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A Era Vargas: dos anos 20 a 1945

Diretrizes do Estado Novo (1937 - 1945) > Tio Sam chega ao Brasil

Tio Sam chega ao Brasil

Este é o título de um livro do historiador Gerson Moura que trata da ostensiva campanha de penetração cultural norte-americana no Brasil desencadeada no início dos anos 40. Foi uma época em que gradativamente o american way of life foi ganhando espaço na sociedade brasileira, graças a um cuidadoso plano de conquista. Esse plano fazia parte da estratégia dos Estados Unidos de promover a cooperação interamericana e a solidariedade hemisférica, enfrentar o desafio do Eixo e consolidar-se como grande potência. A campanha teve início com a propagação dos "valores pan-americanos" durante as conferências interamericanas. O passo seguinte foi a criação, em agosto de 1940, de uma superagência de coordenação dos negócios interamericanos, sob a chefia de Nelson Rockefeller, chamada Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA). Essa iniciativa diferia dos programas de colaboração já em funcionamento por estar diretamente vinculada ao Conselho de Defesa Nacional dos Estados Unidos.

Para alcançar seus objetivos, o OCIAA contava com as divisões de comunicações, relações culturais, saúde e comercial/financeira. Cada uma dessas divisões subdividia-se em seções: rádio, cinema, imprensa; arte, música, literatura; problemas sanitários; exportação, transporte e finanças. Durante todo o seu tempo de vida, o OCIAA contou com ativa colaboração do DIP, quer na condução de projetos conjuntos, quer como órgão de apoio à sua ação no Brasil.

Na área de comunicação e informação, a agência norte-americana procurava veicular na imprensa brasileira notícias favoráveis aos Estados Unidos e, nos Estados Unidos, divulgar o Brasil. Procurava também difundir as técnicas mais modernas do jornalismo norte-americano, como por exemplo a recepção e transmissão de radiofotos transmissão de radiofotos. Mas nada se comparava, em termos de glamour e apelo popular, aos programas radiofônicos e, principalmente, às produções cinematográficas sob sua coordenação.

No rádio, um dos mais importantes instrumentos de propaganda da guerra, o OCIAA apresentava programas transmitidos diretamente dos Estados Unidos ou por estações locais. Além de fazer a cobertura dos fatos relacionados ao andamento da guerra, as transmissões procuravam divulgar a cultura norte-americana e se contrapor à propaganda de guerra do Eixo em programas como "Família Borges", "Barão Eixo" ou "O Brasil na Guerra".

Já na área cinematográfica, tanto os filmes de ficção quanto os documentários desempenhavam o papel de difusores culturais e ideológicos. Na produção dos primeiros, o OCIAA contou com a colaboração das indústrias cinematográficas de Hollywood. Procurava-se evitar a distribuição na América Latina de filmes que expusessem instituições e costumes norte-americanos malvistos, como a discriminação racial, ou que pudessem ofender os brios dos latino-americanos. Os bandidos mexicanos, por exemplo, foram banidos das produções de Hollywood. Outra importante iniciativa foi a criação de personagens que ajudassem a fomentar a solidariedade continental. Data dessa época o nascimento do conhecido personagem dos Estúdios Disney, o papagaio Zé Carioca. O filme Alô Amigos, que apresentou esse personagem ao mundo como amigo do Pato Donald, enfatizava a política de boa vizinhança. Vejamos o que diz Gerson Moura: "Zé Carioca é falador, esperto e fã de Donald; sente um imenso prazer em conhecer o representante de Tio Sam e logo o convida para conhecer as belezas e os encantos do Brasil. Brasileiramente, faz-se íntimo de Donald - quando este lhe estende a mão, Zé Carioca lhe dá um grande abraço -, que aceita o oferecimento e sai para conhecer o Brasil."

Na área da saúde, a ação do OCIAA voltou-se basicamente para o controle da malária, o treinamento de enfermeiras e a educação médica. Esses programas não tinham apenas o objetivo político de obter a aprovação da população à atuação da agência no Brasil. Destinavam-se também a preparar o terreno para o provável estacionamento de tropas norte-americanas em território brasileiro e para a extração de materiais estratégicos a serem fornecidos aos Estados Unidos, ambas as questões presentes na agenda da negociação do alinhamento brasileiro.

Foi nessa época que Carmem Miranda se tornou símbolo da cultura brasileira nos Estados Unidos, que o Zé Carioca ajudou a construir o estereótipo do brasileiro simpático, que a Coca-Cola substituiu os sucos de frutas na mesas da classe média brasileira etc. etc. Apesar dos focos de resistência à sua ação, o OCIAA conseguiu erradicar a influência do Eixo no Brasil e sedimentar o discurso pan-americanista da solidariedade continental. Terminada a guerra, o governo dos Estados Unidos encerrou as atividades da agência, deixando a cargo embaixada americana no Brasil a condução de algumas de suas atividades.

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