Esportes
A derrota sofrida para a seleção do Uruguai em 1950, na final da primeira Copa do Mundo de futebol realizada no Brasil, deixou na memória da população marcas muito mais profundas do que
o simples 2 x 1 do placar. Um Maracanã mais do que lotado assistiu silencioso ao gol de Edegardo Ghiggia, enquanto milhares e milhares de brasileiros acompanhavam o lance pelo rádio, incrédulos. A derrota tornou-se um verdadeiro fantasma, que na Copa de 54, vestido com o uniforme da seleção húngara, mais uma vez atormentou o espírito dos brasileiros. Afinal, sempre fomos, em ocasiões de disputas internacionais – seja da Taça Jules Rimet, da Copa Rocca ou do Campeonato Sul-Americano de Futebol –, a "pátria de chuteiras".
Mas a Copa de 1958... Bem, essa foi diferente. Apesar do medo da ausência de grandes craques como Ademir e Zizinho, o eterno mestre Ziza de Pelé e Zico, a Copa de 58 parecia desde o início estar
fadada a um outro destino. Parecia que o clima vivido pelo país desde o início do governo de JK se havia realmente espalhado por todos os setores da sociedade brasileira. Naquele mesmo ano de 1958, a fachada do palácio da Alvorada, em Brasília, já se encontrava concluída, ilustrando as capas das principais revistas e jornais de circulação nacional. Havia um clima de euforia que compensava até os elevados índices de inflação, e que em muito se identificava com o presidente sorridente, com o DKW-Vemag e o fusquinha rodando pelas ruas, enquanto a bossa nova tocava nas vitrolas e nas rádios.
O clima de entusiasmo com a seleção brasileira começou ainda na fase da preparação. Pela primeira vez a comissão técnica incluiu entre seus integrantes um dentista e um psicólogo – que, graças a Deus, segundo Joaquim Ferreira dos Santos, autor de Feliz 1958, não chegou a ser ouvido, pois senão não teríamos jogadores como Garrincha, Pelé, Gilmar e Didi. Também pela primeira vez, a Confederação Brasileira de Desportos – que antecedeu a CBF – pôde contar com decidido apoio do governo federal, traduzido em verbas mais do que suficientes para garantir a formação de um bom time e o início antecipado dos treinamentos. Deixou-se assim de confiar apenas no talento dos jogadores – desde 1950, sabíamos que tínhamos os melhores do mundo – e passou-se a fazer uma avaliação científica de seu estado físico e a promover um preparo adequado. Os princípios científicos e modernos enfim chegavam ao futebol!
Quem se lembra, hoje em dia, da formação inicial da seleção canarinho? Gilmar (3), De Sordi (14), Bellini (2), Orlando (15), Nilton Santos (12), Dino (5), Didi (6), Joel (17), Mazzola (18), Dida (21) e Zagallo (7). Dá para imaginar um time com Garrincha e Pelé na reserva? Do grupo, hoje, são lembrados, não necessariamente nesta ordem, o grande capitão Bellini, homenageado com uma estátua em frente ao portão principal do Maracanã, a quem devemos o maravilhoso gesto da taça sendo erguida; Nilton Santos, que se tornou a "enciclopédia" do futebol brasileiro; Zagallo, cuja trajetória seria muito mais marcada pelos dois outros títulos que trouxe como técnico e depois como supervisor, o tri e o tetracampeonatos. Sem dúvida, Pelé e Garrincha continuarão ocupando um lugar único na história do futebol brasileiro. Um, estreando com apenas 17 anos, e o outro, com suas pernas tortas, entortando as defesas adversárias. Mas seria uma injustiça não falar de Didi, o criador da "folha seca", cuja serenidade fez com que no último jogo, após estarem perdendo de 1 x 0, os jogadores conseguissem superar o trauma de 50 e dar a volta por cima.
> É certo que os dirigentes do nosso futebol logo tiveram uma recaída. À conquista da Taça Jules Rimet logo se seguiu a um período de grande desorganização, com a seleção canarinho participando de verdadeiras excursões caça-níqueis, que por pouco não colocaram a perder o prestígio alcançado nos gramados da Suécia. Foi o caso da Copa Rocca de 1959, ou ainda da excursão à Dinamarca e à Itália, em 1960, chamada pela imprensa de "a maratona dos dólares".
Mas voltemos a 1958. Parece que, na época, Juscelino Kubitschek, o presidente sorridente, tornou-se também um presidente "pé quente". Afinal, durante seu governo, os brasileiros viram não apenas a seleção de futebol sagrar-se campeã do mundo, mas outros esportes trazerem novas alegrias. Muitos deles, de natureza essencialmente amadora, entraram na onda do futebol, como se o "caneco" de ouro tivesse comprovado ao povo brasileiro que seus atletas podiam ser campeões. Foi o momento de torcer por Eder Jofre, no boxe, por Maria Ester Bueno, no tênis, pelas seleções feminina de basquete e de vôlei e masculina de basquete... Foi ainda o momento de ver nascerem futuros astros, como os irmãos Fittipaldi – Emerson e Wilson –, que então davam os primeiros passos nas corridas de kart.
Nesse panorama, está faltando um atleta: Ademar Ferreira da Silva. Logo no primeiro ano do governo JK, em 27 de novembro de 1956, Ademar tornou-se o primeiro atleta brasileiro a conquistar, em duas olimpíadas consecutivas, a premiação máxima. Durante a competição realizada em Melbourne, na Austrália, garantiu a medalha de ouro na prova de salto triplo, confirmando o resultado que obtivera nas olimpíadas de Helsinque.
Não é a toa que durante muito tempo, o que mais se ouviu neste país foi a marchinha de Wagner Maugeri, Maugeri Sobrinho, Vítor Dago e Lauro Müller:
A taça do mundo é nossa
Com o brasileiro,
não há quem possa!
Eeeeta esquadrão de ouro,
É bom no samba,
É bom no couro!
Regina da Luz Moreira
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