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E ele voltou... o Brasil no segundo governo Vargas
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Do atraso ao subdesenvolvimento

Os anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial recolocaram na ordem do dia a questão de como modernizar as sociedades periféricas. Moderno, novo, futuro, faziam parte dos sonhos e das utopias no Brasil. A idéia do "Brasil, país do futuro", que esteve presente em diversos momentos da vida nacional, estava de volta, mas a grande diferença é que nos anos 1950, ou pelo menos na segunda metade da década, o futuro parecia ter chegado! De qualquer forma, foi na primeira metade, no período situado entre a volta de Vargas ao poder e seu suicídio, que foram gestadas as visões do Brasil que conduziram a uma nova visão do futuro.

Celso Furtado (2º à esq.) e o governador de Pernambuco, Cid Sampaio (ao centro). Recife (PE), 1959. Foi então que foi construída uma nova categoria para pensar o Brasil e a América Latina. Não se falaria mais em "atraso", e sim em "subdesenvolvimento". Esse conceito foi elaborado pelos pensadores que participavam da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), órgão das Nações Unidas criado em 1948 com sede em Santiago do Chile. As idéias da Cepal – a industrialização pela substituição de importações; a deterioração dos termos de troca; a necessidade de proteção do mercado interno; o papel fundamental do Estado no processo de desenvolvimento – tiveram no economista Celso Furtado um de seus formuladores. Mas essa nova matriz, elaborada a partir da análise econômica, iria transbordar para outros campos do conhecimento. O grande tema passou a ser a Mudança Social. A sociologia voltou-se para a pesquisa sobre os condicionantes sociais do desenvolvimento; as resistências à mudança; a dicotomia arcaico versus moderno. "Como a sociedade se desenvolve" passou a ser questão central das ciências sociais da época – como definir claramente a oposição entre tradição e modernidade; como encontrar os substitutos funcionais da ética protestante para localizar as modernizações que teriam condições de dar certo; como entender as diferentes etapas desse processo. As mazelas sociais –personalismo, familismo, patrimonialismo – explicariam por sua pré-modernidade as dificuldades e diferenças nas etapas do desenvolvimento. Tudo isso valeu para a América Latina e para o Brasil e conformou o pensamento e as propostas dos intelectuais e cientistas sociais.

O projeto nacional-desenvolvimentista que se desenvolveu na época teve como espaço principal de formulação o Instituto Brasileiro de Estudos Sociais e Políticos (Ibesp), criado em 1952. Reunindo intelectuais do Rio de Janeiro e de São Paulo, o grupo reunia-se no Parque Nacional de Itatiaia para estudar os problemas brasileiros fundamentais. Suas propostas e estudos foram divulgados nos Cadernos do Nosso Tempo, publicados entre 1953 e 1956. Lá se formulou uma perspectiva nacionalista ocupada com o Terceiro Mundo, ou seja, postulou-se uma terceira posição entre os dois blocos em que se dividia o mundo durante a Guerra Fria. O Ibesp iria se desdobrar no Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), criado em 1955 dentro do Ministério da Educação. O Iseb assumiu a mesma perspectiva da Cepal, já que a economia oferecia uma explicação estrutural para os problemas brasileiros. Mas acrescentou a ela a necessidade de uma ideologia do desenvolvimento, sem a qual não haveria processo de mudança. Nessa ideologia do desenvolvimento, o Estado assumia o papel de principal agente da modernização e também da democratização. O nacionalismo de então era pensado como uma ideologia capaz de vencer as forças de exploração das massas.

Diversos autores estiveram envolvidos nessa aventura intelectual e política, entre eles Hélio Jaguaribe, Álvaro Viera Pinto, Nelson Werneck Sodré, Roland Corbisier e Guerreiro Ramos. Cada um deles produziu leituras particulares dos dilemas de seu tempo. Cada um deles enfrentou o pomo da discórdia – nacionalismo versus entreguismo – sob um ângulo específico. O livro de Hélio Jaguaribe O nacionalismo na atualidade brasileira (1958) foi um divisor de águas entre os intelectuais da época, já que nele o autor defendia a convivência com o capital estrangeiro.

A transição entre sociedade tradicional e moderna, rural e urbano-industrial ocupou as atenções de diferentes intelectuais, que precisavam não só explicar os males do Brasil mas também atuar na vida política para vencê-los. Um dos fenômenos que caracterizou a vida política do período entre 1945 e 1964 foi chamado de populismo, entendido como um processo de mobilização das massas e de disposição das elites políticas de ir ao encontro do povo. Esse fenômeno mereceu diversas avaliações negativas à época.

Nos anos 1950, nas visões e interpretações sobre o Brasil, estiveram presentes questões relacionadas ao processo de transição, ao nacionalismo e ao colonialismo interno. Foi sendo também elaborada a idéia da necessidade de uma revolução brasileira capaz de realizar a aceleração do tempo histórico, programa que teria seu ápice nos anos 1960.

Lucia Lippi Oliveira

   

 

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