As eleições de 1958 e o crescimento do PTB
Em 3 de outubro de 1958, transcorrida a primeira metade do governo Juscelino Kubitschek, realizaram-se eleições para governador em 11 estados, para a Câmara dos Deputados, para 1/3 do Senado, para as assembléias estaduais e para a Câmara de Vereadores do Distrito Federal. Essas eleições refletiram importantes mudanças socioeconômicas ocorridas no país. No âmbito regional, ficou patente a perda de espaço da oligarquia agrária que até então detinha inquestionavelmente o poder. No âmbito nacional, ficaram claros os problemas da tradicional aliança PSD-PTB, desequilibrada pela expansão do PTB.
A aliança PSD-PTB, vitoriosa nas eleições presidenciais de 1955, começou a apresentar dificuldades já na preparação das eleições de 1958, quando ocorreram apenas acordos locais. Concomitantemente a um início de afastamento do PTB em relação ao PSD, percebia-se uma aproximação maior do PTB com o PCB, que apoiava os candidatos nacionalistas, afirmando que a luta pelo nacionalismo era a questão política fundamental. Os inimigos eram todos aqueles que apoiavam o capital estrangeiro, então chamados de "entreguistas".
O PTB teve um bom desempenho eleitoral, elegendo 66 deputados federais num total de 326. Para o Senado, num total de 21, elegeu cinco representantes. Para os governos estaduais, foram também eleitos cinco candidatos petebistas: Gilberto Mestrinho no Amazonas, Francisco das Chagas Rodrigues no Piauí, José Parsifal Barroso no Ceará, Roberto Silveira no estado do Rio de Janeiro e Leonel Brizola no Rio Grande do Sul. Todas essas candidaturas foram apoiadas por alianças do PTB com outros partidos, mas apenas no Amazonas e no Ceará delas fez parte o PSD.
O delineamento de um quadro de maior complexidade interna no PTB, aliado à expansão eleitoral do partido, começou a acirrar as contradições com o PSD. O crescimento do PTB e sua penetração no campo, na medida em que solapavam as bases do PSD, subtraindo contingentes eleitorais e reduzindo a área de influência pessedista, evidenciavam a inviabilidade da antiga aliança.
Essa expansão do PTB decorreu, na verdade, de um trabalho de organização partidária que se estendeu ao nível municipal, permitindo a penetração do partido no campo. Outro fator importante foi a existência no país de uma estrutura sindical relativamente forte. A expansão do partido, entretanto, colocou para ele próprio um desafio, pois abriu espaço para o surgimento de novas tendências e para o acirramento dos conflitos internos já existentes.
O PSD, por seu turno, também enfrentava problemas internos. Embora as dissidências pessedistas se tenham reincorporado ao partido após a posse de Juscelino, os problemas nascidos na campanha eleitoral de 1955 não foram completamente resolvidos e iriam refletir-se nas eleições de 1958. A modificação da legislação eleitoral, que passou a exigir o retrato do eleitor no título eleitoral, diminuindo consideravelmente o "eleitorado fantasma" do interior, foi outra circunstância que acabou prejudicando o PSD. Finalmente, a ausência de Amaral Peixoto do comando do partido durante a campanha — desde o início do governo Kubitschek, Amaral ocupava o posto de embaixador em Washington — foi nociva ao desempenho eleitoral do PSD, pois acumularam-se as cisões nos estados.
Apesar de todos esses entraves, o PSD ainda conseguiu assegurar a maioria na Câmara dos Deputados, conquistando 117 cadeiras. Já no Senado seu desempenho foi mais fraco, pois apenas seis senadores pessedistas foram eleitos. Nos estados, os resultados foram ainda piores: o PSD só elegeu dois governadores, o de Goiás, José Feliciano Ferreira, e o do Espírito Santo, Carlos Fernando Lindenberg, este com apoio do PSP.
As eleições de 1958 interromperam o longo domínio do PSD em alguns estados brasileiros. Em Pernambuco, onde o partido governava desde 1947, o udenista Cid Sampaio, apoiado pelo PTB e pelo PCB, derrotou o pessedista Jarbas Maranhão. No Estado do Rio e no Rio Grande do Sul, o PSD perdeu para o PTB.
Um balanço final desse pleito indicava que a curto prazo a estabilidade do governo JK não seria abalada, mas que começava um processo de polarização política que teria sérios reflexos para o futuro da democracia no país.
Marieta de Moraes Ferreira
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