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A trajetória política de João Goulart

<<  Tancredo Neves

Tancredo de Almeida Neves, nasceu no dia 4 de março de 1910, em São João del Rei (MG), filho de Francisco de Paula Neves e de Antonina de Almeida Neves.

Advogado formado em 1932 pela Faculdade de Direito de Belo Horizonte (MG), no ano seguinte ingressou no Partido Progressista (PP), sendo eleito, em 1935, vereador em sua cidade natal. Com a extinção do PP filiou-se, em 1937, ao Partido Nacionalista Mineiro (PNM). Neste mesmo ano, com a implantação do Estado Novo pelo presidente Getulio Vargas e o conseqüente fechamento dos órgãos legislativos do país, perdeu o seu mandato.

No início de 1945, diante do enfraquecimento do Estado Novo, Vargas deu inicio a um projeto de reformas que incluía a reorganização dos partidos. As forças situacionistas se organizaram no Partido Social Democrático (PSD), criado em abril e ao qual Tancredo se filiou. Em outubro, Vargas foi derrubado por um golpe militar. Eleito para a Asembléia Legislativa de Minas Gerais, na legenda do PSD em 1947, Tancredo conquistou seu primeiro mandato de deputado federal 1950. No mesmo pleito, Getúlio foi eleito presidente da República e Juscelino Kubitscheck governador de Minas Gerais.

Empossado em fevereiro de 1951, em junho de 1953 licenciou-se da Camara para assumir o Ministério da Justiça. Nesse momento, o governo enfrentava cerrada oposição no Congresso, na imprensa e nas forças armadas e no empresariado. A situação foi se agravando progressivamente, culminando na madrugada de 5 de agosto de 1954, quando o jornalista Carlos Lacerda, principal porta-voz oposicionista, foi baleado na rua Tonelero, em Copacabana. No atentado, morreu o major-aviador Rubens Vaz. Tancredo Neves emitiu um comunicado afirmando a disposição do governo de elucidar o crime. Os resultados das primeiras investigações incriminavam dois membros da guarda pessoal de Vargas, logo dissolvida pelo presidente por sugestão de Tancredo.

Apesar dessa e de outras medidas do governo de colaboração com as investigaç ões, a tensão crescia. Respectivamente em 22 e 23 de agosto, a alta oficialidade da Aeronáutica e a da Marinha exigiram a renúncia do presidente. Na noite do dia 23, em reunião ministerial de urgência realizada no palácio do Catete, o presidente reiterou seu propósito de não renunciar, concordando entretanto em licenciar-se até a completa apuração dos fatos relacionados com o atentado. Por volta das cinco horas da manhã de 24 de agosto, Tancredo redigiu uma nota comunicando a decisão. Pouco depois, chegou a notícia de que um grupo de generais havia recomendado o afastamento definitivo do presidente. Recolhido em seus aposentos, Vargas suicidou-se. Tancredo acompanhou o corpo de presidente até São Borja (RS), onde presenciou o sepultamento e pronunciou violento discurso contra o novo governo, chefiado pelo vice-presidente João Café Filho.

Retornando à Câmara, passou a articular a candidatura vitoriosa de Juscelino Kubitschek à presidência no pleito de outubro de 1955. Diretor da Carteira de Redescontos do Banco do Brasil entre 1956 e 1958, nesse último ano assumiu a Secretaria de Finanças de Minas Gerais. Deixou o cargo em julho de 1960, para candidatar-se ao governo do estado. Derrotado no pleito, realizado em outubro, em novembro tornou-se presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, ai permanecendo até março de 1961.

A ação política de Tancredo voltou a ter destaque durante a crise resultante da renúncia de Jânio Quadros à presidência (25/8/1961). Seu substituto legal, o vice-presidente João Goulart, encontrava-se em visita à China. Goulart iniciou sua viagem de volta ao Brasil, mas os ministros militares vetaram sua posse. Foi então apresentada a proposta de uma emenda constitucional que convertia o regime presidencialista em parlamentarista, reduzindo os poderes do presidente, aceita pelos ministros militares. Em seguida, Tancredo Neves viajou para Montevidéu, onde Goulart se encontrava, a fim de obter a sua concordância, retornando a Brasília em 1º de setembro com a missão cumprida. A emenda foi aprovada pelo Congresso no dia 2, e cinco depois Goulart assumiu a presidência. No dia 8, Tancredo tornou-se primeiro-ministro do primeiro gabinete parlamentarista do governo Goulart.

Enfrentado uma crescente insatisfação social, com a multiplicação de protestos contra a inflação e por maiores reajustes salariais, e a radicalização da luta política entre os defensores das chamadas reformas de base (constitucional, agrária, urbana, bancária e tributária) e os conservadores que se opunham a elas, em junho de 1962 o gabinete Tancredo se demitiu. Em outubro, ele elegeu-se deputado federal pelo PSD mineiro. Em 6 de janeiro de 1963, o presidencialismo foi reinstaurado através de um plebiscito.

Tancredo retornou à Câmara em 1º de fevereiro. Nos meses que se seguiram tornou-se crescente a influência do movimento sindical nas decisões do governo. Em 30 de março de 1964, ele tentou evitar que o presidente comparecesse a um ato público promovido pelos sargentos, argumentando que sua presença iria aumentar a animosidade militar contra o governo. No dia seguinte Goulart foi deposto por um golpe militar e em meados de abril o general Humberto Castelo Branco assumiu o poder. Após a dissolução dos partidos decretada pelo Ato Institucional n. 2 (27/10/1965) e a instauração do bipartidatismo, Tancredo filiou-se ao oposicionista Movimento Democrático Brasileiro (MDB), releelegendo-se deputado federal em 1966 e 1970.

Em fins de 1973, juntamente com o secretário-geral do MDB, Tales Ramalho, lançou a "anticandidatura" do deputado Ulisses Guimarães à sucessão do presidente Emílio Garrastazzu Médici no pleito indireto de janeiro de 1974. Embora sem ilusão de vitória, a campanha emedebista teria sido a mola-mestra da vitória eleitoral do MDB em novembro, quando conquistou 16 das 22 cadeiras em jogo no Senado. Nestas eleições, Tancredo foi novamente eleito deputado federal.

Apesar de sua postura oposicionista, Tancredo condenava os setores do MDB que se negavam a dialogar com o governo, afirmando-se como liderança da ala moderada do partido e como interlocutor do regime na discussão do projeto de distensão "lenta, gradual e segura" do presidente Ernesto Geisel. Eleito senador em 1978, durante a campanha defendeu a adoção de eleições diretas em todos os níveis e de uma anistia ampla, geral e irrestrita. Em fevereiro de 1979 assumiu sua cadeira no Senado.

Com a extinção do bipartidarismo em novembro de 1979, aproximou-se do deputado Magalhães Pinto, seu antigo adversário na política mineira, visando à formação de um partido de centro, o Partido Popular (PP). Lançado candidato ao governo de Minas Gerais pelo PP, quando o governo apresentou projeto proibindo as coligações partidárias para o pleito de 1982, Tancredo defendeu a fusão de todas as correntes oposicionistas em uma só legenda, proposta aceita pela maioria do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e do PP. A fusão do PP com o PMDB foi oficializada em fevereiro de 1982. Em novembro, Tancredo elegeu-se governador de Minas Gerais pelo novo PMDB, e em março de 1983 deixou o Senado.

Em fins de 1983, o deputado Dante de Oliveira apresentou projeto de emenda constitucional restabelecendo as eleições diretas para presidente da República. A emenda mobilizou a opinião pública e as lideranças de oposição, produzindo também grande impacto no Partido Democrático Social (PDS), governista. Começava a ganhar corpo a proposta de um pacto entre a oposição e os descontentes do PDS com vistas a lançar um candidato único à presidência, em pleito direto a ser realizado em novembro de 1984. Desde o início, Tancredo Neves foi pensado para cumprir esse papel. De janeiro a abril de 1984, os comícios em favor das eleições diretas reuniram multidões nas capitais e principais cidades do país.

Tancredo participou com destaque de todas as manifestações. Porem, não afastava a possibilidade de o PMDB disputar o pleito presidencial indireto, caso a emenda Dante de Oliveira não fosse aprovada por maioria absoluta. Com efeito, foi isso que aconteceu na sessão da Câmara dos Deputados de 25 de abril de 1984, prevalecendo, portanto, a opção indireta para a escolha do sucessor de Figueiredo em 1985. No final de junho, o PDMB lançou o nome de Tancredo Neves à disputa no Colégio Eleitoral. Quatro dias depois, a Frente Liberal, dissidência do PDS, rompeu com o governo, dando início às negociações com a oposição em torno da candidatura Tancredo. Apos a formacao da Aliança Democrática, ficou decidido que a Frente Liberal indicaria o candidato à vice-presidência, recaindo a escolha no senador José Sarney.

Em 15 de janeiro, o Colégio Eleitoral deu 480 votos a Tancredo Neves e 180 a Paulo Maluf, candidato governista. Entre fins de janeiro e princípios de fevereiro de 1985, Tancredo visitou os Estados Unidos e vários países da Europa. Com o seu regresso ao Brasil, tiveram início as negociações visando à formação do ministério. Um dia antes da posse, marcada para 15 de março de 1985, Tancredo Neves foi submetido à uma cirurgia de emergência. José Sarney tomou posse como presidente na manhã do dia 15.

Tancredo Neves faleceu na noite de 21 de abril, depois de ter sido submetido a sete cirurgias. Na manhã do 22, Sarney foi confirmado na presidência. No dia 23 o corpo de Tancredo Neves chegou ao aeroporto de Belo Horizonte, para receber as homenagens de cerca de 1,8 milhão de pessoas. Finalmente, no dia 24, na presença de 50 mil pessoas, foi enterrado no cemitério de São João del Rei.

Era casado com Risoleta Tolentino Neves, com quem teve três filhos.

Seu arquivo encontra-se depositado no Cpdoc da Fundação Getulio Vargas.

[Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001]

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