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A trajetória política de João Goulart

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Ulysses Silveira Guimarães nasceu em Rio Claro (SP) no dia 6 de outubro de 1916, filho de Ataliba Silveira Guimarães e de Amélia Correia Fontes Guimarães.

Advogado formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) em 1940, em 1945 ingressou no Partido Social Democrático (PSD), em que permaneceria até a sua extinção em 1965. Em 1947, elegeu-se deputado à Assembléia Constituinte de São Paulo, e em 1950, deputado federal. Durante o primeiro mandato na Câmara dos Deputados (1951-1955) integrou a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do jornal Última Hora, um dos estopins da crise político-militar que culminou com o suicídio do presidente Getulio Vargas (24/8/1954).

Reeleito em 1954 e 1958, em setembro de 1961 votou a favor da Emenda Constitucional nº 4, que instituiu o parlamentarismo, solução encontrada pelo Congresso para o veto imposto pelos ministros militares à posse de João Goulart, vice-presidente da República e substituto de Jânio Quadros, que havia renunciado em 25 de agosto. Após a posse de Goulart no dia 7 de setembro, foi constituído o primeiro gabinete parlamentarista, encabeçado pelo pessedista Tancredo Neves, e Ulysses Guimarães foi nomeado ministro da Indústria e Comércio. Em junho de 1962, exonerou-se do cargo, juntamente com todo o gabinete e retornou à Câmara. Em outubro, foi eleito para o seu quarto mandato.

Goulart foi afastado do poder em 31 de março de 1964 por um golpe militar. Se, num primeiro momento, Ulysses apoiou a deposição do presidente, pouco depois entrou em atrito com o regime militar. Assim, após a edição do Ato Institucional nº 2 (21/10/1965), que extinguiu os partidos políticos, instaurando o bipartidarismo no país, Ulysses filiou-se ao oposicionista Movimento Democrático Brasileiro (MDB), logo tornando-se um dos principais nomes do partido.

Reeleito para a Câmara em 1966 e 1970, em fevereiro de 1971 assumiu a presidência do MDB. Em 1973, foi lançado "anticandidato" à presidência da República, disputada no Colégio Eleitoral, tornando-se então um símbolo de resistência ao regime militar. A eleição indireta, realizada em 15 de janeiro de 1974, deu a vitória, conforme o previsto, à chapa governista, encabeçada pelo general Ernesto Geisel. Em novembro Ulysses elegeu-se, deputado federal pela sétima vez consecutiva. Nesse pleito, o MDB obteve uma consagradora vitória, elegendo 15 senadores nas 21 vagas em disputa e 165 entre os 364 deputados federais.

Em abril de 1977, depois que o MDB se recusou a aprovar o projeto de reforma do Judiciário enviado pelo governo, o presidente Geisel decretou o recesso do Congresso e editou o chamado "pacote de abril", que estabelecia, entre outros pontos, a permanência do pleito indireto para os governos estaduais em 1978, e a eleição indireta de um senador por estado. Em junho, o MDB obteve consentimento para a formação de uma rede nacional de rádio e televisão a fim de transmitir os pronunciamentos de seus lideres feitos durante o simpósio "A luta pela democracia", que foram bastante criticos ao regime militar. Em represália, o líder do MDB na Câmara, Alencar Furtado, teve seu mandato cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos, e Ulysses foi acusado de desobediência à legislação eleitoral.

Em agosto de 1978, o MDB aprovou os nomes do general Euler Bentes e do senador Paulo Brossard para disputarem a presidência e a vice-presidência da República por via indireta. Ulysses Guimarães designou uma comissão executiva para organizar a campanha dos candidatos, mas não participou diretamente dela. Reunido em 15 de outubro, o Colégio Eleitoral elegeu a chapa governista formada pelo general João Figueiredo e por Aureliano Chaves. Em novembro, Ulysses voltou a eleger-se para a Câmara.

Em março de 1979, o general Figueiredo tomou posse na presidência. Nesse ano, duas importantes medidas foram tomadas: a decretação da anistia, em agosto, e a extinção dos partidos políticos, em novembro. No quadro da reformulação partidária que então se abria, a maioria do antigo MDB ingressou no Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), sendo Ulysses Guimarães eleito seu presidente.

Em novembro de 1980 o Congresso aprovou projeto do governo restabelecendo eleições diretas para os governos dos estados em 1982. Dois anos depois, Ulysses reelegeu-se mais uma vez. Nesse pleito, o PMDB elegeu nove governadores. O avanço oposicionista fez crescer a mobilização em torno da eleição direta para a presidência da República. Aos poucos, a campanha das Diretas Já tomou conta das ruas. Apelidado pela imprensa de "o Senhor Diretas", Ulysses participou intensamente dos comícios que ocorriam em todo o país. No Congresso, estava em discussão uma emenda constitucional, apresentada pelo deputado Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para a presidência e convocava a primeira eleição para 15 de novembro de 1984. Porém, no dia 25 de abril, a emenda não foi aprovada. A oposição, mesmo dividida, decidiu participar das eleições indiretas, no Colégio Eleitoral, escolhendo Tancredo Neves, governador de Minas Gerais, seu candidato.

No entanto, era preciso conseguir o apoio de setores governistas, condição essencial para a vitória. Isso tornou-se possível porque, à medida que o nome de Paulo Maluf, ex-governador de São Paulo, consolidava-se como o candidato do situacionismo à presidência, políticos antimalufistas formaram uma dissidência, a Frente Liberal, e passaram a negociar a sucessão com a oposição. Assim, coube à Frente Liberal indicar o candidato a vice-presidente, o senador José Sarney. Em 15 de janeiro de 1985, no Colégio Eleitoral, Tancredo foi eleito presidente, derrotando Maluf por 480 votos contra 180.

A posse de Tancredo Neves estava marcada para o dia 15 de março. Na noite de 14 de março, contudo, foi internado às pressas num hospital de Brasília. Sarney foi empossado interinamente na presidência, mas o homem forte era Ulysses Guimarães. Além de ocupar a presidência da Câmara dos Deputados, assumida em fevereiro, e a do PMDB, partido que detinha 80% dos ministérios e a maioria dos parlamentares, por ser o presidente da Câmara era o substituto legal de Sarney. No dia 21 de abril, Tancredo Neves morreu e Sarney foi efetivado na presidência.

Em fevereiro de 1986, o governo lançou um plano econômico, o Plano Cruzado, cujo objetivo era, através do congelamento de preços e salários, reduzir a inflação. Em decorrência do sucesso inicial do Plano Cruzado, Sarney atingiu altos índices de popularidade. Em março, Ulysses foi reeleito presidente do PMDB. Disputando, pela décima vez, uma cadeira de deputado federal por São Paulo, percorreu o país fazendo campanha dos candidatos do partido aos governos estaduais. Em novembro, o PMDB conseguiu eleger todos os governadores, à exceção do de Sergipe. Ulysses, com 590.873 votos, foi o segundo deputado federal mais votado do país. No dia 21 de novembro, o governo anunciou que o Plano Cruzado teria que sofrer alguns ajustes. Em conseqüência, as tarifas públicas aumentaram e a inflação disparou. Diante da crise interna do PMDB, Ulysses precisou buscar apoio fora do partido para garantir sua reeleição para a presidência da Câmara em 3 de março. Neste mesmo dia, foi eleito presidente da Assembléia Nacional Constituinte (ANC). Passou então a acumular a presidência do PMDB, da Câmara dos Deputados e da Constituinte.

A ANC foi instalada no dia 1º de fevereiro de 1987. Em maio, Ulysses começou a defender a proposta de mandato de cinco anos para o presidente da República, ponto de vista defendido por Sarney. A posição adotada por Ulysses, acusado de cumplicidade com o presidente, contribuía para acentuar a crise no PMDB. Em junho de 1988, diversos peemedebistas deixaram o partido e criaram o Partido da Social Democracia Brasileira. No dia 5 de outubro, a nova Constituição foi promulgada.

As eleições presidenciais estavam marcadas para 15 de novembro de 1989. Em abril, Ulysses foi escolhido candidato do PMDB, mas na prática uma parcela significativa do partido não participou de sua campanha. Mesmo dispondo de 22 minutos diários de programa eleitoral na mídia, Ulysses obteve apenas 4,43% dos votos. No segundo turno, realizado em dezembro, Fernando Collor de Melo derrotou Luís Inácio Lula da Silva e elegeu-se presidente. Em outubro de 1990, Ulysses foi reeleito deputado federal, recebendo contudo menos de um décimo dos votos alcançados em 1986. Em março de 1991, Orestes Quércia o substituiu na presidência do PMDB.

A recuperação política de Ulysses ocorreu em meados de 1992, durante o processo de afastamento do presidente Collor. No dia 9 de maio, a revista Veja publicou sérias denúncias do empresário Pedro Collor contra o irmão-presidente. Mesmo após a instalação da CPI, Ulysses não via com bons olhos a proposta de impeachment. Porém, com a evidência dos fatos e a adesão popular, mudou de posição e seu gabinete transformou-se no quartel-general da CPI. Ciente de que a vitória do impeachment no Congresso seria mais fácil se a votação não fosse secreta, trabalhou para a adoção do voto aberto, afinal aprovado. Em 29 de setembro, por grande maioria, Collor foi declarado impedido de continuar na presidência, sendo substituído pelo vice Itamar Franco.

Ulysses Guimarães desapareceu em 12 de outubro de 1992, em um acidente de helicóptero no litoral do Rio de Janeiro. Seu corpo não foi encontrado, mas a morte foi oficialmente reconhecida.

Era casado com Ida de Almeida.

Seu arquivo encontra-se depositado no Cpdoc da Fundação Getulio Vargas.

[Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001]

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