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E ele voltou... o Brasil no segundo governo Vargas
Vargas: para além da vida > Um fantasma ronda... - o 24 de agosto na radical década de 1960

Um fantasma ronda... - o 24 de agosto na radical década de 1960

Diretório da UDN em Santa Cruz. Rio de Janeiro (DF), 1958. Ao falar sobre as principais dificuldades da campanha de Carlos Lacerda para o governo do estado da Guanabara, em 1960, o vereador Raul Brunini, um de seus mais fiéis seguidores, destacou a pecha que o líder udenista carregava, de ser o "assassino de Vargas". É bastante conhecida a mudança repentina que se operou no quadro político com o suicídio do presidente em 24 de agosto de 1954, transformando Lacerda, em um piscar de olhos, de alvo em algoz. Menos conhecido, no entanto, é o papel que essa data representou para a política radicalizada que marcou os primeiros anos da década de 1960, que teve Lacerda como uma de suas figuras exponenciais.

Carlos Lacerda discursando no ¨caminhão do povo¨. Rio de Janeiro (DF), 1958. Rio de Janeiro (DF), 1958. Poucos se recordam que Lacerda derrotou Vargas pouco mais de um mês depois do suicídio. Não Getúlio, é claro; mas Lutero, seu filho e presumido herdeiro político, batido por Lacerda na eleição de 3 de outubro para a Câmara dos Deputados com uma diferença de quase 40 mil votos. Quatro anos depois, do alto de um "caminhão do povo", Lacerda comandaria a campanha que levou Afonso Arinos ao Senado, derrotando, mais uma vez, Lutero Vargas.

Seria, no entanto, na campanha majoritária para o governo carioca, em 1960, que Lacerda sentiria o peso do "24 de agosto" como obstáculo à conquista dos votos das zonas suburbana e rural. Daí a ansiosa e repetida indagação, feita a correligionários que elogiavam sua performance eleitoral: "e da Praça da Bandeira pra lá?" Era "lá", nos subúrbios distantes e cheios de eleitores, que a campanha de Lacerda precisava vencer o desafio de conquistar redutos em que a lembrança do suicídio de Vargas ainda se mantinha muito viva. Além da forte dominação político-eleitoral do PTB em zonas proletárias, como Bangu e Santíssimo, há que se levar em conta o peso simbólico da figura do "pai dos pobres" junto a esse eleitorado.

Desfile militar no Dia do Soldado, vendo-se o General Ulhoa Cintra. s.l., 25 de agosto de 1964. Daí porque o fantasma do 24 de agosto, com a tradicional peregrinação ao busto de Getúlio na Cinelândia, coração do Rio de Janeiro, preocupava tanto os lacerdistas. Não foi por acaso que, no dia 22 de agosto de 1960, a Tribuna da Imprensa estampou um vistoso artigo de primeira página denunciando "o plano de provocações para o dia 24". Sabedor do peso que representava para a sua candidatura a rejeição dos getulistas, Lacerda queria passar, com o mínimo de arranhões possível, pela data-símbolo. O mesmo não se deu no ano seguinte, quando, já na condição de governador da Guanabara, ocupou a televisão, justamente no 24 de agosto, para denunciar o suposto plano golpista de Jânio Quadros, que acabou resultando na renúncia do presidente e reforçando o dito segundo o qual, na política brasileira, agosto rima com desgosto.

Jango e Ranieri Mazzilli (presidente da Câmara dos Deputados). A posse do vice João Goulart, considerado herdeiro de Vargas por ser o principal líder da corrente trabalhista, conferiu um significado todo especial ao 24 de agosto de 1962. Para a primeira comemoração do aniversário do suicídio sob o governo do PTB, estava previsto um grande comício na Cinelândia, com a aguardada presença do presidente da República. Governador da Guanabara, a Lacerda cabia oferecer segurança ao evento, justamente no momento em que se encontrava em choque com o governo Jango pela possibilidade de transferência dos membros da Polícia Militar carioca para os quadros do funcionalismo federal. No entanto, a percepção, por ambos os lados, do perigoso potencial mobilizador de emoções presente na data, acabou resultando em contenção mútua de troca de acusações – Lacerda preferiu passar o dia trancado no Palácio Guanabara.

Presidente Castelo Branco (à frente), Ernesto Geisel (1º à direita), chefe do Gabinete Militar da Presidência, e o governador da Bahia Lomanto Junior (atrás do presidente). Salvador (BA), entre 1964 e 1967. A radicalização política de 1963 pode ser medida, entre outros fatos, pela comemoração do "seu" 24 de agosto. A tensão começou em julho, quando, depois de mais uma "carta ao povo" denunciando a possibilidade de intervenção federal na Guanabara, Lacerda foi advertido por Darci Ribeiro, então chefe da Casa Civil da Presidência da República, de que 1963 não repetiria 1954. Parece que o recado foi captado, pois, logo no início de agosto, Lacerda anunciou que decidira evitar os pronunciamentos políticos durante todo o mês, chegando mesmo a suspender as viagens de campanha pelo país, e preferindo, como ele mesmo disse, se concentrar na administração da Guanabara para omitir-se dos fatos políticos. O anúncio de que o presidente Goulart estaria presente ao grande comício a ser realizado na Cinelândia no dia 24, em lembrança do nono aniversário da morte de Vargas, levou Lacerda a denunciar que se estava tramando uma "agostada", com intervenção na Guanabara e seu afastamento do governo. Acostumado ao ataque, o 24 de agosto deixava o governador sempre na defensiva, e ele chegou mesmo a falar em renúncia, como noticiado na Tribuna da Imprensa de 14 de agosto.

O 24 de agosto de 1964, décimo aniversário do suicídio de Vargas, foi submetido aos rigores do regime militar que acabara de se instalar no poder. Gradualmente esvaziada de seu conteúdo político mobilizador, a data se transformou em um momento propício à realização de balanços do que o país foi, é e poderá vir a ser. Aliás, como convém a toda data comemorativa.

Marly Motta

   

 

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