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Futebol, Memória e Patrimônio

Enunciado do problema

Quem conta a história do futebol brasileiro? De que forma ela se diferencia do memorialismo e da escrita jornalística? Como ela se preserva e quais os mecanismos de reprodução dessa memória? De que maneira a história futebolística é narrada e quais são os seus fundamentos científicos? Eis alguns desafios epistemológicos que norteiam as pesquisas de historiadores, antropólogos e sociólogos do esporte nos últimos anos. As questões foram colocadas em período recente, pois até pouco tempo atrás muito pouco havia sido produzido nos Departamentos de História e Ciências Sociais sobre a temática esportiva, considerada ilegítima ou de somenos importância.

Depois dos primeiros trabalhos de cunho ensaístico, um passo importante para a formação do campo esportivo acadêmico no Brasil se deu no final da década de 1990. No Rio de Janeiro, a criação do Núcleo de Sociologia do Futebol (UERJ) e do grupo de estudos Memória Social dos Esportes (UFRJ), por iniciativa dos professores Maurício Murad e Francisco Carlos Teixeira da Silva, respectivamente, possibilitou o início de pesquisas sistemáticas na área. Uma equipe de pesquisadores ligados ao Laboratório de Estudos do Tempo Presente (IFCS/UFRJ), por exemplo, se debruçou sobre os arquivos do Clube de Regatas Vasco da Gama. O resultado foi a organização do acervo daquele clube e a publicação de São Januário: arquitetura e história (1998), uma caixa com livro e CD-ROM, de autoria de Hamilton e Clara Malhano (1).

No estado de São Paulo, deve-se destacar inicialmente o Grupo de Estudos do Cotidiano e da Cultura Urbana (PUC/SP), coordenado pela professora Márcia Regina da Costa, e o Núcleo de Antropologia Urbana (NAU-USP), dirigido pelo professor José Guilherme Cantor Magnani. Embora não sejam grupos exclusivos da temática futebolística, ambos despontaram na década de 1990 com o estímulo a pesquisas que tiveram o futebol como objeto de estudo, haja vista o trabalho de Luiz Henrique de Toledo, de Elisabeth Murilho da Silva e Carlos Alberto Pimenta. Nos últimos anos, nota-se um expressivo crescimento de núcleos consagrados à área em todo o estado, cerca de 20 cadastrados na atualidade, com destaque para o Núcleo de Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol (GECEF/UNESP-Bauru), coordenando, entre outro, por José Carlos Marques.

O presente projeto inscreve-se nessa área de investigação, recém-constituída e em vias de afirmação no Brasil. Ele tem como questão fundamental o modo de constituição das fronteiras entre memória e história (2), em específico a aplicação de sua problemática no terreno dos Esportes. A motivação teórica articula-se também a aspectos de ordem prática. A riqueza do material a ser organizado e explorado possibilita o alargamento de sua escala de pesquisa – da esfera clubística à esfera nacional – e a inovação de suas fontes – da arquivologia stricto sensu à História Oral, uma das subáreas da historiografia contemporânea que teve uma particular acolhida no Brasil (3), desde a aparição de The voice of the past, do inglês Paul Thompson, no final da década de 1970.

Os problemas teóricos e práticos do presente projeto se relacionam ainda ao crescimento de importância da memória futebolística nacional na sociedade brasileira, efeito do investimento realizado no campo do jornalismo e do mercado editorial. A partir de interesses e pressupostos os mais diversos, jornalistas esportivos têm se dedicado a recontar a vida de grandes atletas e craques do passado, através da publicação de livros biográficos (4), além daqueles autobiográficos, assinados por técnicos e jogadores. A célebre biografia de Ruy Castro sobre o atacante Garrincha, intitulada A estrela solitária, foi uma das obras de maior repercussão, espécie de best-seller (5).

A abertura de filão para o gênero é compreensível, pois, ao longo do século XX, o desenvolvimento dos meios de comunicação e a disseminação da cultura de massas fizeram com que os atletas esportivos fossem associados, de maneira progressiva, a padrões de conduta massificados. Eles passaram a figurar ao lado de atores de cinema e televisão, de compositores de música, de estrelas da publicidade e de modelos típicos do star system. A sedução exercida por estes novos ícones permitiu a constituição de um universo de idolatria midiática, estudado de maneira precursora nas décadas de 1950 e 60 pelo sociólogo francês Edgar Morin (6) e, em âmbito acadêmico nacional mais recente, pela antropóloga Maria Cláudia Coelho (7).

Sendo assim, as histórias de vida destes jogadores são hoje um ingrediente a mais no aparato do consumo de bens culturais, dentre livros, DVDs e filmes. Ídolos esportivos nacionais da história do século XX, do botafoguense Heleno de Freitas ou do são-paulino Leônidas da Silva até o atual atacante do Corinthians, Ronaldo (8), são alguns dos casos mais notórios da apropriação do gênero biográfico por parte da indústria cultural. Os produtos avolumam as prateleiras das livrarias e ocupam as salas de cinema das grandes cidades, lado a lado com personagens já biografados e filmados à exaustão. O destaque recai em personalidades da sociedade, da política e da cultura, tais como Carmen Miranda e Nelson Rodrigues, Assis Chateaubriand e Roberto Carlos, entre tantos nomes.

Em termos institucionais, a questão da memorialística esportiva é, do mesmo modo, alvo de atenção crescente. Ela pode ser comprovada na criação do Museu do Futebol, localizado no estádio do Pacaembu, em São Paulo, e no sucesso de público e interesse despertado junto à população da cidade, com o fomento do turismo nacional e estrangeiro (9). Em consonância com os modernos padrões de visitação museológica, nos quais a interatividade, os dispositivos computadorizados e os múltiplos apelos sensoriais são a todo o instante mobilizados, uma variada gama de fotos, vídeos e aparelhos multimídias compõe os novos suportes imagéticos que potencializam as fontes de acesso ao passado e despertam a curiosidade do grande público para a História lato sensu (10).

Na disseminação do conhecimento histórico, a remissão a experiências pretéritas vale-se assim dos recursos e dos dispositivos tecnológicos de ponta, mas não prescinde também de uma série de elementos materiais e simbólicos considerados tradicionais. Estes se manifestam pela reunião de vestimentas – camisas, chuteiras, calções – pela exposição de utensílios do jogo – bolas, redes, livros de regras – ou pelo agrupamento de documentos visuais – cartazes das Copas, dísticos dos clubes, flâmulas de entidades (FPF, CBD, CBF), cujos modelos variam no decorrer das décadas e que são guardados por colecionadores anônimos. Todos estes símbolos e artefatos causam, a um só tempo, estranhamento e fascínio com o passado. Homólogas à função das relíquias dos antiquaristas dos séculos XVIII e XIX, as peças contribuem para fazer do futebol um ícone contemporâneo, condizente com a tendência geral à “patrimonialização” da cultura (material e imaterial) e à “musealização” dos bens culturais, tais como ilustradas abaixo:

Na história brasileira, em realidade, a conversão do futebol em objeto de interesse patrimonial não chega a ser uma inteira novidade. Convém lembrar aqui a experiência e o papel pioneiro de conservação levados a cabo pelo Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro (MIS-RJ). Este, inaugurado em 1965 e concebido pelo produtor cultural Ricardo Cravo Albin durante várias décadas, situado originalmente à Praça XV, em um antigo pavilhão da Exposição Internacional de 1922, foi à época um modelo ultramoderno de museu voltado para os registros sonoro e visual. Com apenas dois equivalentes no mundo, ele se tornaria modelo para outros similares no Brasil nos anos seguintes.

Graças à iniciativa de seu idealizador, Ricardo Cravo Albin, uma série de depoimentos sob a rubrica “Futebol” foi alinhada junto a outros eixos temáticos da cultura brasileira: Música, Literatura, Teatro, Cinema, Jornalismo, Rádio. Trata-se de uma experiência ímpar, na medida em que o homônimo e congênere paulistano – o Museu da Imagem e do Som de São Paulo, fundado em maio de 1970 – não chegou a criar uma série temática dedicada ao Esporte. A realização de entrevistas com jogadores, técnicos e dirigentes por parte do MIS-RJ, embora sem os critérios científicos que mais à frente seriam adotados pela metodologia da História Oral – em verdade, tratava-se mais de um encontro de celebridades que reverenciavam personagens reconhecidas da sociedade –, permitiu a gravação de entrevistas com muitos profissionais do futebol. Os encontros se iniciaram em 1967 e se estenderam até a década de 1990, mas, com menor visibilidade, ficaram à sombra dos demais acervos da instituição carioca.

Em um espaço dilatado de tempo, e variando ao sabor das diferentes diretrizes políticas por que passou a instituição, conforme demonstrou a historiadora Cláudia Mesquita no livro Um museu para a Guanabara: Carlos Lacerda e a criação do Museu da Imagem e do Som (1960-1965) (11), o MIS-RJ foi assim realizando algumas dezenas de entrevistas com dirigentes, técnicos e grandes craques, no momento em que estes se encontravam no apogeu ou já haviam encerrado a carreira. Marcos Carneiro de Mendonça, goleiro da fase amadora do Fluminense Football Club nas primeiras décadas do século XX, foi um dos primeiros entrevistados em fins da década de 1960, na mesma ocasião em que compositores populares como Cartola, Donga e João da Baiana prestavam seus depoimentos para a série Musical, sob a direção de Almirante, pseudônimo do compositor Henrique Foréis Domingues.

Depois de anos sem receber a devida atenção, a iniciativa do MIS-RJ se materializou sob a forma de livro durante a gestão de Marília Trindade Barbosa, na década de 1990, com a publicação do volume duplo intitulado Futebol é Arte: depoimentos (12). A obra, no entanto, teve distribuição limitada e foi organizada pelo veterano jornalista Mário de Moraes, que redigiu o primeiro volume. No segundo tomo são transcritas, na íntegra, três entrevistas com grandes craques da seleção brasileira – Domingos da Guia, Pelé e Zizinho – com uma mostra do valor dos testemunhos colhidos.

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Sem negar a importância e o mérito da experiência pioneira do Museu da Imagem e do Som, em particular a coleção “Depoimentos para a Posteridade”, a montagem de um acervo de História Oral em torno da Memória do Futebol Brasileiro requer outro nível de estruturação e sistematicidade. Estes se assentam em uma distinta época histórica, em novos parâmetros de pesquisa acadêmica e em novas demandas do campo museológico no Brasil. O presente projeto se justifica na medida em que busca superar o caráter aleatório, impressionista e fragmentado das entrevistas até então feitas com jogadores, técnicos, jornalistas e autoridades esportivas, quer para biografias jornalísticas, quer para instituições como a referida Fundação Museu da Imagem e do Som, quer para a filmografia nacional. A título de exemplo, citem-se dois filmes pontuais sobre a temática futebolística que tiveram por base entrevistas com estas personalidades: um dirigido por João Moreira Salles e Arthur Fontes (a trilogia Futebol); outro por José Carlos Asbeg (o longa-metragem 1958: o ano em que o mundo descobriu o Brasil) (13). Ambos colhem, decupam e entremeiam trechos de narrativa destes protagonistas, com lembranças de experiências vivenciadas em Copas do Mundo, mas a totalidade dos depoimentos não se encontra acessível aos pesquisadores e ao público interessado.

Em meio a um amplo leque de possibilidades de pesquisa – tópicos como “Clubes de Futebol Amador e de Várzea”, “Política Esportiva Institucional”, “Policiamento e Segurança em estádios”, “Torcidas Organizadas”, “Arquitetura de Estádios”, todos da competência de pesquisadores do CPDOC/FGV –, a aproximação de um megaevento esportivo a ser realizado no Brasil daqui a quatro anos serve de estímulo para que se busque na Seleção Brasileira, e em sua participação nas Copas do Mundo, um foco privilegiado de atenção e investigação na construção dessa memória coletiva. Elemento galvanizador da identidade nacional desde os anos 1930, quando ocorre de maneira efetiva a nacionalização do futebol, através da adoção do profissionalismo, da difusão do rádio e da invenção deste torneio internacional que se desmembra dos Jogos Olímpicos (Amsterdã/1928-Uruguai/1930), este esporte assumiu especial repercussão na vida social brasileira. Ele instituiu aquilo que Benedict Anderson chamou de uma “comunidade imaginada” (14) e passou a caracterizar uma espécie de “segunda natureza” do brasileiro, reveladora de sua auto-imagem no país e alhures.

Se o jornalismo e a memória jornalística constituíram até hoje a principal fonte de acesso na elaboração de uma história das Copas do Mundo, a possibilidade de dar organicidade a esses relatos, por parte daqueles que foram testemunhas daqueles eventos e sem o intermédio/filtro dos jornalistas, é a razão principal pela qual o escrutínio da História Oral vem a contribuir nesta esfera da vida social e coletiva. A obtenção de depoimentos daqueles que estiveram em campo nos últimos oitenta anos servirá de base para uma visão de conjunto das experiências e das transformações por que passou o futebol e o mundo no decurso desse tempo.

 

Referências:

  • (1) MALHANO, Clara; MALHANO, Hamilton. São Januário: arquitetura e história. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.
  • (2) É abundante a literatura sociológica sobre o duo história/memória. O seu marco fundador é a obra clássica do francês Maurice Halbwachs, de filiação durhkeimiana, publicada em 1925: Les cadres sociaux de la mémoire. Para um balanço historiográfico da questão, ver a obra enciclopédica do historiador Jacques Le Goff. GOFF, J. L. História e memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1996. No Brasil, a professora Ecléa Bosi foi responsável por uma obra seminal, inspirada em Henri Bergson e Maurice Halbwachs, fruto de sua tese de doutorado, defendida no final dos anos 1970, na Universidade de São Paulo (USP). BOSI, E. Memória e sociedade – lembrança de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
  • (3) Em São Paulo, deve-se destacar o Núcleo de Estudos em História Oral, da USP, coordenado pelo historiador José Carlos Sebe Bom Meihy. No Rio de Janeiro, o Centro de Pesquisas e Documentação em História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FGV), fundado na década de 1970.
  • (4) A título de exemplificação, cito apenas três: COSTA, Alexandre da. Arthur Friedenreich - o tigre do futebol. São Paulo: DBA, 1999. RIBEIRO, André. O diamante eterno: biografia de Leônidas da Silva. São Paulo: Editora Gryphus, 2000.
  • (5) CASTRO, Ruy. Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha. São Paulo Companhia das Letras, 1994.
  • (6) MORIN, Edgar. As estrelas: mito e sedução no cinema. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
  • (7) COELHO, Maria Cláudia. A experiência da fama: individualismo e comunicação de massa. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1999.
  • (8) CALDEIRA, Jorge. Ronaldo: glória e drama no futebol globalizado. São Paulo: Editora 34, 2002.
  • (9) Em 21 meses de funcionamento, o Museu do Futebol recebeu mais de 750 mil visitantes. Atualmente, é o segundo museu mais visitado no Estado de São Paulo, segundo levantamento feito pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, em 2009.
  • (10) Em pesquisa de avaliação do perfil do público visitante e do seu grau de satisfação com o Museu do Futebol, 98% dos entrevistados identificaram tal espaço como um museu de história. Fonte: Pesquisa de Avaliação e Perfil Socioeconômico e Cultural dos Freqüentadores do Museu do Futebol – Relatório Final. ADM Museologia e Educação, março de 2009.
  • (11) MESQUISTA, Cláudia. Um museu para a Guanabara: Carlos Lacerda e a criação do Museu da Imagem e do Som (1960-1965). Rio de Janeiro: Folha Seca; FAPERJ, 2010.
  • (12) MORAES, Mário de (Org.). Futebol é arte: depoimentos. Rio de Janeiro: FAPERJ/ MIS Editorial, 2002, II vols.
  • (13) SALLES, João Moreira; FONTES, Arthur. Futebol. Rio de Janeiro: Vídeo Filmes, 1998, 3 episódios; ASBEG, José Carlos. 1958: o ano em que o mundo descobriu o Brasil. Rio de Janeiro: Palmares Produções e Jornalismo, 2008.
  • (14) ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas. São Paulo: Ática, 1989.

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