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O Governo de Juscelino Kubitschek
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JK e a política da ex-capital

Criador de Brasília, símbolo maior da meta de "50 anos em 5", foi contudo na cidade do Rio de Janeiro que Juscelino Kubitschek exerceu quase todo o seu governo. A então capital federal, "caixa de ressonância" das questões nacionais, com sua população alfabetizada e concentrada no meio urbano, representava um dos mais expressivos contingentes eleitorais do país. Por isso mesmo, seu futuro político era um tema do qual o presidente não queria e nem poderia ficar distante. JK sabia que, para fechar seu governo em 1961 e, sobretudo, para preparar a volta ao palácio do Planalto cinco anos depois, era indispensável ter uma política traçada para a ex-capital.

A política carioca era, no entanto, um grande desafio para JK. A começar pelo fato de que, nas eleições presidenciais de 1955, o eleitorado da cidade havia preterido seu nome em favor de outro candidato, o ex-governador paulista Ademar de Barros. Pode-se atribuir esse fracasso, em boa medida, à fragilidade do PSD diante do quadro de polarização político-partidária que marcava a política do Rio de Janeiro: de um lado, o PTB de Vargas; de outro, a UDN de Carlos Lacerda.

Vista do Rio de Janeiro, capital da República Não é, pois, difícil entender a preocupação, e conseqüentemente, a atuação de JK em relação ao futuro político da cidade que ia deixar de ser a capital do país em 1960. Para Kubitschek, mais importante do que a definição jurídica do estado da Guanabara dada pela Lei San Tiago Dantas, era a candidatura de Carlos Lacerda ao governo do novo estado. Tribuno implacável, dono de uma oratória demolidora, Lacerda fora figura de proa nos eventos que levaram ao suicídio do presidente Vargas em 1954 e à tentativa, em novembro de 1955, de impedir a posse do próprio JK. Ameaçado pela força da voz e da imagem de Lacerda, o governo JK chegou a baixar uma portaria proibindo as emissoras de rádio e TV de transmitir programas "insultuosos às autoridades públicas". O objetivo, claro, era tirar do ar o "demolidor de presidentes".

A atuação de JK na primeira eleição para governador da Guanabara, que coincidiria com a escolha de seu próprio sucessor na presidência da República, foi influenciada por alguns fatores. Em primeiro lugar, Juscelino apostou na idéia de que a vitória de candidatos da UDN em 1960 poderia contribuir para a sua volta à presidência cinco anos depois. Quem sabe Lacerda, eleito governador da Guanabara, abandonaria os propósitos golpistas? Quem sabe fracassaria ao governar um estado que, ao contrário do antigo Distrito Federal, não seria sustentado pelo governo federal, ainda mais num momento em que se preconizava, devido à inflação crescente, a adoção de uma política nacional de austeridade financeira? O sonho de Lacerda de ser presidente era conhecido de todos, e o importante para JK era impedir que a Guanabara pudesse se tornar uma plataforma de lançamento para vôos mais altos de seu governador rumo ao Alvorada, que ele, JK, havia construído.

De maneira discreta, bem ao gosto dos mineiros, JK apresentou o nome de Negrão de Lima como candidato da coligação PSD-PTB ao governo da Guanabara. Experiente político mineiro, Negrão não era um desconhecido na política carioca, uma vez que havia ocupado a prefeitura do Distrito Federal entre 1956 e 1958 por indicação de JK. No entanto, menos do que lutar pela indicação de um candidato, o presidente se movimentava para evitar que a escolha de determinados nomes pudesse prejudicar seus futuros interesses eleitorais. Por essa razão, se opôs ao lançamento da candidatura de Ernani do Amaral Peixoto, uma vez que não pretendia estimular nenhum nome do PSD capaz de ofuscar sua volta à presidência em 1965.

Dragões da Independência perfilados diante do Palácio Tiradentes na abertura da última sessão legislativa da Câmara dos Deputados no Rio de Janeiro, em 16 mar. 1960 A falta de consenso entre o PTB e o PSD em torno de um nome capaz de unir as forças antilacerdistas fez com que os dois partidos acabassem apresentando candidatos diferentes: Sérgio Magalhães (PTB-PSB) e Ângelo Mendes de Morais (PSD). Se a vitória de Lacerda não era percebida como ameaça aos futuros projetos de JK - ao contrário, talvez -, o mesmo não ocorria com Sérgio Magalhães, membro da Frente Parlamentar Nacionalista, cujo crescimento indicava o potencial político-eleitoral da esquerda nos anos 60. A Guanabara nas mãos da esquerda do PTB, imaginava JK, talvez viesse a dificultar a composição de forças políticas capaz de garantir sua volta ao poder em 1965.

Embora não se possa atribuir a vitória apertada de Lacerda sobre Magalhães - uma diferença de apenas 2,3% dos votos - à posição ambígua do PSD e de JK na campanha eleitoral, é certo que esta teve um peso razoável. Cartão postal do Palácio da Alvorada. 1960 De todo modo, com Lacerda vitorioso, tratava-se de manter a estratégia com vistas a JK-65, e apostar no desgaste político e administrativo do governador carioca. A disputa era clara: de um lado, a Novacap, a Brasília de Kubitschek; de outro, a Belacap, a Guanabara de Lacerda. O prêmio para o vitorioso poderia ser a estrada que levava ao Alvorada.

A radicalização política, que aumentou com a posse de João Goulart na presidência da República em função da renúncia de Jânio Quadros em agosto de 1961, e acabou desembocando no golpe militar de março de 1964, fez ruir a estratégia política tão cuidadosamente Negrão de Lima(ao centro) e Pixinguinha(à esquerda) montada por JK. Não olhar para 60, só para 65, talvez tenha sido o seu grande erro, como avaliou posteriormente Amaral Peixoto. Cassado em junho de 1964 por um período de 10 anos, JK pôde, no entanto, saborear no ano seguinte a derrota do candidato de Lacerda para seu amigo e pessedista de longa data, Negrão de Lima, que se elegeu como o segundo governador da Guanabara.

Marly Motta

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