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E ele voltou... o Brasil no segundo governo Vargas
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Visões do Brasil

Stefan Zweig (de bigode). Rio de Janeiro (DF), 1940. Após sucessivas viagens e fugas diante da perseguição que os judeus sofriam na Europa, o escritor judeu austríaco Stefan Zweig instalou-se em Petrópolis e escreveu o livro Brasil, país do futuro. Publicado em português em 1941, um ano antes do suicídio do autor, o livro apresenta uma visão idílica do país. Exalta a natureza exuberante e a terra mestiça, onde se podia viver em harmonia. "A palavra mestiço não é uma ofensa aqui, mas simples constatação que nada tem de pejorativo: o ódio das raças, essa planta venenosa da Europa, aqui não vinga". Esse livro teve grande importância. Vinha reiterar algo que foi e é acionado em diferentes momentos da história do Brasil – a natureza paradisíaca, criada por Deus – e apontar não só a mestiçagem do povo, como a possibilidade de todos viverem em harmonia.

Gilberto Freire (à direita) e João Goulart. No governo Vargas, mas principalmente durante o Estado Novo, esses dois valores – a natureza e a mestiçagem – foram incorporados como os traços básicos do caráter nacional. Vários autores, entre eles Gilberto Freyre em seu Casa grande & senzala, publicado em 1933, já tinham oferecido bons argumentos para fundamentar a valorização da mestiçagem.

O Estado Novo pretendeu construir uma nova sociedade e fortalecer um sentimento de nacionalidade para o Brasil. Uma dimensão-chave desse projeto era a geopolítica, que tinha no território seu foco principal. Foram criadas várias agências para formular e implementar políticas destinadas a vencer os "vazios" territoriais, noção que atualizava o conceito de "sertão", entendido como espaço abandonado desde as denúncias de Euclides da Cunha.

Presidente Getulio Vargas em Campo Grande (MT), 1941. Essa política ganhou visibilidade com um programa específico que anunciava uma "marcha para o Oeste". Na formulação desse programa, foi importante a presença de Cassiano Ricardo, poeta modernista que propugnava a valorização do meio, do território, como base de constituição da nacionalidade. Para esse autor, era preciso que no século XX realizássemos a "posse efetiva das zonas já conquistadas pelos bandeirantes históricos", como expõe em seu livro A marcha para o Oeste: a influência do bandeirante na formação social e política do Brasil (1940). A "marcha para o Oeste", programa que Getúlio Vargas lançou em 1940, durante os festejos de inauguração da cidade de Goiânia, pretendia ser uma diretriz de integração territorial para o Brasil.

Planta da cidade de Goiânia. 1935/1937. Em meados da década de 1940, um novo olhar se voltou para as populações do Nordeste brasileiro, aquelas que não tinham sido atendidas pelas políticas públicas do Estado Novo dirigidas para as áreas vazias ou para os grandes centros onde se processava a industrialização do país. Josué de Castro, médico do Recife, publicou em 1946 o livro Geografia da fome, em que denunciava para o Brasil e para o mundo os flagelos que a fome traz. Em 1951, o autor publicou outro livro igualmente desafiador, Geopolítica da fome. Para Josué de Castro, a fome aparece como expressão biológica de males sociológicos ligados às distorções econômicas: a estrutura agrária feudal, o regime inadequado de propriedade, marcado pelo latifúndio e pelo minifúndio, as relações de trabalho socialmente insatisfatórias, tudo isso levando à não utilização da riqueza potencial do solo. São essas distorções que se agregam para formar uma teoria explicativa da pobreza, da miséria e do subdesenvolvimento, como seria apresentado nos anos subseqüentes. Essa visão do Brasil encaminhava como necessidade histórica a realização de uma reforma agrária capaz de solucionar as causas estruturais do desequilíbrio econômico e social brasileiro.

O fim do Estado Novo e o restabelecimento da democracia – com partidos, eleições, Conatituinte – veio aumentar a esperança de que dias melhores tivessem chegado. O Congresso funcionando, os governantes eleitos pelo voto direto, tudo isso permitiria vencer os males brasileiros e a herança da ditadura do Estado Novo.

Vitor Nunes Leal (à direita de chapéu) e o ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema (ao centro, de óculos) durante viagem a Juiz de Fora. Juiz de Fora (MG), 9-10 de junho de 1942. Nesse solo esperançoso foi publicado o livro Coronelismo, enxada e voto, de Vítor Nunes Leal, em 1948. O coronelismo, esclarece o autor, é um sistema político que permeia toda a vida nacional. É uma relação política que surge no momento de decadência do poder do coronel, de enfraquecimento da capacidade de mando do latifundiário e de expansão do poder estatal. É o Estado que empresta ao coronel poder e prestígio, e o coronel retribui com votos. A eleição dos governos estaduais e a decadência econômica dos senhores rurais confluem para sua formação. Assim, é o governo que reforça o poder decadente do coronel e retarda o fim de sua influência. Na medida em que o poder do governo cresce, o controle de cargos públicos se torna a principal fonte de poder, e o coronel se torna simples intermediário entre o governo e seus dependentes. Esse sistema político ganha relevância na medida que o voto se torna recurso político.

Coronelismo, clientelismo, populismo, patrimonialismo, categorias formuladas nos anos 1940 e 1950, são acionadas para analisar situações da vida econômica e política brasileira – a transição da sociedade tradicional e rural para a sociedade moderna e urbana – e desde então servem para explicar os males do Brasil.

Lucia Lippi Oliveira

   

 

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