Um fantasma ronda... - o 24 de agosto na radical década de 1960
Ao falar sobre as principais dificuldades da campanha de Carlos Lacerda para o governo do estado da Guanabara, em 1960, o vereador Raul Brunini, um de seus mais fiéis seguidores, destacou a pecha que o líder udenista carregava, de ser o "assassino de Vargas". É bastante conhecida a mudança repentina que se operou no quadro político com o suicídio do presidente em 24 de agosto de 1954, transformando Lacerda, em um piscar de olhos, de alvo em algoz. Menos conhecido, no entanto, é o papel que essa data representou para a política radicalizada que marcou os primeiros anos da década de 1960, que teve Lacerda como uma de suas figuras exponenciais.
Poucos se recordam que Lacerda derrotou Vargas pouco mais de um mês depois do suicídio. Não Getúlio, é claro; mas Lutero, seu filho e presumido herdeiro político, batido por Lacerda na eleição de 3 de outubro para a Câmara dos Deputados com uma diferença de quase 40 mil votos. Quatro anos depois, do alto de um "caminhão do povo", Lacerda comandaria a campanha que levou Afonso Arinos ao Senado, derrotando, mais uma vez, Lutero Vargas.
Seria, no entanto, na campanha majoritária para o governo carioca, em 1960, que Lacerda sentiria o peso do "24 de agosto" como obstáculo à conquista dos votos das zonas suburbana e rural. Daí a ansiosa e repetida indagação, feita a correligionários que elogiavam sua performance eleitoral: "e da Praça da Bandeira pra lá?" Era "lá", nos subúrbios distantes e cheios de eleitores, que a campanha de Lacerda precisava vencer o desafio de conquistar redutos em que a lembrança do suicídio de Vargas ainda se mantinha muito viva. Além da forte dominação político-eleitoral do PTB em zonas proletárias, como Bangu e Santíssimo, há que se levar em conta o peso simbólico da figura do "pai dos pobres" junto a esse eleitorado.
Daí porque o fantasma do 24 de agosto, com a tradicional peregrinação ao busto de Getúlio na Cinelândia, coração do Rio de Janeiro, preocupava tanto os lacerdistas. Não foi por acaso que, no dia 22 de agosto de 1960, a Tribuna da Imprensa estampou um vistoso artigo de primeira página denunciando "o plano de provocações para o dia 24". Sabedor do peso que representava para a sua candidatura a rejeição dos getulistas, Lacerda queria passar, com o mínimo de arranhões possível, pela data-símbolo. O mesmo não se deu no ano seguinte, quando, já na condição de governador da Guanabara, ocupou a televisão, justamente no 24 de agosto, para denunciar o suposto plano golpista de Jânio Quadros, que acabou resultando na renúncia do presidente e reforçando o dito segundo o qual, na política brasileira, agosto rima com desgosto.
A posse do vice João Goulart, considerado herdeiro de Vargas por ser o principal líder da corrente trabalhista, conferiu um significado todo especial ao 24 de agosto de 1962. Para a primeira comemoração do aniversário do suicídio sob o governo do PTB, estava previsto um grande comício na Cinelândia, com a aguardada presença do presidente da República. Governador da Guanabara, a Lacerda cabia oferecer segurança ao evento, justamente no momento em que se encontrava em choque com o governo Jango pela possibilidade de transferência dos membros da Polícia Militar carioca para os quadros do funcionalismo federal. No entanto, a percepção, por ambos os lados, do perigoso potencial mobilizador de emoções presente na data, acabou resultando em contenção mútua de troca de acusações – Lacerda preferiu passar o dia trancado no Palácio Guanabara.
A radicalização política de 1963 pode ser medida, entre outros fatos, pela comemoração do "seu" 24 de agosto. A tensão começou em julho, quando, depois de mais uma "carta ao povo" denunciando a possibilidade de intervenção federal na Guanabara, Lacerda foi advertido por Darci Ribeiro, então chefe da Casa Civil da Presidência da República, de que 1963 não repetiria 1954. Parece que o recado foi captado, pois, logo no início de agosto, Lacerda anunciou que decidira evitar os pronunciamentos políticos durante todo o mês, chegando mesmo a suspender as viagens de campanha pelo país, e preferindo, como ele mesmo disse, se concentrar na administração da Guanabara para omitir-se dos fatos políticos. O anúncio de que o presidente Goulart estaria presente ao grande comício a ser realizado na Cinelândia no dia 24, em lembrança do nono aniversário da morte de Vargas, levou Lacerda a denunciar que se estava tramando uma "agostada", com intervenção na Guanabara e seu afastamento do governo. Acostumado ao ataque, o 24 de agosto deixava o governador sempre na defensiva, e ele chegou mesmo a falar em renúncia, como noticiado na Tribuna da Imprensa de 14 de agosto.
O 24 de agosto de 1964, décimo aniversário do suicídio de Vargas, foi submetido aos rigores do regime militar que acabara de se instalar no poder. Gradualmente esvaziada de seu conteúdo político mobilizador, a data se transformou em um momento propício à realização de balanços do que o país foi, é e poderá vir a ser. Aliás, como convém a toda data comemorativa.
Marly Motta
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