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O Governo de Juscelino Kubitschek

 
Apresentação
Trecho do depoimento de Juscelino Kubitsheck. 1976

Aniversários e comemorações são momentos importantes na vida de indivíduos, instituições e países. Segundo o historiador francês Philippe Raynaud, "comemoração é a cerimônia destinada a trazer Juscelino Kubitschek. 1976 de volta a lembrança de uma pessoa ou de um evento", algo que "indica a idéia de uma ligação entre os homens, fundada sobre a memória". Essa ligação também pode ser chamada de identidade. É exatamente porque permitem legitimar e atualizar identidades que as comemorações públicas ocupam lugar central no universo político contemporâneo.

Comemorar tem a ver com o passado, mas principalmente com o futuro. Procuram-se meios de retirar o passado do esquecimento com o objetivo de descobrir perspectivas novas e positivas. Mas nem sempre as comemorações resultam de um consenso ou o produzem: ao contrário, podem revelar tensões e conflitos e constituir uma boa oportunidade para avaliações e críticas.

Neste ano de 2002, faz cem anos que nasceu Juscelino Kubitschek, o presidente que governou o Brasil de 31 de janeiro de 1956 a 31 de janeiro de 1961. A comemoração de seu centenário oferece uma ocasião privilegiada para esse duplo exercício: evocar o passado, mas também refletir sobre ele de maneira crítica. Essa reflexão começou, aliás, nos anos 90, quando o questionamento de um modelo de desenvolvimento econômico que foi inaugurado por Vargas, e atingiu sua plena expressão no governo de JK, colocou em pauta grandes temas para um debate nacional. Desde então, a abertura da economia, a privatização das empresas estatais, os limites e contornos da ação do Estado e, principalmente, o dilema entre a implementação de políticas desenvolvimentistas que propiciem elevadas taxas de crescimento e o compromisso com um programa de controle das contas públicas e de ajuste fiscal, integram uma agenda de discussões que tem sensibilizado diferentes setores da sociedade brasileira, preocupados em melhorar as estratégias para o futuro do país.

O governo JK representa no imaginário político brasileiro uma Idade de Ouro. É visto como uma época marcante da história do Brasil, como o momento de um grande arranco desenvolvimentista, consolidado através de políticas que estimularam a industrialização e resultaram em altas taxas de crescimento. São esses elementos positivos, que ficaram gravados na memória coletiva nacional, que fazem com que muitos dos líderes políticos atuais evoquem JK como referência para suas ações.

No entanto, o governo JK também enfrentou muitos desafios e impasses: a inflação, o endividamento externo, os embates com o FMI e a ameaça de desaceleração do crescimento. As tentativas do ministro da Fazenda Lucas Lopes de conciliar crescimento com estabilidade monetária mostraram ser de difícil aceitação. O combate à inflação e o controle dos gastos públicos foram preocupações abandonadas pelo governo JK, o que resultou na gestação de uma grande crise econômico-financeira que viria a eclodir em toda a sua extensão na década seguinte.

Carta de Juscelino Kubitschek a Ernâni do Amaral Peixoto no final de seu mandato como presidente da República. Reproduções idênticas a esta carta foram enviadas a outras pessoas próximas ao presidente. De toda forma, os anos JK mudaram a cara do país. A grande meta a ser atingida, concordam todos os analistas do período, era o desenvolvimento. Desde o fim da Segunda Guerra, e sobretudo a partir dos anos 50, o Brasil vinha passando por mudanças significativas em sua estrutura produtiva. Para começar, houve uma maior diversificação da atividade industrial, que recebeu um impulso ao longo do conflito mundial devido à necessidade de substituição das importações. Ao mesmo tempo que a indústria se fortalecia, o Estado assumia um papel fundamental, ao implementar políticas de desenvolvimento e, muitas vezes, tornar-se ele próprio um agente econômico. Esse processo, iniciado no governo Vargas (1951-1954) e acelerado no governo JK, correspondeu em certo sentido ao surgimento de novos segmentos intelectuais com perfil diferente daqueles de formação essencialmente humanística. Esses novos grupos de influência eram constituídos por profissionais com conhecimentos técnico-científicos, muitos deles engajados na formulação de políticas de desenvolvimento. Paralelamente, intensificava-se o processo de formação de uma sociedade que reclamava não só bens de consumo, mas também bens culturais.

O espírito do novo, a vontade de mudança transcenderam as esferas econômica e política e contaminaram o domínio das artes e da cultura. Importantes movimentos no campo artístico nasceram e/ou tomaram novo impulso na segunda metade da década de 1950. Surgiram novas formas de conceber o cinema, o teatro, a música, a poesia e as artes plásticas, em decorrência de uma reflexão crítica acerca da produção existente e das linguagens vigentes em cada um desses domínios. A arquitetura moderna, que florescia no Brasil desde a década de 1930, foi consagrada com a construção de uma cidade no Planalto Central, para servir de capital símbolo de uma nova era.

Esse movimento geral, que se identificava como revolucionário na medida em que buscava construir o "novo", experiências realizadas fora do país pretendia identificar e sintetizar elementos da cultura e da sociedade brasileiras, integrando-os. A par da construção do novo, a produção cultural do período caracterizou-se pela valorização do popular como o fundamento mais genuíno da nacionalidade brasileira. A efervescência do movimento cultural sintonizava-se tanto com o espírito nacionalista que crescia na época, quanto com a crença nas possibilidades de desenvolvimento e transformação do país.

Este dossiê sobre Os Anos JK que o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas coloca na internet é resultado de um trabalho conjunto de todos os seus pesquisadores. As fontes utilizadas, em sua quase totalidade, também pertencem ao acervo do CPDOC: documentos, fotos, entrevistas do Programa de História Oral, verbetes do Dicionário histórico-biográfico brasileiro e trabalhos publicados de autoria dos próprios pesquisadores. A intenção do CPDOC com mais este trabalho é pôr à disposição de um público amplo informações sobre uma época marcante da história do Brasil e contribuir para a discussão sobre o futuro do país.

Marieta de Moraes Ferreira
Diretora do CPDOC

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