Isaías Alves através de seu arquivo pessoal: possibilidades de leitura
Na década de 1970, a produção historiográfica passou por uma renovação no sentido de desviar o foco das estruturas para investigar as práticas culturais e resgatar a história política, valorizando o indivíduo como agente histórico. Neste período, os arquivos pessoais passaram a ser valorizados enquanto fonte para pesquisa histórica. A discussão sobre as implicações metodológicas do trabalho com fontes dessa natureza gerou um debate que perpassava questões sobre a legitimidade destas e de seus usos.
Atualmente, busca-se desconstruir a naturalidade com que são encaradas as fontes arquivísticas e ressalta-se o “fato dos arquivos serem constituídos, alimentados e mantidos por pessoas, grupos sociais e instituições” (CUNHA, 2004: 293). Assim, torna-se objeto de análise as condições de produção desses fontes e o modo como elas interferem nas pesquisas posteriormente desenvolvidas. É neste momento que entram em cena os “regimes de poder” que valorizam determinados acervos tornando-os relevantes para a memória histórica, cabendo portanto, a reflexão de “quando e por meio de que operações tais marcas do passado deixam de ser atos pessoais e se tornam fatos sociais” (CUNHA, 2004: 295).
Dentro dessa nova abordagem temos, por exemplo, a leitura dos arquivos pessoais como um tipo de testemunho, em que o indivíduo escolhe, através da acumulação documental, uma versão de sua própria história. É o caso da análise de Fábio Bertonha (2007) sobre o arquivo de Plínio Salgado, onde o autor procura perceber, a partir da documentação, a imagem que ele tentou construir de si mesmo. Segundo Bertonha (2007: 04), a construção de seu arquivo parece ter sido uma “tentativa de acertar as contas com o passado e construir a memória com que ele gostaria de ser lembrado”. Neste caso, é possível perceber um esforço de Plínio Salgado em tornar evidente sua importância na história política brasileira.
Grande parte da pesquisa que desenvolvo sobre a relação entre Isaías Alves e o uso de testes de inteligência nas escolas tem como base seu arquivo pessoal. Além disso, este trabalho foi influenciado pelo processo de organização dessa documentação, do qual participei. Neste sentido, acredito que seja relevante o debate sobre a relação entre arquivo pessoal e pesquisa histórica nesse estudo. Parte deste artigo foca nas implicações de uma organização documental onde o usuário e pesquisador são a mesma pessoa, de forma que muitos princípios arquivísticos foram ignorados durante esse processo.
Sobre Isaías Alves
Antes de explorar as características deste arquivo, parece necessário apresentar brevemente a trajetória de seu titular. Isaías Alves nasceu em 1888, em Santo Antônio de Jesus, cidade do interior da Bahia. Formou-se em direito em 1910, mas sua vida profissional direcionou-se para a área da educação. Atuou como professor do Ginásio do Ipiranga e no Ginásio da Bahia e, em 1926, publicou seu primeiro livro, Teste Individual de Inteligência. O livro de Alves defendia a utilidade de testes de inteligência para organizar as classes escolares de uma forma mais homogênea. O critério a ser utilizado, além da idade, seria o QI (quociente de inteligência). A partir do índice, obtido através dos testes, as crianças seriam agrupadas de acordo com o seu potencial de aprendizagem.
Alves especializou-se nesse assunto no Teacher’s College de Columbia, Nova Iorque, em 1931, recebendo o título de Master of Arts and Instructor in Psychology. Neste mesmo ano, foi nomeado Diretor Geral de Instrução na Bahia e membro do Conselho Nacional de Educação (onde permaneceu até 1958).
A partir desta especialização, Isaías Alves desenvolveu o trabalho com testes de inteligência e publicou seu segundo livro sobre o assunto, Os testes e a reorganização escolar. Neste livro, Alves apresentou alguns dos resultados das experiências que havia realizado no Ginásio do Ipiranga, colégio que adquiriu em 1911. Ele também atuou como subdiretor técnico da Instrução Pública Federal e foi chefe do Serviço de Testes e Escalas do Distrito Federal, onde trabalhou ao lado de Anísio Teixeira1. Em 1934, passou a atuar como assistente técnico do Departamento Nacional de Educação e em 1938, foi nomeado secretário de Educação e Saúde da Bahia, mesmo ano em que seu irmão, Landulfo Alves, assumiu a interventoria do Estado.
Em 1941, ainda na Secretaria, Isaías Alves, junto com outros professores e intelectuais baianos, fundou a Faculdade de Filosofia da Bahia. Em 1942, ano em que a Faculdade começou a funcionar efetivamente, Isaías Alves deixou o cargo de secretário e passou a atuar exclusivamente nesta instituição, que dirigiu e onde ministrou aulas. Foi na Faculdade de Filosofia da Bahia que, aos 70 anos, Alves encerrou suas atividades profissionais.
A fundação desta Faculdade atendia à necessidade de uma formação mais específica para os professores do ensino secundário. Segundo Dias (2008: 250), Alves esperava que essa orientação “propiciaria a formação de uma ‘consciência profissional’ própria, mas que deveria ter o mesmo prestígio social de outras categorias profissionais liberais, como os médicos, advogados e engenheiros, por exemplo”.
Um momento a se lembrar: a Fundação da Faculdade de Filosofia da Bahia.
No arquivo de Alves, uma das subséries mais significativas é sobre a Faculdade de Filosofia. O titular reuniu notícias de jornais, discursos e cópias das cartas que enviou com pedidos de doações para a fundação da faculdade. O volume de documentos pode ser explicado não só pelo tempo que o titular se dedicou ao ensino nesta instituição, mas também pela importância que a faculdade adquiriu em sua trajetória. Segundo Bertonha (2007: 5), as memórias de algumas pessoas se organizam em torno de um “tempo referencial, aquele em que a pessoa vive seu momento chave, especial e a partir do qual todas as suas experiências posteriores são comparadas e avaliadas”. No caso de Isaías Alves, é possível apontar a fundação da Faculdade de Filosofia da Bahia como seu “tempo referencial”.
Este fato parece, para ele, ter sido o coroamento de sua trajetória, o que foi bastante explorado em homenagens recebidas por Alves. Em setembro de 1958, aos 70 anos, quando foi compulsoriamente aposentado por alcançar a idade limite no serviço público, Alves recebeu a primeira “Medalha Universitária da Bahia” concedida pela Universidade da Bahia. No discurso de homenagem, Thales de Azevedo2 nos remete ao congresso de estudantes em 1909, em que Alves defendeu a criação de Universidades, para ressaltar que sua preocupação com o ensino superior vinha de longa data. O mesmo pioneirismo é lembrado por Hermano Gouveia Neto ao afirmar que Alves foi “o primeiro educador a falar da necessidade de se criar uma Faculdade de Educação” e que dentre suas realizações pode-se citar a “fundação da nossa primeira Faculdade de Filosofia” 3.
A partir dessas referências, é possível compreender que no seu currículo, entendido como uma “autobiografia resumida”, nas palavras de Arthières (1998: 13), Alves não tenha incluído sua data de formação em Direito, mas o fato de ter sido representante da Faculdade de Direito da Bahia no I Congresso de Estudantes em São Paulo (1909), em que apresenta a tese em favor da criação de universidades no Brasil. Este tema também foi defendido por ele numa série de oito artigos publicados no Diário de Notícias neste mesmo ano (DIAS, 2008: 244). É também significativo que Alves tenha escolhido justamente os artigos que publicou entre 1906 e 1918, no jornal O Palladio e no Diário de Notícias, para serem datilografados em um dos cadernos que compõem o acervo. Em geral, os cadernos contém originais de jornais recortados e colados nas páginas, reunidos por um mesmo assunto. No caso desse caderno, Alves reuniu e datilografou artigos onde ele versava sobre a educação brasileira e a necessidade de criar universidades. Ao final de um deles encontra-se uma observação escrita com sua caligrafia: “Este artigo foi meu, fazendo esforço por ocultar-me para melhor ser ouvido. Nada valeu.” 4 Este trecho, que parece prenunciar a derrota de Alves, ganha outro sentido quando confrontada com sua trajetória, pois reforça a ideia de que a criação da Faculdade de Filosofia era um projeto antigo e que esta conquista foi fruto de longos anos de dedicação.
Vale ressaltar que, apesar do pioneirismo atribuído a Isaías Alves, a fundação da Faculdade de Filosofia foi também fruto de um esforço conjunto de professores, cuja participação não pode ser aqui subestimada. Para criação da Faculdade, Alves recebeu doações da Liga de Educação Cívica da Bahia que formou a junta mantenedora da Faculdade (DIAS, 2008: 247). Contou também com o apoio de outros 39 professores, convidados por ele a integrar o corpo docente da Faculdade, e que estiveram presentes na primeira reunião em novembro de 1941 como, por exemplo, Thales de Azevedo.5 Não é possível negar, entretanto, que a figura de Alves foi associada ao protagonismo na fundação da Faculdade de Filosofia da Bahia (FFB), até porque foi ele que liderou a retomada das atividades da Liga, em cuja assembleia extraordinária, no dia 16 de abril de 1941, foi deliberada a fundação da FFB (DIAS, 2008, 247).
Parece ter sido por conta dessa memória, portanto, que a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (doravante FFCH) da Universidade Federal da Bahia recebeu, em 1972, a documentação que constituía o seu acervo pessoal. A ata de doação, assinada por Fernando da Rocha Peres, Helena Sampaio Cruz e Maria Izabel de Pinho e Souza durante a gestão de Joaquim Batista Neves, previa que, em comemoração aos 30 anos da Faculdade, fosse criada uma “Sala Isaías Alves”, em homenagem ao seu professor fundador, além da realização de um trabalho sobre a Instituição.
Uma pesquisa mais aprofundada ainda precisa ser realizada para estabelecer a ligação entre os doadores do acervo e o titular. Sabe-se que Fernando da Rocha Peres é escritor e, assim como Alves, membro da Academia de Letras da Bahia. Helena Sampaio Cruz foi bibliotecária da UFBA e filha do professor Philomeno Cruz, que ensinou Desenho Geométrico no Ginásio da Bahia, onde Isaías Alves também foi professor. Sobre Maria Izabel de Pinho e Souza ainda não possuímos mais informações. Essa lacuna impede que a doação do arquivo por estes indivíduos seja corretamente dimensionada.
A doação do arquivo como valorização de uma memória
Como já foi dito, a trajetória de Alves enquanto homem público, apesar de permeada por outras instâncias de interesses, a exemplo dos testes de inteligência por ele defendidos entre os anos de 1920 e 1930, é rememorada a partir da fundação da Faculdade de Filosofia da Bahia. Assim, a criação da faculdade foi considerada por ele e por seus amigos como seu legado, pela grande importância do fato em sua vida e também porque mudou as perspectivas de formação profissional dos professores baianos. Por isso, podemos entender a doação de seu arquivo como parte de um investimento na memória do titular. Heymann nos alerta que
Não se deve perder de vista que os investimentos na memória – projetos institucionais, comemorações, homenagens – visam ancorar no passado as posições que os protagonistas desses investimentos ocupam no presente ou pretendem ocupar no futuro, sejam eles os próprios titulares ou não, estando em jogo não apenas as condições que permitem criar uma instituição de memória, mas também as estratégias de valorização e comemoração que, continuamente, tomam os arquivos como objeto.(HEYMANN, 2009: 75)
Ao discutir a noção de legado, Heymann (2005: 2) ressalta o processo de valorização de uma memória individual que a torna exemplar ou fundadora. Nesse processo de “produção de um legado”, é importante que a instituição que recebe o arquivo expresse e ressalte a importância dele, evitando que essa memória seja esquecida. Por isso, a escolha da instituição contemplada com a doação não deve ser ignorada nesse processo de valorização.
O arquivo de Alves poderia ter sido doado à Academia Baiana de Letras, onde Alves ocupou a cadeira n° 32. Esta instituição possui um arquivo em que é possível encontrar informações sobre os acadêmicos, além de consultar os livros publicados por seus membros. O volume de documentos é bastante variável, enquanto Thales de Azevedo possui diversas pastas bastante volumosas, encontramos apenas uma pequena pasta sobre Isaías Alves, que pouco nos revela sobre sua atuação na Academia. É possível inferir, entretanto, que Alves não teve significativo destaque nesta instituição.
A Faculdade de Filosofia, ao contrário, está associada à sua imagem como professor fundador. É também sobre ela que parte dos documentos trata, como já foi apontado anteriormente.A doação torna-se então um “investimento social na memória”, que se materializa na doação de seu acervo pessoal à própria instituição fundada por ele.
Ainda que não possamos afirmar que o trabalho sobre a FFCH foi efetivamente elaborado, isto não significa dizer que esse investimento não foi eficiente. É verdade que, atualmente, a FFCH está associada à imagem de Isaías Alves muito superficialmente. Dificilmente um aluno do campus saberá dizer quem foi Alves e tampouco notará que foi este o nome dado à biblioteca. Este era o meu caso antes de ter entrado em contato com seu arquivo pessoal.
Entretanto, as pesquisas acadêmicas que tem como foco o ensino superior na Bahia apontam a centralidade de Isaías Alves nesse processo e se fundamentam nos documentos presentes em seu arquivo. Ao analisar a profissionalização do professor de matemática na Bahia, Dias (2008) explora os esforços de Alves para a criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Bahia de onde saíram os primeiros licenciados na matéria. Acompanha a mesma abordagem o trabalho de Bertani (2008) intitulado “A profissionalização do professor de matemática e a fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Bahia: contribuições e controvérsias de Isaías Alves”. O trabalho de Alba Mello (2005) sobre “Isaías Alves e a educação na Bahia”, que aponta a importância de Alves na formação dos professores baianos, também utiliza fontes de seu arquivo pessoal. Dessa forma, a doação de seu acervo pessoal possibilitou que sua atuação fosse lembrada, ainda que apenas através dessas pesquisas.
O trabalho de reorganização do acervo: algumas possibilidades de pesquisa
O trabalho no acervo começou em 2005, quando o professor Antonio Negro reuniu um grupo de alunos dispostos a participar da organização dos documentos doados, que estavam no arquivo da FFCH, junto com outros documentos administrativos da Instituição. A ideia inicial era, através do contato direto com a documentação, incentivar os alunos a desenvolverem pesquisas relacionadas a ela.
Os documentos foram inicialmente organizados por tipo: jornais, cartas, relatórios, entre outros, e depois separados por temas e subtemas relacionados à trajetória do autor. Quando iniciei o contato com a documentação, acredito que parte mais difícil do trabalho já havia sido feita, que era a de reunir o acervo e organizá-lo de uma forma lógica em séries e subséries. Vale ressaltar que a organização não partiu de conceitos arquivísticos básicos, como o princípio da proveniência ou ideia de respeito aos fundos. O principal objetivo foi possibilitar o acesso à documentação, antes dispersa pelo arquivo da FFCH.
A consulta ao arquivo abre grandes possibilidades de pesquisa, a exemplo dos documentos da Subsérie Secretaria de Educação e Saúde da Série Educador. Esta subsérie possui relatórios escolares enviados à Secretaria, que revelam a distância entre o discurso educacional progressista (percebido durante toda a leitura da documentação) e a prática educacional, que encontra como principais dificuldades a falta de estrutura e de recursos financeiros. Apesar de serem escritos em clima de otimismo, é possível perceber problemas recorrentes como a falta de mobiliário escolar, quase sempre improvisados ou insuficientes para o número de alunos nas escolas.
Na série Documentos Pessoais, é possível encontrar cadernos de anotações, endereços, convites, e tem como principal destaque a subsérie Diários e Cadernetas, onde encontramos uma série de cadernos em que o titular registrava sua impressão sobre diferentes momentos da vida política nacional, ao mesmo tempo em que descrevia aspectos do seu cotidiano. Um dos alunos do projeto, Simão Tannous desenvolveu uma pesquisa intitulada Um Baiano Observa a História: Isaías Alves e o Governo João Goulart (1963-1964) que tem como ponto de partida as páginas de algumas dessas cadernetas.6 É interessante notar que as cadernetas também possuíam recortes de notícias de jornais a partir dos quais Alves baseava suas reflexões, o que possibilitava uma confrontação mais direta entre a notícia veiculada e as impressões do autor.
A Subsérie Produção Intelectual, da Série Estudos, possui tanto discursos e artigos produzidos por Isaías Alves quanto artigos de outros autores, a exemplo do Boletim da Associação Baiana de Educação de 1932. Esta subsérie é importante, porque insere o discurso de Isaías Alves sobre os problemas relacionados à educação num discurso mais amplo sobre reforma educacional, que se desenvolvia no mesmo período. Esses artigos discutem principalmente a responsabilidade pública na condução dos assuntos educacionais e as medidas que foram efetivamente tomadas para resolver os problemas da educação.
Somado aos artigos, o acervo possui inúmeros recortes de jornais relacionados à educação nacional e baiana que complementam a discussão. Dentro da Série “Jornais”, a Subsérie “Educação”, reúne grande parte das notícias acerca dos testes de inteligência, que é objeto de minha pesquisa. Os jornais demonstraram tanto a recepção dos livros de Isaías Alves sobre o assunto, quanto a ideia de separar os alunos a partir de sua idade mental. Estas tentativas de inovação justificavam-se porque a aplicação de métodos científicos para melhorar a educação dava um caráter menos empirista à prática pedagógica. O desejo de associar ciência e educação fica claro após a leitura desses jornais. É também lá que encontramos as principais críticas feitas aos testes de inteligência, que questionam desde o conceito de inteligência até a possibilidade de medi-la. O contato com a documentação permitiu apontar os testes de inteligência como foco de interesse e, ao elaborarmos um projeto de iniciação científica, eu assumi a responsabilidade de continuar o trabalho de organização do arquivo.
À primeira vista, para um pesquisador, podemos apontar dois benefícios relacionados ao acesso a um arquivo ainda em organização. O primeiro é a ausência de filtros burocráticos: não é preciso preencher fichas, pedir autorização, marcar hora ou contar com a boa vontade daqueles que nos permitem o acesso à informação. O segundo é a possibilidade de consultar documentos ainda pouco explorados, que pode nos trazer novas perspectivas de pesquisa. Foram esse fatores que me incentivaram a desenvolver o trabalho de organização do arquivo. Em contrapartida, desenvolver uma estudo em documentos não catalogados dificulta o trabalho do pesquisador que, imerso nos papéis, não consegue elaborar uma lógica eficiente de pesquisa, uma vez que não sabe o que vai encontrar durante o trabalho.
A consulta em outros arquivos também se mostrou essencial para compreender o caráter fragmentário de seu acervo. Um bom exemplo é o manuscrito intitulado Dois mestiços de gênio, que em linguagem rebuscada fala primeiro sobre André Rebouças7 e depois sobre Theodoro Sampaio8. Esse texto, aparentemente não publicado, prenhe de anotações à margem ou metatextos, apontava para um possível cruzamento com as concepções raciais que encontramos nas entrelinhas dos testes de inteligência. Os resultados estatísticos dos testes demonstravam uma superioridade branca nos índices de inteligência. Pesquisando no arquivo da Academia de Letras, foi possível perceber que o manuscrito era apenas um esboço de seu discurso de posse da cadeira n° 32, publicado por esta instituição, cujo patrono era André Rebouças e o ocupante anterior era Theodoro Sampaio.
Além da Academia de Letras, o trabalho no Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB) é essencial para compreender seu trabalho na Secretaria de Educação e Saúde. A presença de documentos desta pasta em seu arquivo pessoal, também nos remete a discussão entre a difícil fronteira entre os documentos públicos e os que o titular manteve em seu poder e que hoje se encontram em seu arquivo pessoal.
Os relatórios de ensino, enviados pelos diretores de escolas públicas à Isaías Alves, são um bom exemplo. Esses relatórios abordam os problemas estruturais das escolas, assim como o cumprimento dos parâmetros exigidos pela secretaria (que seguia as diretrizes do Estado Novo) como as comemorações cívicas: festas no dia da bandeira, da raça ou do aniversário do então presidente Getúlio Vargas. Esses relatórios podem ser encontrados tanto no seu arquivo pessoal quando no Arquivo do Estado (APEB). Não foi possível, entretanto, compreender os critérios utilizados pelo titular para manter esses relatórios em seu poder.
As questões públicas no universo particular dos arquivos pessoais
Ao analisar o arquivo pessoal de Ruth Landes, Cunha (2004: 297) aborda a dificuldade em delimitar a fronteira entre o profissional e o pessoal em seus documentos. As correspondências trocadas entre Landulfo Alves e Isaías Alves é um bom exemplo de como essa dificuldade é comum nos arquivos pessoais. Classificada como parte da subsérie de Correspondências Familiares, as cartas enviadas por Landulfo a Isaías exploram frequentemente o cenário político baiano. Numa delas, Landulfo comenta a candidatura de Góis Calmon ao governo da Bahia declarando que “tudo leva a crer que o caso não precisa de eleição. O homem já está eleito pelo Catete e é tudo o que se precisa.”9 De fato, Góis Calmon tomou posse em março de 1924 após intervenção do governo federal (SAMPAIO, 1998). Além de discutir questões políticas, as cartas também comentam aspectos da educação americana como no período em que Landulfo Alves especializava-se em agronomia no Agriculture and Mechanical College, Texas (1914).
Por outro lado, são inúmeras as cartas que se concentram em assuntos familiares como a doença da mãe e a situação financeira de ambos. Numa delas, Landulfo escreve de Londres, em 1921, explicando que seu dinheiro para se manter no país acabaria em novembro e necessita de ajuda para conseguir o restante, declara ainda que “para satisfazer o preconceito do povo voltando em dezembro eu terei passado na Europa o tempo suficiente a fazer jus aos muito especiais que atribuem a quem esteve aqui”10. Essas cartas mostram um outro lado da relação entre os irmãos, que ainda não haviam alcançado postos significativos na esfera pública.
Se o exame de seu arquivo demonstra como o público e o privado se misturam com facilidade, as particularidades de sua biblioteca pessoal podem ter se perdido quando esta foi doada por ele à Faculdade. Seus livros foram incorporados ao acervo da instituição, o que impossibilita delinear claramente sua trajetória de leitura. O mesmo não aconteceu com Anísio Teixeira, que teve sua biblioteca doada ao centro de memória da Ufba, onde é possível perceber parte das influências intelectuais que o autor recebeu. É interessante observar que muitos livros presentes na biblioteca de Anísio Teixeira foram lidos e citados por Alves em seus trabalhos, a exemplo de The Intelligence of School Children (TERMAN, 1919). Essas relações contribuem para entender o cenário intelectual da época, uma vez que ambos eram contemporâneos e que certos livros eram frequentemente discutidos pelos educadores, interessados em participar das mudanças da política educacional do Brasil.
A leitura desses exemplares também esclarece os apontamentos avulsos que poderiam ser encarados como “lixo histórico” na definição de Heymann (1997: 51). Segundo a autora, é comum que a organização da documentação priorize determinados materiais considerados importantes para compreender a trajetória de seu titular e organize outros em classificações gerais, que desestimulam a consulta a esses documentos. Dessa forma, a documentação de seu arquivo parece encontrar uma dimensão mais específica e se torna expressiva, principalmente através dessa confrontação entre arquivo pessoal e outros arquivos.
Acumulação e seleção de documentos
Nos trabalhos sobre arquivos pessoais é possível que os pesquisadores, a partir de um levantamento sobre as condições de produção e doação do arquivo, associem a acumulação a uma intenção autobiográfica, como no caso de Priscila Fraiz (1998), que analisou o arquivo de Gustavo Capanema. Ao examinar o acervo, Fraiz pode perceber uma lógica de organização anterior à doação, realizada pelo próprio titular, além de encontrar fragmentos autobiográficos que reforçam sua tese. A partir desta constatação, a lógica inicial de acumulação e de organização da documentação foi redimensionada, assim como deve ser a leitura dos documentos do próprio arquivo.
Não é possível indicar que se Isaías Alves pretendia escrever sua autobiografia, mas percebemos que o titular usou parte da documentação para escrever Matas do sertão de Baixo, livro em que fala do recôncavo baiano e traça sua genealogia. Alves deixou no acervo uma série de cadernos manuscritos (como já dito anteriormente) e um deles contém esboços deste livro. Além disso, é possível encontrar dados estatísticos sobre Santo Amaro (cidade do recôncavo), que também parecem ter sido usados para a escrita do livro.
É possível identificar também uma lógica de acumulação pela quantidade de cadernos e recortes organizados, bem como das inúmeras anotações em lápis vermelho que destacam os assuntos em foco nos recortes de jornais reunidos. Nas atas do Conselho Nacional de Educação (do qual Isaías Alves foi membro), publicadas no Diário Oficial, as anotações e grifos ressaltam justamente as falas do titular durante as discussões. Outros números do Diário Oficial, em que foram publicadas suas nomeações para cargos públicos, também são circulados ou destacados por com lápis vermelho. Este procedimento facilita, mas também direciona o trabalho de pesquisa. Nesses jornais, com artigos postos em relevo pelas marcações, também encontramos outros textos que interessam a um trabalho que versa sobre educação, como editais para seleção de professores, por exemplo.
A discussão sobre arquivos pessoais nos chama a atenção para as diversas instâncias de organização e acumulação dos documentos que os constituem. O resultado dessa reunião de documentos é sempre fruto de uma construção coletiva que envolve tanto o titular quanto seus familiares, amigos e por vezes, seus funcionários. Uma das dimensões que apontam para a construção coletiva do arquivo de Alves são os recortes de jornais sobre ele, enviados por seus amigos, que possibilitaram o acompanhamento da repercussão da publicação de seus livros em outros estados. É o caso, por exemplo, do recorte da Folha do Norte, de Belém, em que Remígio Fernandez faz uma crítica ao livro Teste Individual de Inteligência. Neste artigo, Fernandez declara que
“nos moldes da psicologia experimental, o educador não é mais um funcionário público nem um profissional de uma arte liberal. É um homem de ciência, um autêntico sacerdote da religião do ensino”. 11
Esses artigos permitiam que Alves acompanhasse a repercussão de seus trabalhos no país, além de informar sobre o desenvolvimento de novos trabalhos. Alguns desses jornais também eram colados dentro dos próprios livros de Alves. Em uma das edições de Os testes e a reorganização escolar (1930) analisada durante a pesquisa, encontra-se uma anotação na folha de rosto em caneta contendo: “Para uso e anotações para a segunda edição”.12 Além do livro conter anotações sobre o que deveria ser reelaborado, no seu interior encontra-se uma carta assinada por “Alcides Xavier Gouveia, assistente técnico do ensino em Minas”. A carta sinalizava erros de cálculos do livro, demonstrados e explicados por Gouveia, que também forneceu indicações bibliográficas. Esta carta, assim como o recorte de jornal enviado por Remígio Fernandez, nos indica que Alves mantinha um diálogo com os educadores que também se colocavam a favor dos testes de inteligência
No período em que ele foi secretário de educação, esta acumulação parece ter ficado a cargo dos funcionários da secretaria, uma vez que os recortes de jornais deste período são classificados e colados em papel timbrado do “serviço de recortes” do gabinete do secretário. Este serviço parece ter ficado a cargo do setor de arquivo de seu gabinete.13 Essa facilidade pode explicar a diferença significativa entre o volume da série “Secretaria de Educação e Saúde” e as outras séries do arquivo. Se fizermos uma comparação entre as séries, é possível apontar esta como uma das duas séries mais significativas, ao lado da série sobre a Faculdade de Filosofia da Bahia.
De acordo com a ata de doação, que faz uma listagem geral dos documentos, é possível perceber que parte da documentação se perdeu durante esses anos. As atas da Liga de Educação Cívica, apesar de constarem na lista, nunca foram encontradas. O mesmo acontece com alguns dos cadernos que continham discursos escritos pelo titular. De fato, encontramos uma agenda de 1961 em que Alves registrou: “escreverei aqui memórias de 1941, quando fundamos a Faculdade de Filosofia da Bahia”, entretanto, as páginas seguintes estão em branco. Em 1976 houve uma mudança da sede da Faculdade, que ficava no Terreiro de Jesus, para o atual campus de São Lázaro, o que implicou numa nova intervenção na disposição do acervo. As perdas documentais podem ser explicadas por esse mudança, mas é possível que parte desses papéis ainda estejam misturados aos documentos administrativos da FFCH.
Neste sentido, podemos nos questionar até que ponto a organização inicial que o autor deu aos seus documentos influencie a pesquisa histórica. As perdas documentais e a reordenação do acervo parecem ter deixado poucas pistas sobre a sua disposição original. Como o acervo foi doado à Faculdade e depositado em seu arquivo corrente, não podemos dizer que houve o filtro especializado do arquivista, que elabora temas chaves e pontos de acesso que remetem aos documentos em questão, mas o filtro do titular ou de seus familiares nos parece por vezes evidente.
Luís Henrique Tavares (2001: 424) mencionou o envolvimento de Alves no movimento integralista baiano. Procurei menções de sua participação em seu arquivo pessoal e encontrei apenas duas. A primeira é um recorte de jornal que anuncia a palestra de Alves “especialmente dedicada aos Plinianos e Blusas Verdes”,14 depois cancelada em virtude de uma palestra a ser ministrada por ele neste mesmo dia, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. A segunda é uma carta enviada por seu cunhado, André Lyrio, em 1938, que declara:
Você foi integralista, mas com o Estado Novo, de 1º de novembro pra cá, certamente, conformou-se com a situação, mui especialmente ocupando cargo de elevado destaque no governo de seu mui querido irmão e nosso distincto amigo – Landupho Alves.15
A ausência de documentos sobre o integralismo dificulta um vasto estudo sobre esse aspecto de sua vida. Essa ausência, contudo, mais explica que decepciona. A escassez de fontes parece coincidir com o interesse de Alves, que se tornou um aliado do regime estadonovista. Vale lembrar que o decreto do Estado Novo, em 1937, teve o apoio dos integralistas, que esperavam ter um significativo espaço de atuação no novo regime. Ainda que apoiasse o golpe, a Ação Integralista Brasileira (AIB) foi incluída no decreto que determinava o fechamento de todos os partidos políticos. Em 1938, em reposta, os integralistas tentaram depor Vargas e a partir de então, passaram a ser perseguidos politicamente. Alves, apesar de integralista, conseguiu se manter neutro e assumir o cargo de secretário de educação, por indicação de seu irmão, Landulfo Alves. O silêncio de seu arquivo sobre sua militância política é útil portanto, para pensar que parte da trajetória do titular deveria ser esquecida (ou apagada) nessa seleção de documentos.
A carta de Lyrio segue alertando que os amigos de Alves que atuavam na política do interior baiano declaravam que sentiam-se protegidos, uma vez que eram integralistas assim como ele. A carta era portanto um aviso, para que ele tomasse cuidado e não fosse “visto no governo do Estado como um suspeito”. Assim, para continuar na administração com tranquilidade era preciso que Isaías Alves reafirmasse seu compromisso com Vargas.
Em 1942, o jornal O Imparcial publicou uma entrevista com Alves em que ele declara os motivos de ter deixado de ser integralista. Segundo ele, o Partido Integralista havia perdido o seu fundamento desde que “O Estado Nacional, organizado sabiamente pelo presidente Getúlio Vargas, deu ao Brasil a solução de seus problemas políticos e econômicos”16. A declaração, concedida no período em que o Brasil declarou guerra ao Eixo, reforçava o vínculo entre Isaías Alves e o regime do Estado Novo, além de assegurar sua recusa de qualquer tipo de afinidade com a ideologia fascista.
É a partir deste quadro de contestação aos regimes fascistas, que se compreende a declaração de Alves de que seu “pensamento mostra-se de, longa data, contrário ao totalitarismo agressivo, anti-científico e anti-democrático das nações que os aliados hoje combatem”.17 Dessa forma, entendemos por que, os poucos fragmentos que encontramos, fazem parte de um conjunto mais amplo de fontes sobre outros aspectos da vida do titular. A carta de André Lyrio, por exemplo, encontra-se em meio às suas correspondências familiares, uma vez que eles eram cunhados.
Segundo Bertonha (2007: 06), mesmo no caso de integralistas famosos como Plínio Salgado, a associação entre o integralismo e as ideologias fascistas europeias, frequente nos anos 30, tornou-se inaceitável na “memória construída no pós 45”. Assim, o autor identifica o apagamento dessa memória também no arquivo de Plínio Salgado, onde não foram encontrados documentos que remetessem ao contato entre integralistas e nazistas, por exemplo. O mesmo parece ter acontecido com o arquivo de Filinto Muller, onde Heymann (1997: 55) relata a decepção dos pesquisadores ao perceberem a ausência de documentos que remetessem a participação do titular no grupo germanófilo que atuava no governo Vargas.
Ainda que tenha se posicionado claramente a favor do Estado Novo, as acusações contra seu irmão, Landulfo Alves, afetaram sua posição na secretaria. Segundo Ferreira (2006: 81), Landulfo Alves tornou-se desafeto político de Franklin Lins de Albuquerque, antigo “coronel” do sertão baiano, que iniciou contra ele uma “campanha em que o acusava de ser germanófilo e pró integralista”. Ainda segundo a autora, essa campanha desgastou a imagem do então interventor, que foi substituído por Pinto Aleixo. Neste período, o presidente recebeu um telegrama que dizia:
“Consoante mensagem dirigida ao futuro interventor, na persuasão mudança Governo Estado, assinada quasi unanimidade professores curso Normal, Secundário e Primário da Capital, contando mais de 400 assinaturas, apelamos alto espírito patriotismo e justiça, isenção política V. Ex., para conservação Dr. Isaías Alves Secretaria de Educação Estado, atendendo altos e inconfundíveis serviços jamais prestados Estado por qualquer outro administrador.” 18
Ainda que tenha realizado uma administração satisfatória na pasta da educação, e que isso tenha sido reconhecido pelos professores, os apelos não impediram, entretanto, o afastamento de Isaías Alves da secretaria. Assim, o fato de Alves ter se concentrado nas atividades da Faculdade de Filosofia, que começaram efetivamente em 1943, coincidiu com uma contingência histórica que foi seu afastamento da secretaria em decorrência das acusações de Franklin Lins de Albuquerque. Sem a informação de que Alves era filiado ao Partido Integralista e reconhecido como tal, não seria possível fazer essa associação, e a saída da secretaria parece ter acontecido exclusivamente em virtude da intensificação das atividades na Faculdade.
Evidenciando caminhos: os direcionamentos do arquivo
Outra implicação da seleção de documentos que são doados em um arquivo pessoal, é que uma farta documentação sobre determinado assunto não apenas facilita o trabalho do historiador, como direciona o foco. O interesse pela pesquisa que desenvolvo atualmente foi, em grande parte, despertado pela grande quantidade de recortes de jornais que reconstruíam um debate sobre a questão da inteligência nos anos de 1930. No arquivo, é possível encontrar um caderno que reúne parte desses recortes, dentre eles: O Globo (RJ), O imparcial (BA), Folha do Norte (PA), Diário de Notícias (RJ) e Estado de S.Paulo.
A leitura desses artigos mostrou que, desde a criação dos primeiros testes de inteligência pelo psicólogo francês Alfred Binet19, em 1904, os psicólogos discutiam sobre a real possibilidade de mensurar a inteligência. Nos Estados Unidos, este debate ganhou novos contornos a partir dos trabalhos de Terman20 na Universidade de Stanford (Califórnia) e Thorndike21 na Universidade de Columbia (Nova Iorque). Além de utilizar os testes na escolas americanas, ambos auxiliaram o governo americano na seleção de seus recrutas durante a Primeira Guerra Mundial. O ponto mais polêmico desses estudos era a associação estabelecida entre raça e quoeficiente de inteligência, onde negros e pobres obtinham os piores desempenhos.
No Brasil, a primeira publicação sobre o assunto foi Tests, de Medeiros e Albuquerque22 em 1924. A partir desse ano, é possível encontrar diversas publicações e adaptações dos testes, principalmente dos americanos. O debate sobre a importância e utilidade dessas classificações para ajudar a racionalizar o sistema de ensino brasileiro encontrou aqui, mais adeptos que críticos. É possível mapear a tentativa de implantar o sistema de classificação por quoeficiente de inteligência em diversos estados como: Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Dentro deste debate, se inserem as publicações de Alves sobre os testes e sua proposta de utilizá-los como ferramenta de seleção e organização escolar.
Somado aos recortes, era possível encontrar indicações de leitura sobre o assunto através das anotações e citações de Alves. Além disso, havia a possibilidade de acompanhar sua trajetória através da documentação presente no arquivo. Estudar a relação do titular com o trabalho desenvolvido sobre os testes pareceu, portanto, um caminho para discutir a relação entre intelectuais e educação durante os anos de 1930.
Considerações finais
Ao rememorar os tempos de organização do arquivo Gustavo Capanema, Bomeny e Costa (2009: 74) nos lembram que “os arquivos guardam as propostas vencedoras e também as que se perderam pela (ou na) história.” A defesa de uma implantação em larga escala da ideia de classificar e organizar alunos a partir de seu quoeficiente de inteligência (QI) pode ser classificada como uma das propostas vencidas ao longo da história. Em contrapartida, explorar essa proposta, se apresenta como um ponto de partida para compreender dimensões mais amplas do pensamento educacional deste período.
Ler Alves em seu arquivo pessoal ajuda a pensá-lo em uma perspectiva mais ampla, em que seu esforço foi perpassado por relações sociais que lhe ajudaram a concretizar seus projetos. Assim, podemos entender que, ao mesmo tempo em que a criação de uma Faculdade de Filosofia fosse parte de suas aspirações pessoais, esta respondia à uma tendência nacional onde outras Faculdades de Filosofia e Letras eram criadas neste mesmo período.
A experiência na organização de um arquivo pessoal foi essencial para compreender o que nos alerta Giovani Levi (2001) sobre os “Usos da biografia”. A reflexão sobre seu arquivo, enquanto objeto de pesquisa, tem se mostrado importante para evitar “modelos que associam uma cronologia ordenada, uma personalidade coerente e estável, ações sem inércia e decisões sem incertezas.” (LEVI, 2001: 169). Dessa forma, por mais que o indivíduo possa, em uma retrospectiva, entender sua vida com base em um tempo referencial, que no caso de Alves parece ter sido a fundação da Faculdade de Filosofia da Bahia, o contato com uma documentação extensa e variada tem nos mostrado como os caminhos tomados por Alves não seguiram uma ordem tão coerente quanto pode parecer à primeira vista ou como a documentação organizada sugere.
Já é lugar comum afirmar que o próprio historiador é em si, produtor dos documentos no momento em que os seleciona. A consequência dessa afirmação é encarar que “toda fonte é uma fonte ‘inventada’, assim como todo ‘indivíduo histórico’, no sentido em que falava Max Weber, é uma construção, um tipo ideal” (ROUSSO, 1996: 88). Assim, é parte do trabalho do historiador refletir sobre as instâncias de produção na qual ele se encontra diretamente envolvido. A intenção deste trabalho não foi, necessariamente, contestar o protagonismo de Isaías Alves na fundação da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Bahia, mas refletir sobre a memória construída em torno desse acontecimento. Este esforço parece necessário para situar o trabalho que venho desenvolvendo sobre Isaías Alves através de seu arquivo pessoal.
Notas:
* Mestranda do programa de pós-graduação em história, política e bens culturais do CPDOC/FGV e bolsista Faperj. anasmrocha@yahoo.com.br
Anísio Teixeira foi um dos principais expoentes do movimento educacional conhecido com Escola Nova. Baiano, nascido em Caetité e filho de um dos chefes políticos do sertão, o médico Diocleciano Pires Teixeira. Formou-se em direito e dedicou sua vida às causas educacionais. Como diretor de instrução, foi responsável por reformas no ensino da Bahia (1927) e do Rio de Janeiro (1931). Dentre outras realizações, podemos apontar a fundação da Universidade do Distrito Federal (1935), incorporada posteriormente à Universidade do Brasil.
“O primeiro a receber a Medalha Universitária”. A Tarde, 01/09/1958. APIA: Série Jornais, Subsérie Avulsos.
“Isaías Alves, um renovador da educação”. A Tarde, 28/08/1979. APIA: Série Jornais, Subsérie Avulsos.
Transcrição do artigo “Idéia Nobre” publicado no jornal O Palladio em 09/01/1907. Arquivo Pessoal de Isaías Alves (doravante APIA).
Atualmente, Tannous ampliou o tema de sua pesquisa e analisa a imprensa baianana conjuntura do governo presidencialista de João Goulart.
André Rebouças nasceu em Cachoeira, no recôncavo baiano, em 1938. Em 1846 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se tornou engenheiro militar. Rebouças foi militante da causa abolicionista junto com Joaquim Nabuco, com quem trocava correspondências. Monarquista e amigo de Pedro II, exilou-se em Portugal após a proclamação da independência.
Theodoro Sampaio nasceu em 1855 na Bahia, no município que hoje tem o seu nome, Formou-se em engenharia em 1877 e foi desenhista do Museu Nacional. Foi também um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 1894, e membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.
APIA: Série documentos familiares, Subsérie correspondências familiares. Data: 30/08/1921 (grifos do autor)
O livro foi encontrado na biblioteca da Fundação Clemente Mariani pela bibliotecária Graça, a quem agradeço por ter me informado da existência desta carta.
Organograma da Secretaria de Educação e Saúde. Notação: 3952-57 Fundo: Secretaria de Educação. Seção: Republicano. Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB)
“Ação Integralista Brasileira- Secretaria Provincial de Arregimentação feminina – Conf. do Prof Isaías Alves.” In: O Imparcial, 30/11/1937. APIA, Série Jornais, Subsérie Avulsos.
Alfred Binet teve um importante papel para a psicologia experimental. Foi diretor do laboratório de Psicologia da Sorbonne e fundador da revista L’Année Psychologique. Desenvolveu sua escala métrica de inteligência a pedido do governo francês com a ajuda de outro psicólogo: Theodore Simon. Seus estudos serviram de base para os testes de QI desenvolvidos posteriormente. Sobre a experiência de Binet ver: GOULD, Stephen Jay. The mismeasure of man. New York, Norton, 1993.
Lewis Terman desenvolveu, em 1916, na Universidade de Stanford, uma adaptação da escala de Binet que ficou conhecida como Stanford-Binet. Sua adaptação foi utilizada na maior parte das escolas americanas e a publicação de seu primeiro livro sobre o assunto,The measurement of intelligence, influenciou os psicólogos e educadores brasileiros nos anos de 1920 e 1930.
Edward Thorndike, psicólogo norte-americano, foi professor do Teacher’s College e um dos pioneiros na psicologia educacional norte-americana. Dirigiu a Divisão de Psicologia educacional da Universidade e trabalhou com o governo dos EUA durante a I Guerra Mundial selecionando oficiais do exército. Sobre ele ver: WARDE, Mirian Jorge. “Estudantes Brasileiros no Teacher’s College da Universidade de Columbia: do aprendizado da comparação.”. Disponível em: http://www.sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe2/pdfs/Tema1/0114.pdf acessado em: 07/01/2010.
MEDEIROS e Albuquerque, J. Test. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1924. O autor foi professor, jornalista e Secretário de Educação no Distrito Federal na virada do século XIX para o XIX.
Fontes:
Jornais:
A Tarde, 01/09/1958.
A Tarde, 28/08/1979.
O Imparcial, 30/11/1937.
O Imparcial. 15/11/1942.
Folha do Norte (Belém). 21/01/1930.
Arquivo da Academia de letras da Bahia:
Pasta sobre Isaías Alves.
Arquivo Pessoal de Isaías Alves:
Série documentos familiares, Subsérie correspondências familiares
Arquivo Público do Estado da Bahia
Seção: Republicano. Fundo: Secretaria de Educação. Notação: 3952-57
Arquivo Nacional:
Fundo da casa da presidência da república, código 35, seção SDE, lata 461.
Referências:
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____________. Teste Individual de inteligência. 3ª ed. (rev. e aum.) Rio de Janeiro, Typ. d’A Encadernadora, 1932.
____________. Matas do Sertão de Baixo.Rio de Janeiro, Reper, 1967.
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