A- A+

A trajetória política de João Goulart

A conjuntura de radicalização ideológica e o golpe militar > O anticomunismo nas Forças Armadas

O anticomunismo nas Forças Armadas

 

Oficiais das três armas cantam o Hino Nacional, em reunião, no Clube Naval. 30 março 1964. "Anticomunismo", como o próprio nome diz, designa uma doutrina que se define por oposição ao comunismo. Nesse sentido, pode-se falar de anticomunismo desde que o comunismo existe. Ele ganha força, no entanto, a partir da revolução bolchevista de outubro de 1917, na Rússia, quando o comunismo se torna uma alternativa política real. Embora de fácil definição, o termo "anticomunismo" engloba um conjunto bastante heterogêneo de forças políticas e sociais. Católicos, liberais, militares, empresários, nacionalistas, fascistas e socialistas democráticos aparecem unidos por uma postura negativa, por se posicionarem contra um inimigo comum. Por isso, a convergência entre os diversos anticomunismos ocorre apenas em períodos percebidos como de aumento do "perigo comunista", geralmente de curta duração.

A percepção de um "perigo comunista" no Brasil passou por um processo de crescente "concretização", até atingir seu clímax com a Revolta de 1935. Assim, após a Revolução Russa de 1917, tiveram lugar no país a criação do Partido Comunista do Brasil (depois Partido Comunista Brasileiro – PCB) em 1922; a conversão do líder "tenentista" Luís Carlos Prestes ao comunismo, em maio de 1930, e sua ida para a União Soviética, no ano seguinte; e o surgimento, em março de 1935, da Aliança Nacional Libertadora, dominada pelos comunistas. Se em 1917 o comunismo no Brasil era visto ainda como um perigo remoto, "alienígena" e "exótico", aos poucos ele foi se tornando mais próximo.

Esse período foi marcado por um contexto nacional e internacional de crescente fortalecimento de tendências autoritárias contrárias ao liberalismo político e à democracia representativa, tanto à esquerda quanto à direita. A descrença na democracia era generalizada. Por mais que fosse exagerada, a percepção de uma "ameaça comunista" no Brasil não era apenas uma fantasmagoria: havia intenção real dos comunistas de chegar ao poder por meios revolucionários.

Foi nesse contexto que estourou, em 23 de novembro de 1935, uma revolta comunista em Natal; no dia seguinte, em Recife; e no dia 27, no Rio de Janeiro. Todas essas revoltas, protagonizadas principalmente por militares, foram rapidamente derrotadas pelas forças leais ao governo. O episódio logo viria a ser nomeado, pelos vencedores, de "intentona" — intento louco, plano insensato, desvario —, nome com que ficou, por muito tempo, consagrado na história. A própria escolha do termo que designa o evento já é, portanto, um julgamento do mesmo.

A frustrada revolta comunista de novembro de 1935 foi um evento-chave que desencadeou um processo de institucionalização da ideologia anticomunista no interior das Forças Armadas. Os comunistas brasileiros foram acusados de serem elementos "a serviço de Moscou" e, portanto, traidores da Pátria. Os militares que tomaram parte na revolta foram, em particular, acusados de uma dupla traição: não só do país como da própria instituição militar, ferida em seus dois pilares — a hierarquia e a disciplina. Foram também rotulados de covardes, devido principalmente à acusação, até hoje controversa, de que no levante do Rio teriam assassinado colegas de farda ainda dormindo.

Embora a oposição de amplos setores militares ao comunismo anteceda à revolta, foi a partir desse momento que os comunistas passaram a ser claramente identificados como o inimigo maior. Esse processo teve como ponto focal a institucionalização, pelos militares, de uma comemoração no aniversário da vitória sobre a Intentona. Essa comemoração acontecia inicialmente no cemitério de São João Batista, onde foi construído um mausoléu para as vítimas, tendo sido transferida em 1968 para a Praia Vermelha.

O ritual de rememoração dos mortos leais ao governo, repetido a cada ano, tornava seu "sacrifício" presente, renovava os votos dos militares contra o comunismo e socializava as novas gerações nesse mesmo espírito. Foi no quadro dessa cultura institucional, marcadamente anticomunista, que se viveu a ditadura do Estado Novo e que se formaram os militares que, em 1964, assumiram o poder.

O regime militar então iniciado (e que duraria 21 anos) deu novo alento à comemoração. O principal elemento utilizado nos discursos passou a ser a idéia de que, em 1964, os comunistas teriam tentado uma nova investida e que esta, à semelhança de 1935, fora impedida pela atuação vigilante das Forças Armadas. Ou seja, o mesmo inimigo de três décadas antes ainda precisava ser combatido. A associação entre 1935 e 1964 tornou-se obrigatória.

Na década de 1980, com o país respirando novamente ares de abertura política, começou o declínio da comemoração da Intentona, perdendo também cada vez mais força a veemente simbologia anticomunista. A partir de 1990, nenhum presidente da República voltou a participar da cerimônia, contrariando uma tradição que se mantinha desde 1936.

Celso Castro

  Twitter Facebook Youtube Flickr Eclass      Mais   

   

 

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
RIO: Praia de Botafogo, 190, 14º andar, Rio de Janeiro - RJ - 22250-145 • Tels. (21) 3799.5676
SÃO PAULO: Avenida Paulista, 1471, 1º andar, Bela Vista - São Paulo - 01311-200 • Tel: (11) 3799 -3755
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2017. Todos os direitos reservados • Usando: Drupal! • Use versões recentes do IE, Firefox, Chrome, Opera
Lista de URLs do CPDOC Busca: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/page-sitemap

Portal FGVENG

Escolas FGV

Acompanhe na rede