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O Brasil do segundo governo > A questão racial no Brasil dos anos 50

A questão racial no Brasil dos anos 50

No início da década de 1950, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) patrocinou um conjunto de pesquisas sobre as relações raciais no Brasil. A origem deste projeto estava associada à agenda anti-racista formulada pela Unesco no final dos anos 1940 sob o impacto do racismo e da Segunda Guerra Mundial. O Brasil – considerado uma espécie de "laboratório" – desfrutava àquela época de uma imagem positiva em termos de relações inter-raciais, se comparado com os Estados Unidos e com a África do Sul. O objetivo do projeto era "determinar os fatores econômicos, sociais, políticos, culturais e psicológicos favoráveis ou desfavoráveis à existência de relações harmoniosas entre raças e grupos étnicos". Entre os diversos locais de pesquisa estava obviamente a Bahia, onde existia uma longa tradição de estudos sobre o negro, e a cidade de Salvador, que apresentava forte presença e influência da cultura africana. Ali, desde os anos 1930 já tinham feito suas pesquisas diversos norte-americanos, como Ruth Landes, Franklin Frazier, Donald Pierson, entre outros. Estiveram envolvidos no projeto Unesco Florestan Fernandes, Roger Bastide, Luiz de Aguiar Costa Pinto, Oracy Nogueira, Thales de Azevedo, Charles Wagley, René Ribeiro, Marvin Harris, entre outros. O projeto Unesco produziu um amplo inventário sobre o preconceito e a discriminação racial no Brasil que evidenciou uma forte correlação entre cor ou raça e status socioeconômico.

A questão racial esteve presente na década de 1950 não só como tema de investigação patrocinada pelas Nações Unidas. Era uma questão política e existencial para intelectuais negros que se organizavam no período. Uma das mais significativas experiências de mobilização da época foi a revista Quilombo, que trazia como subtítulo "Vida, problema e aspirações do negro". Sob a direção do intelectual negro Abdias Nascimento, Quilombo foi publicada de dezembro de 1948 a julho de 1950 no Rio de Janeiro. A revista mereceu em 2003 uma edição fac-similar publicada pela Editora 34, financiada pela Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo e pela Fundação Ford.

Um importante intelectual negro, o sociólogo Guerreiro Ramos, participou da discussão e analisou a questão racial no artigo "Contatos raciais no Brasil", publicado em 1948 no número 1 da revista Quilombo. Para Guerreiro Ramos, a questão do negro não é uniforme no Brasil, há diferenças regionais e de classe; o preconceito de cor não equivale ao preconceito racial; o homem de cor assimila os padrões da cultura dominante e se vê segundo os padrões dos brancos; há ressentimento do homem de cor de posições mais baixas contra homens de cor de posição mais elevada; o Brasil não tem um sistema de castas (ou seja, é possível a mobilidade social); o mestiço se vê do ponto de vista do branco, tende a camuflar suas marcas; os traços culturais africanos são tratados como pitorescos, o que propicia a indústria turística do pitoresco; o padrão estético da população brasileira é o branco.

Nessa primeira abordagem sobre o tema, Guerreiro Ramos defende a integração do negro. Discute os mecanismos de integração e defende técnicas – como o processo catártico do teatro – capazes de libertar os negros dos ressentimentos e das ansiedades. O Teatro Experimental do Negro (TEN), criado em 1944 sob a direção de Abdias Nascimento, é expressão de uma elite de homens de cor e seria o melhor exemplo de experimento psicossociológico destinado a treinar os participantes nos estilos de comportamento das classes médias e superiores. Guerreiro fazia grupos de terapia como caminho para solucionar a ambivalência da subjetividade do homem de cor. Sua questão fundamental era a promoção social do negro, era prepará-lo para a vida social eliminando o ressentimento.

Em seus trabalhos posteriores, Guerreiro Ramos vai apresentar uma outra perspectiva sobre o tema das relações raciais. Em capítulo do seu livro Cartilha brasileira para aprendiz de sociólogo (1954), ele defende a necessidade de elaboração de uma consciência sociológica da situação do homem de cor. As relações raciais devem ser tratadas como um aspecto da sociologia nacional. Os problemas do negro, como do índio, são aspectos particulares do problema nacional e dependem da fase de desenvolvimento econômico do Brasil.

O problema do negro, diz ele, só existe se pensarmos que a sociedade deveria ser de brancos. O negro é ingrediente normal da população brasileira. O negro é povo e não é componente estranho de nossa demografia. Ao contrário, é a sua mais importante matriz demográfica. Guerreiro faz a denúncia do caráter patológico das atitudes do branco e da alienação do próprio negro ao assumir as mesmas atitudes. O negro é povo, e o povo irrompe nos anos 1950 na história do Brasil a partir da formação do mercado interno, da industrialização e do desenvolvimento.

O projeto Unesco, a revista Quilombo e a produção de Guerreiro Ramos são importantes momentos da luta anti-racista na história política e cultural do Brasil dos anos 1950.

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