sul para a política nacional > Iniciação política: a aproximação com Vargas e com o PTB

Iniciação política: a aproximação com Vargas e com o PTB

João Belchior Marques Goulart, presidente da República deposto pelo movimento militar de 31 de março de 1964, ficou conhecido na vida pública como João Goulart e, particularmente, como Jango. Nasceu em 1o de março de 1919, em São Borja, Rio Grande do Sul, mesma cidade em que nascera Getulio Vargas. Era filho de Vicente Rodrigues Goulart e de Vicentina Marques Goulart, estancieiros dedicados à pecuária e a atividades comerciais e industriais. Os contatos com a família Vargas, também estancieira, vinham de longe. No plano político, embora o pai de Jango não tivesse exercido cargos públicos, era um partidário de Borges de Medeiros, chefe do Partido Republicano Riograndense e quem introduziu Getulio Vargas na política. Como tal, participou da Revolução Federalista de 1923 e da Revolução de 1930 que levou Vargas ao poder. Seus negócios também envolviam uma sociedade comercial com Protásio Dornelles Vargas, irmão de Getúlio.

A exemplo de vários outros políticos gaúchos, como Vargas e Ernesto Geisel, a data oficial do nascimento de Goulart foi alterada por razões escolares. Aumentou a idade em um ano para poder ingressar, em 1935, na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais de Porto Alegre. Então, o ano oficial de seu nascimento passou a ser 1918.

Jango não foi um aluno brilhante nem se dedicou a atividades políticas no seu tempo de universitário - 1935 a 1939 - quando Getulio era presidente. Auxiliar do pai em seus negócios, manteve-se afastado do debate político marcado pela radicalização ideológica opondo a Ação Integralista Brasileira (AIB), de direita, à Aliança Nacional Libertadora (ANL), de esquerda. Com isso, desenvolve reconhecidas habilidades como pecuarista e fazendeiro, ao mesmo tempo em que constrói uma sólida amizade com o filho de Getulio Vargas, Manuel Antônio, o Maneco.

Depois de formado, assumiu a direção dos negócios do pai que se encontrava doente – era o filho homem mais velho de uma família de oito irmãos. Com a morte do pai, em 1943, ficou responsável pela administração de uma propriedade de 14 mil hectares e 30 mil cabeças de gado. Ganha notoriedade como fazendeiro e pecuarista e torna-se conhecido pela maneira simples e amigável com que lidava com os mais pobres.

Os contatos com a família Vargas se estreitam em fins de 1945, quando Getulio, deposto da presidência da República, retorna a São Borja, e passa a viver na estância de Itu. Dali Jango acompanhou as gestões que levaram o ex-ditador a apoiar a candidatura de Eurico Gaspar Dutra à presidência da República e as iniciativas para expandir o recém-criado Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) no Rio Grande do Sul. Acabou sendo, em novembro de 1945, o portador oficial da mensagem de Getulio que selava o apoio a Dutra e que se transformou no slogan "Ele disse, vote em Dutra".

Por recomendação de Getulio, passou a integrar o diretório municipal do PTB de Porto Alegre e associou-se ao amigo Manuel Vargas na compra de um jornal que passaria a fazer a propaganda do partido. Em janeiro de 1947, sempre pela mão de Getulio, foi eleito deputado estadual, ao mesmo tempo em que participava ativamente da construção do PTB no interior do estado e se tornava presidente do diretório municipal de São Borja. Sua estância, a São Vicente, foi aos poucos se transformando no principal reduto de discussão em torno da articulação da candidatura Vargas à presidência da República nas eleições de outubro de 1950. Nesse momento, conhece importantes lideranças políticas do país e garante sua eleição para presidente do PTB gaúcho para o biênio de 1950-1952.

Oficialmente foi ele quem lançou, em abril de 1950, o nome de Vargas à sucessão presidencial e foi de sua fazenda que Getulio comunicou ao país aceitar a candidatura. Aqui selava-se definitivamente a associação de sua imagem à de Getulio. Isso o projetava nacionalmente e lhe criava inimigos de peso entre os antigetulistas. Ainda em 1950, em março, sua irmã, Neuza Goulart, casa-se com um jovem político gaúcho, Leonel Brizola, que viria a ser um dos mais importantes líderes do PTB e do trabalhismo. Brizola projetou-se nacionalmente como governador do Rio Grande do Sul, deputado federal, mas principalmente por suas posições nacionalistas e pelas críticas contundentes a alguns setores militares.

De 1950 até hoje, Getúlio, Jango e Brizola correspondem à "trindade" sempre evocada quando se fala do antigo PTB e do trabalhismo. Os três tiveram suas vidas políticas interrompidas ou abaladas em função dessa notoriedade como líderes populares e populistas e, especialmente, por suas posições, às vezes radicais, em defesa do nacionalismo econômico e da participação política dos sindicatos no governo. Foram grandes mobilizadores de massa, empolgaram multidões, atemorizaram interesses econômicos e políticos. Por tudo isso, o nome de Jango, embora não enaltecido como estadista pela historiografia, ficou marcado como um dos mais importantes líderes populares, às vezes com sentido pejorativo, e principalmente como uma imagem espelhada do próprio Getúlio.

Maria Celina D'Araujo

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Discurso de João Goulart, em São Borja, justificando seu apoio a Getúlio Vargas desde sua deposição do governo em outubro de 1945 e defendendo a candidatura deste à presidência da República. (Entre abril e outubro de 1950).

(CPDOC/FGV/arquivo João Goulart/JG ptb-rs 1950-04-00)

Discurso de João Goulart, em São Borja, justificando seu apoio a Getúlio Vargas desde sua deposição do governo em outubro de 1945 e defendendo a candidatura deste à presidência da República. (Entre abril e outubro de 1950).

(CPDOC/FGV/arquivo João Goulart/JG ptb-rs 1950-04-00)

Discurso de João Goulart, em São Borja, justificando seu apoio a Getúlio Vargas desde sua deposição do governo em outubro de 1945 e defendendo a candidatura deste à presidência da República. (Entre abril e outubro de 1950).

(CPDOC/FGV/arquivo João Goulart/JG ptb-rs 1950-04-00)

Discurso de João Goulart, em São Borja, justificando seu apoio a Getúlio Vargas desde sua deposição do governo em outubro de 1945 e defendendo a candidatura deste à presidência da República. (Entre abril e outubro de 1950).

(CPDOC/FGV/arquivo João Goulart/JG ptb-rs 1950-04-00)

   

 

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