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E ele voltou... o Brasil no segundo governo Vargas
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Vargas: o parlamentar ausente e as articulações do exílio

Senador Getúlio Vargas nos pampas gaúchos. RGS, entre 1946 e 1950. A saída do poder, em 1945, significou para Vargas o recolhimento na estância Santos Reis, propriedade da família Dornelles em São Borja. Na verdade, um longo recolhimento, se considerarmos as sucessivas interrupções do mandato parlamentar do ex-presidente.

Sim, porque Vargas, mesmo deposto, foi eleito senador constituinte pelos estados do Rio Grande do Sul (na legenda do PSD) e de São Paulo (pelo PTB), sem falar dos seis estados, além doe Distrito Federal, que o elegeram deputado federal (os mesmos dois, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná). A legislação eleitoral da época não exigia o domicílio como condição para a inscrição dos candidatos, permitindo assim que um político concorresse por estados e partidos diversos.

Senador Getúlio Vargas em São Paulo. São Paulo (SP), 1946. Foi o que fez Vargas, que, embora tenha carregado para o PTB um significativo número de votos, acabou assumindo a cadeira de senador pelo PSD gaúcho, por decisão da própria Assembléia Constituinte. Conforme afirmaria mais tarde em um de seus discursos publicados em A política trabalhista do Brasil, não usou então do direito de opção; escolhido pelo povo, considerava-se à vontade para não se sentir preso à disciplina de qualquer partido. O que afirmava, em suma, era que seu papel na política tinha caráter suprapartidário.

Senador Getúlio Vargas e o deputado federal Baeta Neves durante campanha de Medeiros Neto ao governo da Bahia. Entre dez 1946 e 18 jan. 1947. Muito embora a Constituinte houvesse iniciado seus trabalhos ainda nos primeiros dias de fevereiro de 1946, Vargas só tomou posse alguns meses depois, no início de junho. Na verdade, pouco depois do anteprojeto constitucional ser encaminhado ao plenário para discussão e aprovação. E mesmo assim, seu retorno ao cenário político não se deu de forma tranqüila: sua posse provocou imediata moção de condenação ao Estado Novo e de louvor à atuação das Forças Armadas em sua deposição; logo em seguida o ex-presidente passou a ser alvo uma série de críticas.

Senador Getúlio Vargas chegando de São Borja no aeroporto Santos Dumont, vendo-se entre outros sua filha Alzira e o genro Ernani do Amaral Peixoto (à direita de Alzira). Rio de Janeiro (DF), nov 1947. Mas Vargas permaneceu pouco tempo na Assembléia Constituinte. Quando da promulgação da nova Carta, em setembro, já não estava presente e assim deixou de assiná-la. Encontrava-se então em São Borja, de onde acompanhou o começo da legislatura ordinária e a inauguração da usina da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), pela qual tanto se empenhara.

Somente em dezembro de 1946 Vargas assumiu sua cadeira de senador, motivado pela necessidade de anunciar seu rompimento político com o presidente Eurico Dutra, que desde maio vinha se aproximando da UDN e promovendo o isolamento do PTB. Foi quando pronunciou seu primeiro discurso, rejeitado no plenário, mas amplamente ovacionado por mais de três mil pessoas que cercavam o palácio Monroe.

Contudo, mais uma vez Vargas não exerceu suas funções parlamentares por muito tempo, logo se unindo à campanha voltada para as eleições de janeiro de 1947. Passou então a percorrer vários estados, apoiando os candidatos trabalhistas às assembléias legislativas e os pessedistas aos governos estaduais. Enquanto isso, o presidente da República promovia uma ampla reforma em seu ministério, deixando os trabalhistas sem representação. O empenho de Vargas, no entanto, não assegurou ampla vitória ao PTB – em que pese o significativo crescimento de sua bancada –, o mesmo ocorrendo com candidatos a governador apoiados por ele, que foram derrotados.

Aspecto do comício pela candidatura de Hugo Borghi ao governo de São Paulo vendo-se faixa saudando o senador Getulio Vargas. São Caetano (SP), entre fev. e nov. 1947. Seu retorno ao Congresso se deu no início de maio de 1947, quando pronunciou uma série de discursos criticando violentamente a política econômica do governo. Como resposta, obteve o quase imediato surgimento de boatos que davam como certa sua participação em conspirações, todos eles cuidadosamente contestados em novo discurso. Estes acontecimentos de certo modo evidenciavam o que não era novidade para muitos: Getúlio Vargas, mesmo não sendo o congressista mais atuante, era o mais observado e visado.

Foram vários os pedidos de licença apresentados pelo ex-presidente, períodos em que permaneceu sempre em São Borja. Ao longo de todo o seu mandato, Vargas ocupou a cadeira de senador intermitentemente por apenas dois anos. Quando se encontrava em plena campanha eleitoral para a presidência da República, justificou as sucessivas licenças afirmando que o ambiente criado ao seu redor no Senado tornara impossível sua permanência; sua residência encontrava-se vigiada, os telefones censurados, e os amigos perseguidos.

Getúlio Vargas tendo a sua esquerda Ernesto Dornelles e Leonel Brizola na estância do Itu. Itaqui (RGS), 1950. Pouco a pouco, a pequena cidade gaúcha de São Borja transformou-se em passagem obrigatória para os políticos que iam à procura de Vargas, em busca de conselho ou ansiosos por seu apoio eleitoral. E foi da mesma São Borja, assim como de Itu ou Santos Reis, as estâncias da família, que Vargas se manteve permanentemente informado, principalmente através da correspondência mantida com filha, Alzira Vargas do Amaral Peixoto, sua melhor e mais segura informante dos acontecimentos políticos do país. Foi principalmente por intermédio desta correspondência que Vargas definiu os passos futuros, elaborou pronunciamentos, corrigiu estratégias, disposto sempre a manter um progressivo retraimento até conseguir reajustar a situação, e assim manter o controle sobre o partido e suas ações. Mesmo que esta progressão pudesse chegar à retirada da atividade política e à renúncia do mandato. Era um risco que sabia estar correndo.

Regina da Luz Moreira

   

 

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