A- A+

O Governo de Juscelino Kubitschek
O Brasil de JK > A Universidade de Brasília

A Universidade de Brasília

Israel Pinheiro (à esquerda); Cristiano Machado (à direita). "A UnB não é uma universidade qualquer. Muito lutamos para criá-la. Havia demasiadamente gente contra. Israel Pinheiro, engenheiro admirável, dizia que duas coisas não deviam existir em Brasília: operários e estudantes. É evidente que Juscelino não se guiava por esse critério, mas ele também duvidou da conveniência de se criar aqui uma livre universidade pública ou uma universidade privada. Nós que lutamos para ver surgir a Universidade de Brasília, tal como foi concebida e afinal consagrada na lei, sempre a pensamos como a Casa da Consciência Crítica em que o Brasil se explicaria e encontraria saída para seus descaminhos."

Este texto de Darci Ribeiro, extraído de Universidade, para quê?, contém alguns pontos interessantes: seria possível construir a nova capital sem incluir no planejamento uma universidade? Para algumas pessoas ligadas ao governo, a idéia de universidade estava associada à de possíveis turbulências; para outros, à consciência crítica do país.

Juscelino Kubitschek e Lúcio Costa examinam planta. Quando o arquiteto Lúcio Costa concebeu Brasília como nova capital do Brasil, já pensava a cidade como um pólo de irradiação cultural e intelectual, dotado de uma nova universidade. Previu até o local do seu campus: entre a Asa Norte e o Lago. Mas, de fato, a proposta de criação da Universidade de Brasília só foi encaminhada por Juscelino Kubitschek ao Congresso no dia da inauguração da cidade, em 21 de abril de 1960. Desde então, até fins de 1961, uma intensa atividade foi desenvolvida para delinear o perfil da nova instituição. Nesses trabalhos desempenharam um papel fundamental Darci Ribeiro e Anísio Teixeira, que, a convite do professor Vítor Nunes Leal (chefe do Gabinete Civil de novembro de 1956 a agosto de 1959 e consultor geral da República de fevereiro a outubro de 1960), organizaram e direcionaram a discussão. Em seu livro UnB: invenção e descaminho, Darci Ribeiro dá este depoimento: "Procurei então, interessar meus amigos Vítor Nunes Leal, chefe da Casa Civil, e Ciro dos Anjos, subchefe, na idéia da criação na nova capital de uma universidade tão inovadora no plano cultural quanto o era a nova Brasília no plano urbanístico e arquitetural."

A inspiração da nova universidade, que surgiu em contraposição às instituições existentes, consideradas obsoletas, veio do interrompido projeto da Universidade do Distrito Federal (UDF), impulsionado por Anísio Teixeira na década de 1930. Em 15 de dezembro de 1961, o presidente João Goulart sancionou a Lei no 3.998, que autorizava o Poder Executivo a instituir a Fundação Universidade de Brasília (FUB), mantenedora da futura universidade. Alguns dias depois, em 5 de janeiro de 1962, o então ministro de Educação e Cultura, Antônio Ferreira de Oliveira Brito, empossou os membros do primeiro conselho diretor da FUB. Em 15 de janeiro, através do Decreto no 500, foram finalmente aprovados o estatuto da FUB e a estrutura da Universidade de Brasília (UnB). Na primeira reunião do conselho, Darci Ribeiro seria eleito presidente do conselho e reitor da nova universidade.

O Plano Orientador da Universidade de Brasília aprovado pelo conselho diretor da FUB estabelecia que a nova universidade começaria a constituir-se em torno de oito institutos centrais, cujo desdobramento em departamentos e faculdades seria estabelecido oportunamente. Entretanto, a universidade não esperou essas definições para entrar em funcionamento. Uma resolução o conselho diretor autorizou a implantação imediata de três cursos transitórios (considerados cursos-tronco) que constituíram o embrião da UnB. Eram eles os cursos de direito, economia e administração; arquitetura e urbanismo; e letras brasileiras, abrangendo literatura e jornalismo.

As primeiras aulas foram ministradas em um dos prédios da Esplanada dos Ministérios. O corpo discente inicial era composto de 413 estudantes que desenvolveriam estudos de graduação e de pós-graduação. O campus da UnB só foi inaugurado na data do segundo aniversário da cidade, em 21 de abril de 1962.

O modelo universitário cristalizado nos primeiros estatutos da UnB, aprovados em fins de 1962, se baseava na aplicação do princípio da autonomia universitária e na estreita articulação entre ensino e pesquisa. Porém, a demora na implantação efetiva do estatuto e a grande movimentação política gerada em torno do assunto criaram um clima de instabilidade institucional que teve como desfecho a invasão e a ocupação policial do campus em outubro de 1965, e a demissão de quase todos os professores, além da repressão aos estudantes. A UnB, pensada em ambiente democrático no governo JK, teria sua regulamentação implementada sob o regime autoritário pós-64.

Helena Bomeny

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
RIO: Praia de Botafogo, 190, 14º andar, Rio de Janeiro - RJ - 22250-145 • Tels. (21) 3799.5676
SÃO PAULO: Avenida Paulista, 1471, 1º andar, Bela Vista - São Paulo - 01311-200 • Tel: (11) 3799 -3755
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2020. Todos os direitos reservados • As manifestações expressas por integrantes dos quadros da Fundação Getulio Vargas, nas quais constem a sua identificação como tais, em artigos e entrevistas publicados nos meios de comunicação em geral, representam exclusivamente as opiniões dos seus autores e não, necessariamente, a posição institucional da FGV. Portaria FGV Nº19
Lista de URLs do CPDOC Busca: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/page-sitemap

Portal FGVENG

Ensino

Acompanhe na rede

Nosso website coleta informações do seu dispositivo e da sua navegação por meio de cookies para permitir funcionalidades como: melhorar o funcionamento técnico das páginas, mensurar a audiência do website e oferecer produtos e serviços relevantes por meio de anúncios personalizados. Para saber mais sobre as informações e cookies que coletamos, acesse a nossa Política de Cookies e a nossa Política de Privacidade.