Séries e dossiês

Patrimônio Documental Indígena: trabalho colaborativo entre o FGV CPDOC e o Povo Apinajé

O objetivo do projeto, iniciado em 2022, era estabelecer uma colaboração com o povo Apinajé para a identificação, organização e divulgação de documentos do acervo do CPDOC referentes a esse povo indígena. Inicialmente esse acervo era composto por cerca de 3.000 documentos audiovisuais do arquivo do antropólogo Roberto DaMatta. Posteriormente, ele foi acrescido de outros arquivos e documentos, como os de Odair Giraldin, Luís Olinto e Curt Nimuendajú. Essa colaboração inclui também a formação de alunos indígenas no Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais do CPDOC, a realização de entrevistas de História Oral e a realização de filmes documentários e outros produtos. Convidamos você a se unir a nós nessa jornada de resgate e valorização desse patrimônio documental indígena, que contribui para o reconhecimento e o fortalecimento da cultura Apinajé.

Produto Discente

 

Andressa Iremex Apinajé - mestrado em Bens Culturais e Projetos Sociais​

Título: Amnhĩjagri (resguardo) Apinajé: saberes, corpo, saúde e memória​

Data de defesa 23/09/2025​

Orientador: Celso Castro e Odair Giraldin (coorientador)

Este trabalho aborda o tema do resguardo entre os Apinajé, principalmente o resguardo da mulher grávida e após o parto. Tem como objetivo analisar as informações atuais sobre o tema e comparar com as informações obtidas em registros feitos por Roberto DaMatta nos anos 1960 e 1970 com o grande conhecedor da cultura Apinajé, o Katàm Kaàk Grossinho, cujos áudios estão no Acervo do FGV CPDOC. Após estudar os audios, dialoguei com anciãs e anciãos para entender melhor sobre o tema. Além da dissertação, também foram produzidos diversos vídeos com as entrevistas realizadas, que são os produtos finais, destinados a serem socializados com os mais jovens, objetivando tornar os resguardos mais conhecidos e praticados, como forma de fortalecimento do corpo e da identidade do povo Panhĩ/Apinajé.

Raimunda Kupẽprõ e João Pedro Ahtwỳr

João Pedro Ahtwỳr ensina que homens e mulheres devem seguir o amnhĩjagri, evitando certos alimentos durante o resguardo para não prejudicar o parto e o bebê. Ele destaca a importância de preservar os saberes tradicionais e o uso de remédios panhĩ. ​

Raimunda Kupẽprõ orienta sobre alimentos que devem ser evitados ou consumidos na gravidez para proteger mãe e filho, além de cuidados com o bebê, como sua posição ao deitar e práticas antigas de resguardo.

Sikrãpore, Màxy Helena e Maria Irepxi

Màxy Helena lembra que, na primeira menstruação, usava palha de krire e evitava banho completo; no pós-parto, amarrava a barriga e passava leite na cabeça do bebê para fortalecer os cabelos. No resguardo, coçava-se com madeira e o casal evitava esforço e relações.

Maria Sikrãpo ensina que no amnhĩjagri se deve comer certos peixes e evitar outros, além de manter postura adequada e alimentação fria. Na gravidez, recomenda pombinhas sem sal e beiju.

Maria Irepxi destaca que a parteira recebia o bebê com presentes e nomeava a criança, reforçando a importância do amnhĩjagri e do pijagri para a saúde materna e infantil.

Maria dos Anjos Xagrà

​Maria dos Anjos Xagrà ensina que, no amnhĩjagri, mulher e homem devem evitar molhar o cabelo, coçar-se com unhas e comer carnes proibidas, consumindo apenas alimentos leves como beiju e chá. Conta que teve cabelo branco cedo por quebrar o resguardo, e alerta que desobedecer traz doenças. Indica remédios tradicionais como casca de mutamba e raiz de pau de caninana.

Cristino Gôhtũm

Cristino Gôhtũm ensina que o amnhĩjagri começa já na gravidez, com orientações da mãe e parteira, alimentação adequada e amarração da barriga. O pai também deve evitar esforços.

Práticas tradicionais como o consumo da pombinha branca auxiliam no parto. Ele alerta que o abandono dessas tradições enfraquece os jovens e ressalta a importância de preservar saberes ancestrais.