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A trajetória política de João Goulart

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Os esportes no governo Goulart: apenas um sinal dos tempos...

 

Ia longe o trauma causado pela derrota do Brasil frente à seleção uruguaia em 1950, e a "pátria de chuteiras" podia se orgulhar do título obtido na Suécia: afinal, fomos campeões do mundo! Aconquista da taça em 1958 despertara nos brasileiros um gosto de "quero mais". Descobrimos que se era bom acordar campeões do mundo, deveria ser melhor ainda continuar campeões! Afinal, os melhores jogadores do mundo não vestiam a camisa canarinho?! Mas o que nos reservaria o destino? O "presidente pé-quente", como ficara conhecido Juscelino Kubitschek, já não ocupava mais a presidência da República. Será que o presidente João Goulart daria a mesma sorte?

Ao contrário de 1958, quando o escrete brasileiro saiu daqui envolto em clima de grande entusiasmo, em 1962, os últimos preparativos para a disputa da VII Taça Jules Rimet, no Chile, se desenrolaram sob algumas vaias. Porém, na chegada ao Chile, bastou um treino para que as esperanças se renovassem, mostrando mais uma vez o que todos já sabiam: a dupla Pelé e Garrincha seria a garantia do bicampeonato! Apresentando um futebol de qualidade, veloz e bem passado, objetivo, coletivo, mas cheio daquela malícia tipicamente brasileira, o Brasil era, sem dúvida o favorito ao título! A bola rolando de pé em pé, partindo do meio de campo onde Zito se superava, e seguindo com um ataque formado "apenas" por Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo. E fora das quatro linhas, a certeza de que o técnico Aimoré Moreira, substituto de Vicente Feola, faria as alterações necessárias para corrigir os erros que ainda existissem.

A imprensa brasileira – tendo à frente as revistas Manchete e O Cruzeiro – tentava se superar, buscando apresentar ao país a melhor cobertura do campeonato. Os jogos eram transmitidos ao vivo pelas emissoras de rádio – vale lembrar que naquela época, no Brasil a televisão apenas engatinhava – e eram acompanhados por multidões de torcedores que, colados nos radinhos de pilha, ouviam com atenção a locução e os comentários de Ari Barroso, José Maria Scassa e Oduvaldo Cozzi, entre outros.

Sorteado para o Grupo 3, com sede em Viña del Mar, o time do Brasil fez sua estréia contra o México, no dia 30 de maio. Pouca gente assistiu à vitória brasileira por 2 a 0 (gols de Zagallo e Pelé). Do segundo jogo, contra a Tchecoslováquia, em 2 de junho, o Brasil não saiu com boas recordações: além de um empate sem gols, a peleja tirou Pelé dos gramados até o final da competição.Mas o "Rei" teve em Amarildo um substituto à altura. Sua ausência também foi compensada pelas excelentes atuações de Garrincha, que parecia jogar por si e por Pelé.

No dia 6 de junho, o selecionado brasileiro sofreu seu primeiro gol, no jogo contra a Espanha. Mesmo assim, teve a tranqüilidade para virar o placar no segundo tempo, com gols de Amarildo e Garrincha. A vitória não só garantiu a ida para as quartas-de-final, quando enfrentaria a Inglaterra, mas também a permanência em Viña del Mar. Era tudo o que queria o supersticioso torcedor brasileiro: não vinha tudo dando certo? Então, que continuássemos na mesma cidade!

Atuação de Garrincha na partida contra Inglaterra A Inglaterra foi uma seleção baseada em forte esquema defensivo, que lhe dava base para explorar contra-ataques. Não contaram, no entanto, com um fator determinante: a técnica e a velocidade de Garrincha, autor de dois dos gols da vitória brasileira de 3 a 1. Pronto, estava garantida a passagem para as semifinais! Só que agora deveríamos enfrentar os donos da casa, a seleção do Chile, que significava jogar para uma torcida praticamente 100% contra. Foi um jogo de vida ou morte, com marcação cerrada sobre o homem-show do time brasileiro, Garrincha, que acabou expulso de campo pela primeira vez em sua carreira. De qualquer modo, o resultado de 4 a 2 nos garantiu o ingresso na final.

A decisão da VII Copa do Mundo de Futebol foi realizada em 17 de junho, no Estádio Nacional do Chile, quando então o Brasil enfrentou novamente a seleção tcheca. Embora o time brasileiro tenha ficado em desvantagem no placar, logo a situação se reverteu, com os brasileiros passando a apresentar um futebol de campeões. Nomes da partida? Amarildo, autor do gol de empate, Zito e Vavá, que marcou o terceiro e tranqülizador gol.

O povo vibrou mais uma vez... Sim, o Brasil sagrava-se mais uma vez campeão do mundo. E agora não éramos apenas campeões: éramos bicampeões. O insucesso de 1950 estava sendo pago com juros e correção monetária... Dessa vez, em sua volta ao Brasil, a seleção canarinho não desembarcou no Rio de Janeiro e sim em Brasília. Do mesmo modo, a marchinha de 1958 ("A taça do mundo é nossa, com o brasileiro, não há quem possa...") não mais reinaria só! Afinal, os tempos eram outros, mais politizados: boa parte da população comemorou a taça cantando: "não tem arroz, não tem feijão, mas assim mesmo o Brasil é campeão". Um sinal dos tempos.

O panorama esportivo do brasileiro não era formado apenas pelo futebol. Continuávamos a contar alguns esportistas que realmente nos faziam lembrar disso a cada vitória. A tenista Maria Ester Bueno, por exemplo. Depois de um inédito bicampeonato em Wimbledon em 1959 e 1960, ficou afastada das quadras por seis meses, tratando-se de uma hepatite, e conseguiu se recuperar a tempo de participar dos Jogos Pan-Americanos realizados em São Paulo em maio de 1963, e vencê-lo.

Presidente João Goulart desfila em carro aberto com a seleção campeã, ladeado por Djalma Santes, Pelé e Belini. Em junho de 1962. Aliás, este torneio foi um dos melhores momentos do esporte nacional no governo Goulart. O Brasil surpreendeu positivamente a grande platéia que assistia aos encontros, ficando em terceiro lugar no número de medalhas. Dele, saímos com medalhas, entre outras modalidades, no futebol, no voleibol masculino, que saiu invicto; no iatismo, no pólo aquático, no boxe e no tênis masculino de dupla. Isso tudo, sem falar das meninas do voleibol, que garantiram o bicampeonato neste torneio.

Porém, esse quadro não ficaria completo se não incluísse um atleta muito especial: o paulistano Éder Jofre, o boxeador que se tornou nosso "galo de ouro", campeão absoluto da categoria. Éder conseguiu, em 1962, a façanha de confirmar o título e tornar-se supercampeão ao derrotar por nocaute o irlandês John Caldwell.

Regina da Luz Moreira

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