Um candidato otimista
Em sua campanha presidencial, JK seguiu à risca o que se convencionou chamar o "manual do bom pessedista". Uma regra básica desse manual prescrevia a busca de apoio das bases locais. Na ótica pessedista, nenhum candidato teria sucesso no plano nacional se não trouxesse atrás de si seu município ou seu estado. Juscelino começou, assim, por conciliar com seus opositores em seu próprio estado, Minas Gerais, para conseguir ser indicado candidato do PSD e em seguida chegar à presidência.
As eleições presidenciais de 1955 foram as mais concorridas das quatro eleições do gênero realizadas no período que vai de 1945 a 1960. E isso por três razões. Em primeiro lugar, o impacto do suicídio de Vargas gerou entre os antigetulistas o temor de que uma candidatura vinculada ao getulismo pudesse manobrar a opinião popular e lançar o país em aventuras políticas. Esse temor era agravado pelo fato de o vice da chapa de JK ser João Goulart, o Jango, fiel escudeiro de Getúlio e um dos pivôs da crise do governo, que chegara ao clímax em agosto de 1954 com o suicídio de Vargas. Em segundo lugar, a oposição a Vargas, em aliança com setores militares, julgou ser aquele o momento mais adequado para impor uma candidatura conservadora que extirpasse o velho populismo nacionalista. Em terceiro lugar, as dissidências partidárias foram a regra dentro dos três maiores partidos: PSD, UDN e PTB. Essas dissidências obrigaram o PSD, pela primeira vez, a fazer intervenções em diretórios estaduais (em Pernambuco e no Rio Grande do Sul) para impor a disciplina partidária.
Depois de várias tentativas visando a uma candidatura de "união nacional", chegou-se a um elenco de alternativas que espelhavam bem o clima ideológico da época. À extrema direita havia a candidatura de Plínio Salgado; o centro-direita (UDN e seus aliados) apresentava a candidatura de Juarez Távora; o populismo urbano aparecia através da figura do paulista Ademar de Barros (PSP). Em meio a essa oferta, em 3 de outubro de 1955, JK, o ungido do getulismo e da aliança PSD-PTB, foi eleito com apenas 33,82% dos votos, o percentual mais baixo a eleger um presidente até então.
A disputa acirrada, as ameaças militares contra a candidatura de JK, explícitas ou veladas, obrigaram o candidato a pôr em prática uma campanha que não acusava opositores, não lamentava obstáculos, mas enfatizava suas intenções e sua capacidade como realizador. Era uma campanha "voltada para o futuro", que se explicitava através de metas a serem alcançadas. Foram apresentadas 30 metas de governo, com seus respectivos custos e fontes de financiamento, "coroadas" pela "meta-síntese": a construção de Brasília. O programa de governo foi sintetizado no lema "50 anos em 5".
Vencida a eleição, de maneira apertada, começaram as tentativas para impedir a posse de JK, prolongando-se a crise política e militar que se desenhara com o suicídio de Vargas. A oposição udenista tentava impedir a posse alegando não ter o candidato obtido a maioria absoluta de votos e ter recebido o voto dos comunistas – os quais, de fato, explícita e publicamente o apoiaram. Os militares a todo momento entravam em cena, ou para apoiar JK, com o seu Movimento Militar Constitucionalista, ou para constrangê-lo. O calor do debate político acabaria por levar ao Movimento do 11 de Novembro, de que os udenistas sairiam derrotados.
O cenário de intolerância udenista e de ingerência militar direta em assuntos políticos, contra ou a favor de JK, conformava um momento extremamente crítico. Mesmo após a posse dos eleitos, acelerou-se a politização das forças armadas, através da pregação em prol do "soldado cidadão", protagonizada pela Frente de Novembro, e das campanhas anticomunistas levadas a cabo pela Cruzada Democrática no Clube Militar. Aumentava também a insatisfação daqueles que, mais uma vez, ficaram privados do poder. JK iria responder a esses desafios conciliando, cooptando, produzindo confiança, empreendendo obras e gerando otimismo na sociedade.
Maria Celina D'Araujo
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