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E ele voltou... o Brasil no segundo governo Vargas
Vargas: para além da vida > Os vários olhares sobre Getúlio

Os vários olhares sobre Getúlio

Panfleto de campanha eleitoral. 1947. Cinqüenta anos depois de sua morte, Getúlio Vargas continua presente no imaginário da política brasileira. A publicação, em 2004, do livro do jornalista Flávio Tavares, O dia em que Getúlio matou Allende (Rio de Janeiro, Record, 2004), é certamente mais uma contribuição para essa permanência. Algumas observações valiosas de Flávio Tavares sobre o poder, a liderança, o jeito de agir de Getúlio se referem exatamente às questões que se mostram desafiadoras para o entendimento do personagem. Nas palavras de Tavares, Getúlio foi o "homem mais poderoso do Brasil, amado por muitos milhões e odiado por outros milhões – e por isso, mais poderoso ainda, pois foi capaz de se apoderar do amor e do rancor dos demais". Seu poder, quase ilimitado, vinha acompanhado da solidão na presença da corte e de seus aduladores. Getúlio se matou "pelo jogo do poder e por tudo poder, num gesto político, no exercício de sua inteireza de líder, acima inclusive do cidadão comum" (p. 24). E acrescenta: "Tinha um jeito labiríntico de fazer as coisas. (...) O seu populismo consistia nisso: fazer o que o povo queria e pedia. Mas, antes, induzir o povo a querer (e pedir) o que ele, Getúlio, pensava e queria. Talvez esse fosse o dom supremo de sua sensibilidade social, popular e nacional, que fez dele um líder" (p. 51).

Interpretar Getúlio, lançar diferentes olhares sobre ele, decifrá-lo, já foi tentando por muitos autores, inclusive pelos pesquisadores que "cuidam" do seu arquivo, depositado no CPDOC da FGV. Será possível decifrar Getúlio Vargas, esse homem que nunca se expunha – como pôde ser constatado quando da publicação de seu diário, que para desapontamento de muitos informa muito pouco ou quase nada de seu íntimo, de sua subjetividade?

O presidente Getúlio Vargas, a filha Alzira e outros na fazenda Santos Reis. São Borja (RGS), dezembro de 1934. Uma linha de interpretação de Getúlio vai buscar em sua origem e formação as raízes de sua ação política. O Rio Grande do Sul, território de fronteira disputado no período colonial por portugueses e espanhóis, teve sua ocupação estimulada pela metrópole portuguesa, que distribuiu sesmarias onde se formaram estâncias de gado. Nessa terra emerge a figura do gaúcho – o homem e seu cavalo, nômade, livre, libertário. Tais qualidades, exacerbadas, produzem o caudilho, condutor de homens e chefe político. Do isolamento da vida na estância, decorreria o paternalismo; da proximidade dos chefes com os mais pobres, o trabalhismo. Em consonância com essa versão, segundo a qual o meio define a vida social e política, tem-se a construção de uma genealogia de caudilhos. Ela começa com Júlio de Castilhos, passa por Borges de Medeiros e chega a Getúlio Vargas. Nessa trilha, a do castilhismo, os políticos seriam marcados tanto pelo autoritarismo e pelo gosto do poder quanto pela probidade na administração dos bens públicos.

Outras interpretações enfatizam não tanto a genealogia política de Vargas, mas sua geração. A atuação de Getúlio como pacificador do Rio Grande do Sul é considerada representativa de uma nova geração que marcou a história do estado e do país no pós-1930. Dela fizeram parte, além de Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, Flores da Cunha, Lindolfo Collor, João Neves da Fontoura, Maurício Cardoso, Batista Luzardo, entre outros. Se todos esses pertenceram a um mesmo grupo, cabe ainda buscar explicações para o papel maior, dentro dele, de Getúlio Vargas.

Getúlio é então apresentado como uma figura diferente dos demais, é o homem extraordinário. Oswaldo Aranha era o mais gaúcho; Getúlio, o mais "mineiro", ou seja, tinha um comportamento político mais ambíguo. Além da sua "mineirice", outro traço que remete à sua diferença: Vargas foi um silencioso, num país de oradores; frio, num meio de emotivos; era um homem misterioso, discreto, solitário...

Presidente Getúlio Vargas e o ex-escravo, Amaro do Nascimento. São Borja (RGS), dezembro de 1934. Para falar de Getúlio Vargas, quase todos os autores começam ou acabam mencionando Maquiavel. Virtú e fortuna, segundo Maquiavel, são conceitos-chave para se dar conta da ação política do indivíduo, tema estudado desde o Renascimento. A virtú é a "qualidade do homem que o capacita a realizar grandes obras e feitos". É a força de vontade, a motivação interior, o élan que induz o homem a enfrentar a fortuna. Esta significa o acaso, o destino cego, o fatalismo, a necessidade natural, o curso da história. O homem de ação, ou seja, o homem político, se move entre essas duas forças. A fortuna apresenta a oportunidade que, sem a virtude, seria desperdiçada; a virtude, sem a ocasião, seria inútil. As qualidades do homem político têm a ver com sua capacidade de apoderar-se da oportunidade, não ficar sujeito às surpresas do acaso.

Aspecto do cortejo fúnebre na Praia do Flamengo. Rio de Janeiro (DF), 25 de agosto de 1954. É a partir dessa fundamentação que a morte de Getúlio pode ser apresentada como "virtuosa". Se é comum encontrar os atributos excepcionais do herói na sua origem, é igualmente possível confirmá-los pelo seu fim. O suicídio aparece então como ato de heroísmo. Ali Getúlio vira o herói – aquele que está entre os deuses e os homens –, que doa sua vida. Esse fim altera a visão do passado, corrige qualquer outra versão anterior. E é daí que sua vida pode ser apresentada como saga, como aventura, como a travessia do Brasil rural e atrasado para o Brasil industrial e moderno.

"Na saga de Vargas, a virtude moldou a fortuna" diz Luiz Eduardo Soares. O que isto quer dizer? Getúlio estava acuado pelas denúncias do "mar de lama" no Catete, atingido em sua honra e em seu poder. Ao se matar, em 24 de agosto de 1954, conseguiu reviver politicamente e sobreviver a seus adversários. Com seu suicídio e sua Carta-testamento, voltou a ser agente do processo histórico.

Embarque no aeroporto Santos Dumont do corpo do presidente Getulio Vargas para o Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro (DF), 25 de agosto de 1954. O povo, destinatário do gesto, se sente redimido como o foi pelo sacrifício de Cristo. A morte provoca um sentimento de fraternidade, já que o povo experimenta simbolicamente um sentido de unidade. Soares prossegue, tratando a morte – ou o calvário – de Tancredo Neves, o presidente eleito que não chegou a tomar posse, como o avesso do martírio de Vargas. Tancredo é visto como joguete do destino, e não senhor da própria morte. Getúlio, por sua atividade, Tancredo, por sua passividade; Getúlio, por obra da virtude, Tancredo, por desígnio da fortuna, remetem ao paradigma cristão. Ambos, por seu sofrimento, expiam nossas culpas; por caminhos análogos e opostos, ambos prometem a redenção do povo. As cerimônias fúnebres que ambos mereceram foram consagrações populares, vividas como verdadeiras celebrações religiosas do pacto mítico fundador da identidade nacional.

Lucia Lippi Oliveira

   

 

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