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Futebol, Memória e Patrimônio

Metodologia

Os últimos anos assistiram a um enorme esforço coletivo no sentido de gravar entrevistas de âmbito histórico-documental e, desta forma, criar um registro permanente de informações que, de outro modo, acabariam olvidadas ou perdidas. Pelas questões que suscita na relação história/memória, as entrevistas de História Oral são vias de acesso úteis à compreensão histórica de uma personagem, um grupo ou uma instituição, bem como de acontecimentos e conjunturas que o entrevistado vivenciou na qualidade de ator e/ou de testemunha.

O trabalho com a metodologia de História Oral compreende, pois, a pesquisa e o levantamento de dados para a preparação dos roteiros das entrevistas; passa pela gravação das entrevistas propriamente ditas; e se estende até a duplicação das gravações e o tratamento do material gravado. Assim sendo, a realização das entrevistas será precedida de um estudo intensivo da biografia de cada um dos depoentes selecionados para participar do projeto, de maneira a subsidiar a elaboração de roteiros que abarquem a trajetória pessoal, a carreira futebolística e o contexto histórico em que se inscrevem os entrevistados. Mais do que um interesse episódico e pontual, como costuma ocorrer nas entrevistas conduzidas pelas pautas jornalísticas, está em jogo a possibilidade de reconstituição de um período histórico e de reconstrução de uma memória coletiva, nos quadros durkheimianos propostos por Maurice Halbwachs (1).

Com vistas a superar esses desafios da escrita e da narrativa na historiografia, os depoimentos serão conduzidos por pesquisadores, sendo preferencialmente um do CPDOC e outro do Museu do Futebol. De início, feito o levantamento da totalidade das entrevistas, dar-se-á preferência àqueles que residam no eixo Rio – São Paulo. Uma vez gravados, os depoimentos deverão ser duplicados e processados. O processamento da entrevista, isto é, sua passagem da forma oral para a escrita, incluirá a transcrição das gravações e a conferência de fidelidade da transcrição. Em paralelo, será necessário elaborar o sumário, a fim oferecer um instrumento de consulta aos usuários, no momento em que as entrevistas forem liberadas ao público.

O Programa de História Oral do CPDOC tem como norma, assim como a maioria dos programas orais no Brasil e no mundo, apenas abrir para consulta do público os depoimentos que forem cedidos pelos entrevistados através do documento de cessão de direitos. Por essa razão, deverão ser processadas apenas as entrevistas que forem expressamente cedidas pelos entrevistados. Uma vez autorizadas, as entrevistas estarão à disposição de pesquisadores e do público em geral, sob a forma material e digital, escrita e visual.

A definição do escopo de entrevistados se baseia na tipologia ternária estabelecida no Brasil por Luiz Henrique de Toledo, a partir da sociologia do campo esportivo delimitado por Pierre Bourdieu na França (Profissionais, Especialistas e Amadores) (2). Entre estes, apenas o primeiro está compreendido. A elaboração das linhas mestras de um roteiro de entrevistas será feita após a realização de um encontro que reunirá a equipe do CPDOC e o grupo de colaboradores do Museu do Futebol, parceiros do projeto.

De início, para a realização das entrevistas, será utilizada a listagem constante do livro “Seleção Brasileira: 90 anos”, de Roberto Assaf e Antônio Carlos Napoleão (3). A localização dos entrevistados será facilitada uma vez que boa parte das informações e dos contatos já se encontram disponíveis no Museu do Futebol. De uma lista de 280 jogadores, presentes na fonte de dados do MF, estão selecionados previamente 50 nomes, com a previsão de duração de 3 horas em média por depoimento. As entrevistas estão sujeitas à alteração, em virtude de contingências dos mais variados tipos – recusa, cobrança de cachê, distância de moradia, falecimento – estão descartados, por exemplo, todos os jogadores da década de 1930, que atuaram nas Copas do Uruguai, da Itália e da França, já falecidos.

Uma mostra dos atletas em princípio previstos para os depoimentos encontra-se discriminada na tabela a seguir:

COPA DISPUTADA POPULARMENTE CONHECIDO NOME LOCAL NASCIMENTO DATA NASCIMENTO OBSERVAÇÕES
1950 Nena Olavo Rodrigues Porto Alegre - RS 17/07/1923 Mora em Goiânia
1950 Noronha Alfredo Eduardo Ribeiro - 25/09/1918 -
1950 Ruy Rui Campos - 02/02/1922 -
1954 Alfredo Alfredo Ramos Castilho Jacareí - SP 27/10/1924 -
1954 Cabeção Luís Moraes Areado - MG 23/08/1930 -
1954 Índio Aluízio Francisco da Luz - 01/03/1931 Mora no Rio de Janeiro
1954 Pinheiro João Carlos Batista Campos dos Goytacazes - RJ 13/01/1932 Mora no Recreio dos Bandeirantes – RJ
1958 De Sordi Nílton De Sordi Piracicaba - SP 14/02/1931 Mora em João Pessoa – PB
1958 Dino Sani Dino Sani Rocha de Oliveira São Paulo - SP 23/05/1932 Mora em Barueri
1958 Mazzola José João Altafini Piracicaba - SP 24/07/1938 Mora em Turim - ITA

Criado há 38 anos, em 1973, o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getulio Vargas, tem desenvolvido inúmeros trabalhos nas áreas de pesquisa e documentação, caracterizando-se como instituição pioneira pela atuação integrada nesses dois domínios. O Centro tem como foco a história brasileira do período pós-1930 e detém o maior acervo de arquivos pessoais de homens públicos do país, com a reunião de mais de 1,5 milhão de documentos textuais, fotografias, discos e filmes, provenientes de 200 arquivos doados ao Centro. Entre estes, encontram-se os arquivos de Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Lysâneas Maciel e Franco Montoro, para citar alguns dos nomes que marcaram a história política da recente redemocratização do país.

O acervo histórico do CPDOC é composto de 1.500 entrevistas de História Oral, o que totaliza mais de 5.000 horas de gravação (4). O acervo de entrevistas teve origem com a criação, em 1975, do Programa de História Oral, também voltado para o estudo e a constituição de fontes sobre a história contemporânea brasileira. Além de entrevistas com próceres da vida política nacional, o programa também desenvolve projetos com empresas, movimentos sociais e intelectuais. Em período recente, foi concluído o projeto “Cientistas Sociais de Países Língua Portuguesa: Histórias de Vida”(http://www.fgv.br/cpdoc/cientistassociais), que servirá de parâmetro metodológico para o projeto que ora se encaminha.

Várias das entrevistas que compõem o acervo já foram editadas em livros, como é o caso do depoimento do governador do estado do Rio de Janeiro, Ernani do Amaral Peixoto; do jurista e senador Afonso Arinos de Melo Franco; do economista e ministro da Fazenda, Octavio Gouvêa de Bulhões; do jurista Evandro Lins e Silva, do presidente Ernesto Geisel e de lideranças comunitárias das favelas da cidade do Rio de Janeiro. Os arquivos e as entrevistas são organizados, preservados e divulgados, tornando-se preciosas fontes para pesquisadores nacionais e estrangeiros. Além disso, na área de História Oral, o CPDOC desenvolveu metodologias reconhecidas e adotadas em várias instituições congêneres. Em decorrência, ele tem sido convidado a ministrar cursos e prestar consultorias na área de documentação histórica, o que contribui para consolidar no país a preocupação com a preservação e a divulgação da memória nacional.

Nos últimos anos, o CPDOC vem ampliando suas áreas de atuação. Ao completar 30 anos (1973-2003), tornou-se, além de centro de pesquisa e documentação, uma instituição de ensino, com a instalação de seu Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais e, mais recentemente, da Escola Superior de Ciências Sociais. O portal do CPDOC na Internet (www.cpdoc.fgv.br) permite o acesso a informações sobre os seus arquivos, suas entrevistas e sobre a produção intelectual de seus pesquisadores, além de viabilizar a consulta a seu acervo de imagens, a verbetes do seu Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, importante obra de referência, e a artigos publicados em Estudos Históricos, periódico que vem sendo editado a cada semestre desde 1988.

 

Referências:

  • (1) HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
  • (2) TOLEDO, Luiz Henrique de. Lógicas no futebol. São Paulo: Hucitec/ FAPESP, 2000. BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990.
  • (3) ASSAF, R.; NAPOLEÃO, A.; C. Seleção Brasileira – 90 anos (1914-2004). Rio de Janeiro: Mauad, 2006.
  • (4) ALBERTI, V. História oral: a experiência do CPDOC. Rio de Janeiro : Editora FGV, 1989.

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