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O Governo de Juscelino Kubitschek
O Brasil de JK > JK e as eleições presidenciais de 1960

As eleições de 1958 e o crescimento do PTB

A conhecida frase de Ernani do Amaral Peixoto - "para Juscelino não existia 60, só 65" - define bem a atuação do então presidente da República nas eleições que iriam indicar o seu sucessor. Pode-se mesmo ir além e afirmar que, desde 1958, quando se realizaram eleições para o Legislativo e para os governos estaduais, JK já se movimentava no intuito de garantir sua volta ao governo do país. Como a possibilidade de reeleição em 1960 lhe era negada pela Constituição de 1946, a solução seria montar, com antecedência confortável, uma estratégia capaz de garantir em 1965 o objetivo sonhado.

Um dos primeiros movimentos nesse sentido foi a criação, em novembro de 1958, do Grupo de Ação Política (GAP). Formado por políticos e assessores muito próximos de JK - Vítor Nunes Leal, Armando Falcão, Eurico Sales, Renato Archer, Osvaldo Penido, entre outros, o GAP, cujo objetivo declarado era avaliar a atuação do PSD nas eleições realizadas no mês anterior, foi sobretudo o lugar onde o presidente começou a discutir uma dupla possibilidade, intimamente ligada ao seu futuro político.

Em primeiro lugar, levantou-se a hipótese de o PSD não apresentar candidato próprio nas eleições presidenciais de 1960. Argumentava JK que seria melhor para o partido não concorrer, uma vez que, dada a difícil situação econômico-financeira do país, o próximo presidente teria que adotar uma política de austeridade monetária e de restrição fiscal que certamente lhe renderia forte impopularidade. Por que não poupar o PSD desse desgaste e deixá-lo livre para propor uma política de volta ao desenvolvimento e à prosperidade? Não era difícil concluir quem seria o candidato pessedista a levantar essa bandeira em 1965.

Para que essa parte da estratégia desse certo, seria preciso afastar todos os nomes do PSD que pudessem ter uma voz suficientemente forte dentro do partido para postular a candidatura presidencial em 1960. José Maria Alkmin e Ernani do Amaral Peixoto, candidatos em potencial, foram deliberadamente afastados das esferas centrais do poder e, por isso mesmo, viram-se incapacitados de articular suas candidaturas dentro do partido.

Folheto de propaganda do candidato à presidência da República, Henrique Teixeira Lott. 1960 A segunda possibilidade discutida - talvez mais polêmica que a de o PSD não apresentar candidato - seria a realização de uma aliança com a tradicional adversária UDN em torno de um nome de "união nacional". O preferido de JK era Juraci Magalhães, que havia buscado, durante o período em que fora presidente do partido oposicionista (1957-59), um entendimento com a Presidência da República, até mesmo favorecendo a aprovação da mudança da capital para Brasília. Como de costume, Juscelino pretendia matar dois coelhos de uma cajadada só. Mais importante do que desgastar politicamente os udenistas, que seriam obrigados a fazer uma política austera, e portanto impopular, era armar uma coalizão de centro-direita e, por conseqüência, isolar a esquerda, que estava em processo de crescimento eleitoral, como ficara demonstrado nas eleições.

Campanha de Carlos Lacerda (de microfone) ao governo do Estado da Guanabara. Rio de Janeiro, out. 1960 O crescimento do PTB nas assembléias estaduais, capilarizando o poder de uma máquina política que se revelava muito eficiente nos centros urbanos, era uma das maiores preocupações de JK para 1965. Ser obrigado a compor politicamente com um PTB fortalecido em áreas sob o tradicional domínio do PSD o colocaria em uma posição pouco confortável para se firmar como cabeça de chapa frente a um vice petebista, tal como ocorrera em 1955. Ainda mais com o fortalecimento da ala esquerda do PTB, muito bem representada na Frente Parlamentar Nacionalista.

Augusto e Ernani do Amaral Peixoto com João Goulart e Henrique Teixeira Lott entre outros durante reunião no comitê central pró-candidatura Lott e Jango. Rio de Janeiro, 1960. Afinal, nenhuma das duas hipóteses se concretizou, e o PSD lançou seu candidato, mais uma vez em aliança com o PTB. A apresentação do nome do general Henrique Lott foi bem vista por Juscelino, que não via chances nessa candidatura, apoiada pela Ala Moça do PSD e pela Frente Parlamentar Nacionalista, e percebia sua possível derrota como uma oportunidade para desgastar aqueles setores, que haviam resistido à sua proposta de "união nacional". Do lado da UDN, Juraci Magalhães, tachado de líder dos "chapas-brancas" – como eram chamados os deputados que apoiavam os projetos do governo – acabou perdendo a indicação para Jânio Quadros, que era apoiado pela "Banda de Música", com Carlos Lacerda à frente.

Castilho Cabral, Afonso Arinos e outros participam do Movimento Popular Jânio Quadros. (entre 20 abr. 1959 e out. 1960). Postas as candidaturas, JK ocupou o lugar que avaliou ser o que melhor lhe caberia naquele momento: o de magistrado supremo da nação, a comandar, com a maior neutralidade possível, o processo eleitoral que indicaria seu sucessor. Como as candidaturas a presidente e a vice-presidente eram desvinculadas, os eleitores escolheram, para ocupar a presidência, o candidato da UDN, e a vice-presidência, o do PTB – ou seja, elegeram Jânio e reelegeram João Goulart, o Jango, atestando o êxito do movimento Jan-Jan. João Goulart tomando chimarrão. Uruaçu (GO), abr. 1963. Passada a faixa presidencial para Jânio em 31 de janeiro de 1961, JK acreditou que teria bastante tempo – cinco anos – para preparar o caminho de volta. A história não foi bem assim: a bandeira do "JK-65", já desfraldada, acabou sendo enterrada em 8 de junho de 1964, quando seu nome encabeçou uma lista de mais de 500 punidos pelo governo militar com a cassação dos direitos políticos.

Marly Motta

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