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O Governo de Juscelino Kubitschek

JK rumo à presidência > O difícil caminho de uma candidatura

O difícil caminho de uma candidatura

A campanha para a presidência da República de 1955 nasceu sob o impacto do suicídio de Getúlio Vargas em agosto de 1954, que serviu de vetor para as forças políticas no embate eleitoral. O país, desde então, vinha sendo governado pelo vice-presidente João Café Filho. No cenário político, duas correntes se defrontavam: o varguismo, que ganhou novo alento com o gesto de Getúlio, e a oposição capitaneada pela União Democrática Nacional (UDN), que havia sido alçada ao poder e não dava mostras de querer deixá-lo. O confronto transformou a sucessão presidencial de 1955 num intricado jogo de xadrez, em que os lances decisivos foram a derrota da tese de uma candidatura de "união nacional", a articulação da aliança entre o Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o apoio dos comunistas a Juscelino Kubitschek e a comprovação da falsidade da chamada Carta Brandi.

Os antigetulistas, que tinham como um de seus principais líderes o jornalista Carlos Lacerda, consideravam que a eliminação da herança de Vargas se faria através do lançamento de uma candidatura única que reunisse a direita e o centro, i.e., a UDN e o PSD. A idéia foi proposta por Etelvino Lins, preeminente liderança do PSD pernambucano antivarguista, e apropriada pelo presidente Café Filho, que se opunha à candidatura do governador mineiro Juscelino Kubitschek. Em dezembro de 1954, os chefes militares divulgaram um documento no qual apoiavam a candidatura de "união nacional", além de rechaçar a possibilidade de uma candidatura militar. Juscelino retrucou às pressões militares com um discurso que foi publicado no Correio da Manhã, no qual afirmava a primazia dos partidos na decisão final.

Dias antes da reunião do diretório nacional do PSD, Etelvino Lins apresentou uma lista tríplice da qual deveria sair o candidato pessedista: Gustavo Capanema, líder da maioria, Lucas Lopes e o próprio Juscelino. Contudo, os dois primeiros indicados não aceitaram a indicação. A candidatura JK foi aprovada por 123 votos contra 36, com a oposição dos diretórios de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Pernambuco.

JK, autêntica "raposa pessedista", estava ciente da importância das bases locais para a viabilização de sua candidatura, principalmente das bases de Minas Gerais. Assim, tratou de assegurar a fidelidade do vice-governador, Clóvis Salgado, do Partido Republicano (PR). Depois de muitas idas e vindas, um acordo foi fechado em 8 de novembro, com o PR aceitando abrir mão da cabeça de chapa para o governo do estado e apoiando a candidatura de JK.

Convenção do PSD que homologou a candidatura de Juscelino Kubitschek à Presidência da República. 10 fev. 1955. Juscelino Kubitschek (sentado). Em 10 de fevereiro de 1955, o PSD homologou a candidatura de JK, que obteve 1.646 votos de um universo de 1.925. Opuseram-se os diretórios dissidentes de Pernambuco, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e houve também defecções na Bahia e no Distrito Federal. Foi decidido que os diretórios dissidentes sofreriam intervenção. Ainda no mesmo mês, o Partido Social Trabalhista (PST) aprovou a aliança com o PSD.

Convenção do PSD que homologou a candidatura de Juscelino Kubitschek à Presidência da República. 10 fev. 1955. Juscelino Kubitschek acena para o povo.  Simultaneamente aos movimentos de JK, novos nomes anunciaram a intenção de concorrer, tais como o líder integralista Plínio Salgado, pelo Partido da Representação Popular (PRP), e Jânio Quadros. A UDN iniciou um verdadeiro périplo eleitoral. Primeiro, lançou Juarez Távora, que no dia seguinte desistiu de concorrer, ao tomar conhecimento de um acordo entre Jânio Quadros e Café Filho pelo qual a indicação do candidato a vice pertenceria a este último. Dias depois, Juarez reconsiderou sua decisão, mas tornou a renunciar à candidatura. A indecisão de Juarez levou os líderes udenistas e pessedistas dissidentes a lançar o nome de Etelvino Lins, que desistiu após a intervenção do diretório nacional do PSD nas seccionais de Pernambuco e do Rio Grande do Sul. Nereu Ramos, líder do PSD catarinense, diante da ameaça de intervenção, já havia concordado com a decisão da direção nacional do partido.

No cálculo de Juscelino, a aliança PSD-PTB era condição sine qua non para a vitória, assim como a indicação de João Goulart para vice-presidente. Nas palavras de Maria Victoria Benevides, "Juscelino e Jango, personificando a herança getulista, consagraram o ‘ponto ótimo’ da aliança PSD-PTB".

Propaganda de apoio do líder comunista Luís Carlos Prestes a Juscelino Kubitschek e João Goulart. 1955 Na ocasião da ratificação da aliança pelos petebistas, Luís Carlos Prestes, líder do proscrito Partido Comunista Brasileiro (PCB), declarou a intenção de firmar um acordo entre os comunistas e os petebistas. Pouco depois, o PCB divulgou um Manifesto Eleitoral apoiando oficialmente a chapa JK-Jango. Esse apoio repercutiu nos meios militares de tal forma que o ministro da Guerra, general Henrique Lott, veio a público condenar a aproximação de JK com os comunistas, fato negado pelo candidato pessedista.

A confirmação da união entre os pessedistas e os petebistas (apoiada pelos comunistas) assustou sobremaneira os antigetulistas. Juarez Távora mais uma vez reconsiderou seu afastamento do pleito e lançou sua candidatura pelo Partido Democrata Cristão (PDC), que recebeu o apoio do Partido Socialista Brasileiro (PSB). A UDN decidiu então dar apoio a Juarez Távora, indicando para vice Mílton Campos. O cenário eleitoral ficou completo com a apresentação da candidatura de Ademar de Barros, pelo Partido Social Progressista (PSP), tendo como vice Danton Coelho.

A definição das chapas não reduziu os conflitos e as ameaças à realização do pleito. Primeiramente, o pronunciamento do general Canrobert Pereira da Costa no Clube Militar, por ocasião do primeiro aniversário da morte do major Rubens Vaz (morto em 5 de agosto de 1954 no atentado da rua Tonelero, que na verdade visava Carlos Lacerda), causou furor nos meios políticos pelas críticas ao regime e ao abandono da candidatura de "união nacional". Depois, a Tribuna da Imprensa, o jornal de Lacerda, divulgou uma carta, datada de 5 de agosto de 1953 e endereçada ao então ministro do Trabalho, João Goulart, mencionando contatos secretos que este teria mantido com Juan Domingo Perón, então presidente da Argentina, para implantar uma república sindicalista no Brasil. O suposto autor da carta, o deputado argentino Antonio Jesus Brandi, revelava também a existência de contrabando de armas argentinas para o Brasil. Para averiguar as denúncias foi aberto um inquérito policial militar (IPM), presidido pelo general Emílio Maurel Filho, que concluiu pela falsidade da Carta Brandi.

Mais uma vez a UDN tentou impedir uma possível vitória da chapa JK–Jango. Às vésperas do pleito, apresentou uma emenda constitucional transferindo para a Câmara dos Deputados a eleição presidencial no caso de o eleito não conseguir maioria absoluta, i.e., 50% dos votos+1. Não conseguiu, porém, aprová-la.

A eleição de 3 de outubro de 1955 foi uma das mais disputadas da história brasileira. Juscelino ganhou com uma das menores percentagens de votos válidos (33, 82%) até então dadas a um presidente da República. Além disso, o drama da campanha foi apenas o princípio de uma sucessão de ameaças à legalidade democrática, cujo ponto crítico seria o Movimento do 11 de Novembro, dois meses e meio antes do desenlace final: a posse dos eleitos, em 31 de janeiro de 1956.

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