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A trajetória política de João Goulart

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Os militares e o governo João Goulart

 

Almoço no Palácio Laranjeiras em 16/04/1963. Presentes: João Goulart, gen. Osvino, ministro Kruel, gen. Albino Silva (gabinete militar), gen. Jair Dantas (III Exército), gen. Castelo Branco (IV Éxercito), gen. Pery Bevilacqua (II Éxercito), de costas. Após a renúncia de Jânio Quadros, ocorrida em 25 de agosto de 1961, os três ministros militares manifestaram-se contra a posse de João Goulart devido a suas posições políticas, consideradas de esquerda. Imediatamente, o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, apoiado pelo comandante do III Exército, José Machado Lopes, formou a Cadeia da Legalidade, dispondo-se a lutar pela posse do vice-presidente. Esta posição contou com o apoio de vários oficiais-generais que serviam em outros pontos do país. O impasse foi superado com a adoção provisória do sistema parlamentarista, com o qual João Goulart iniciou seu governo, em 7 de setembro de 1961.

João Goulart, ladeado pelo ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, cumprimenta oficiais do Éxercito e da Marinha em cerimônia no Palácio do Planalto. A cisão militar ocorrida durante esse episódio persistiu durante todo o governo de Jango. Setores nacionalistas das Forças Armadas, articulados ao movimento sindical e a setores da esquerda, apoiaram abertamente importantes iniciativas políticas de Goulart, tais como a defesa das "reformas de base" e a antecipação do plebiscito sobre o sistema de governo, previsto inicialmente para o início de 1965. Realizado em 6 de janeiro de 1963, o plebiscito restaurou o presidencialismo. Os generais mais ligados a Goulart tornaram-se informalmente conhecidos como "generais do povo".

No mesmo período, aumentou a politização de setores da baixa hierarquia das Forças Armadas – os "praças" (sargentos, cabos, soldados e marinheiros). Em 12 de setebrmo de 1963 estourou em Brasília uma rebelião liderada por sargentos da Aeronáutica e da Marinha, revoltados contra a decisão do STF de não reconhecer a elegibilidade dos sargentos para o Legislativo (princípio vigente na Constituição de 1946). Embora o movimento tenha sido facilmente controlado, a posição de neutralidade adotada por Goulart levantou suspeitas e temores entre setores politicamente conservadores e grande parte da alta e média oficialidade militar. Crescia a preocupação com a possibilidade de um eventual golpe de Estado de orientação esquerdista, baseado nas praças, e com a quebra dos princípios de hierarquia e disciplina vigentes nas Forças Armadas.

Esses temores fortaleceram a oposição de setores militares à política adotada por Goulart, principalmente aqueles que se haviam manifestado contra a sua posse. Muitos deles, inclusive, passaram a se envolver em ações que visavam a desestabilizar o governo. Mesmo oficiais de posições legalistas manifestaram-se preocupados com a situação. Ainda em setembro, por exemplo, o general Peri Bevilaqua, então comandante do II Exército, sediado em São Paulo, divulgou ordem-do-dia contra o movimento ocorrido em Brasília, a infiltração esquerdista e a atuação política do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) nos quartéis. Como conseqüência, foi exonerado do comando. A situação agravou-se em outubro, quando, diante da repercussão de uma entrevista ao jornal Los Angeles Times, concedida pelo governador da Guanabara, Carlos Lacerda, na qual combatia violentamente Goulart e criticava os chefes militares, os ministros militares solicitaram ao presidente a decretação do estado-de-sítio. O pedido foi encaminhado ao Congresso, mas, diante da reação negativa da maioria dos parlamentares, Goulart viu-se obrigado a retirá-lo.

Presidente João Goulart na reunião da Associação dos Sargentos no Automóvel Clube (RJ), na véspera do golpe. Com isso, oficiais até então neutros passaram a apoiar a conspiração, erodindo-se progressivamente a base de apoio militar ao presidente. Em 20 de março de 1964, o general Humberto Castelo Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, enviou uma circular reservada à oficialidade do Exército advertindo contra os perigos do comunismo. Esses temores se agravaram com a eclosão, no dia 28, de uma revolta de marinheiros e fuzileiros navais no Rio, concentrados na sede do Sindicato dos Metalúrgicos. Goulart recusou-se a punir os insubmissos, deixando-os sair livres, o que gerou uma profunda crise entre a oficialidade da Marinha. No dia 30, Goulart compareceu, na condição de convidado de honra, a uma festa promovida pela Associação dos Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar, na sede do Automóvel Clube.

Esses eventos precipitaram a deflagração do movimento golpista, iniciado em Minas Gerais na madrugada de 31 de março. Goulart foi sucessivamente instado por seus principais chefes militares quer a ordenar o ataque aos revoltosos, quer a extinguir o CGT, rompendo com a esquerda. Como Goulart recusou-se a assumir essas duas linhas de ação, em poucas horas viu-se sem alternativa a não ser deixar o governo.

A vitória dos militares golpistas levou a um grande expurgo dos oficiais que apoiaram Goulart e das praças que se mobilizaram politicamente durante seu governo.

Celso Castro

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