Data da entrevista: 9 de setembro de 2012

CPDOC: Em sua trajetória como cineasta, você realizou diversos filmes sobre a História do Brasil, abordando eventos importantes como a Guerra do Paraguai, a Revolução de 1930 e o Brasil na Segunda Guerra. Como surgiu seu interesse sobre o assunto?
SYLVIO BACK: Talvez eu seja, com este docudrama (mix docs & fics) - "O Contestado – Restos Mortais" -, o primeiro cineasta brasileiro a fazer um novo filme sobre o mesmo tema, com pegada paradocumental, e não ficção pura como em "A Guerra dos Pelados" (1971), desfazendo, assim, equívocos pessoais, alumiando insights históricos, sociológicos e antropológicos sobre e em torno da Guerra do Contestado. Porque ambos, filme e autor, mudamos ideologicamente a ponto de não nos reconhecermos! Isso me parece é o mais fascinante nesta criação de uma narrativa libertária e iconoclasta que mexe com a história sem procurar atropelá-la nem lhe impor constrangimentos político-ideológicos como é flagrante em “A Guerra dos Pelados”. A partir dos anos ’70, com “Aleluia, Gretchen” (1976), nunca mais a dúvida deixou de me assolar e à minha obra. Doravante, passei a assinar um cinema moral.
Tanto é que nesse documentário, confrontado às próprias convicções e certezas de outrora (dos anos ’60 do século findo), busquei construir um discurso cinemático onde, magicamente, vou ao interior de uma história marginalizada que o Brasil precisa homenagear com as merecidas exéquias morais. E isso só foi possível sobrevoando e dando voos rasantes, não apenas, literalmente, de helicóptero, sobre os principais redutos da resistência cabocla no centro oeste de Santa Catarina (Taquaruçu, Caraguatá, Calmon, Matos Costa (ex-São João dos Pobres), Perdizinhas, Santa Maria, etc.), mas arriscando entender a história pelo que dela apenas restam sombras, escombros, esquivas vozes e lembranças de um memorial baço e evanescente.
No entanto, trata-se de um arcabouço mítico absolutamente vivo no éter e inapreensível a olho e ouvidos nus. Quando no início de 2004 retomei o tema e retornei à área do Contestado, industriado por uma vasta biblioteca de “clássicos”, conhecida dos tempos da pesquisa para filmar “A Guerra dos Pelados”, agora acrescida de novos e inovadores títulos, tudo veio à tona como um cadáver perdido no mar, um sentimento estranho e horrível que já vinha me perturbando nos últimos anos.
Apesar de inúmeros estudos acadêmicos recentes, profundos e muitos eivados de originalidade, inclusive, nos Estados Unidos (o brasilianista, Todd Diacon, é um dos mais lúcidos depoimentos do filme), a Guerra do Contestado está se tornando invisível, seus personagens mortos e o imaginário esmaecendo. Persiste algo como que um sudário de compromissos, velados horror e culpa não expiada, mas que, felizmente, toda uma plêiade de estudiosos vem investindo para reverter e desvelar o inexplicável silêncio e obscuridade histórica que ainda cercam o evento. Quem sabe, com esse pródigo manancial, e as intensas e extensivas exibições de “O Contestado – Restos Mortais” neste ano de 2012, coincidindo com as comemorações do centenário do Contestado, se constituam na senha para o seu definitivo resgate em todas as áreas de conhecimento do país.
CPDOC:Seu segundo e premiado filme A Guerra dos Pelados (1971) trouxe para o cinema um dos conflitos sociais mais violentos acontecidos no Brasil - a guerra do Contestado (1912-1916). O longa-metragem é o primeiro e único filme de ficção sobre o assunto. Desde o lançamento você nunca mais abandonou o tema, que abordou em livros, textos jornalísticos e entrevistas, reclamando mais atenção ao conflito nos meios acadêmicos. Conte-nos um pouco sobre sua relação com o Contestado.
SYLVIO BACK: Nesses quarenta e dois anos que separam as filmagens de "A Guerra dos Pelados", a ideia de “refazer” o Contestado, ocorrida em 2004, sempre me conflagrou moralmente uma sensação de "lesa pátria", não apenas como catarinense e brasileiro. Mas, por ser um cineasta cuja obra é seduzida pela ânsia de reverter falácias, mitos, tabus e o esquecimento da história oficial, vejo quão submersos, ignorados, omitidos, distorcidos e minimizados continuam os acontecimentos dessa verdadeira guerra civil no interior do Paraná e de Santa Catarina.
Assim, volto ao tema neste “O Contestado – Restos Mortais”, cujo título está longe de ser casual, movido pelo tipo de desafio que procuro responder em minha obra de docs & fics, e por onde trafego livremente. Há, sim, nesse filme, um quê de exumação histórica e de autópsia das contradições acadêmicas que vêm pontuando o evento. Se o Brasil é frequentemente privado de explicações holísticas, a começar por esse seu drama fundador, a questão da terra, que remonta ao Descobrimento, portanto, são quinhentos e doze anos, o Contestado atende a inúmeras perguntas que perturbaram a própria instabilidade democrática em nosso país ao longo do século XX.
O desafio reside aí, a Guerra do Contestado, revisitada visualmente hoje e através de inédita iconografia, tem sua invisibilidade capturada pelo insólito recurso do transe mediúnico, mimetizada pelos herdeiros do conflito e otimizada pelo debate com especialistas. Trata-se, enfim, de tornar conhecida toda a sua extensão e transcendência para a compreensão desses contornos anímicos do Brasil, ainda nebulosos, quando não, sepultos sob o manto do medo e da hipocrisia. Se meu filme “O Contestado – Restos Mortais” tem alguma ambição é a de contribuir para, com a nova produção acadêmica e mediática, retirar o Contestado desse território estrangeiro a que foi relegado pela historiografia brasileira nos últimas décadas.
CPDOC: Em A Guerra dos pelados o viés da resistência é muito forte. Como o filme foi lançado em 1971, em plena ditadura militar, gostaríamos de saber como foi a relação com a censura na época.
SYLVIO BACK: Apesar do enfoque romântico e até de certo maniqueísmo político-ideológico de “A Guerra dos Pelados”, que chega a lhe comprometer o desenho épico, mesmo assim era um filme intimorato que vinha na contramão do cinema brasileiro de então. E isso no auge da repressão militar da ditadura Médici (1969-1974). Era um filme carregado de premonição, repleto de fantasmas socioeconômicos da nacionalidade, batendo direto no fulcro do nosso passado onde se vislumbram as origens da miséria brasileira – a crônica e viciosa a questão da terra.
Sob a capa de um catolicismo rupestre, cimento que mantinha unos milhares de caboclos, a posse e a usurpação da terra não se escamoteavam. E por ela se sacrificaram mulheres, crianças e homens de todas as idades, latitudes, categorias sociais e etnias, como, também, tiveram que se submeter a uma implacável disciplina litúrgica dentro de suas cidadelas “santas”, o que acabava por fanatizá-los. Quem planta e trabalha a gleba (“A terra é como a mãe, depois que se perde, o valor aparece”), dela é simbolicamente seu titular. Mote atraente para quem era expulso de seu chão à força com a chegada de empresas estrangeiras e a implantação do capitalismo na região. A sabedoria bebida junto aos índios, que sempre vivenciaram o que é ter seu horizonte surrupiado e o azimute de seus mortos espalhado aos sete ventos, tinha seu custo.
Mesmo para quem jamais tenha lido “Geração do Deserto”, de Guido Wilmar Sassi, livro que inspirou o roteiro do filme, ao incorporar o visual e o testemunho da região contestada sessenta anos depois, “A Guerra dos Pelados” acabou extrapolando a ficção e “inventou” uma nova “guerra camponesa”. Começando por adiantar uns e atrasar outros acontecimentos, situa a ação em 1913 e 1914 no “reduto” de Taquaruçu.
Sem nenhuma coincidência, a produção do filme localizou-se em alguns dos sítios históricos do Contestado nos municípios de Caçador, Calmon e Matos Costa, em pleno planalto catarinense. Portanto em cima de antigos e reformados latifúndios e espaços de grilagem, herdeiros de um passado então crepitante.
Procurando passar ao largo de situações cronológicas ditadas pela obra de Sassi e atendo-se mais ao “clima” e ao “memorial resistente”, o filme sublinhava a força motriz subterrânea do movimento insurrecional, a da luta pelo direito à terra. Era o que os “pelados” propunham, ora de forma política clara e inelutável, ora ficava subentendido no próprio misticismo que escorava a reação de quatro anos enfrentando canhões Krupp com espadas de madeira.
Houve uma guerra encenada à frente das câmaras, e uma guerra à vera atrás das câmaras. Antes e durante as filmagens de dois meses, em pleno inverno de 1970, vingou tamanha bateria de incidentes que a meio caminho do fim eu estava decidido a parar e desembarcar de um sonho de muitos anos. Nem sei mais como resisti, contornei ou enfrentei a tudo e a todos, dentro e fora do filme.
Ainda na fase de pré-produção, isto é, enquanto se armavam a infraestrutura e as condições materiais que iriam sustentar a visibilidade das cenas imaginadas e escritas, fui intempestivamente intimado a submeter o roteiro à censura da 5ª Região Militar, sediada em Curitiba. Depois de dias de espera, o Exército exarou um estranho nihil obstat “verbal” endereçado não a mim ou à produção do filme, mas à Policia Federal, então dirigida por um oficial das Forças Armadas.
A evidente manobra era então para eximir o Exército de um eventual vexame caso o constrangimento ilegal viesse a público (pela Constituição então vigente, um filme só era submetido à censura depois de pronto, mas ditadura é ditadura...). Tudo sem rastros. Na Polícia Federal fui “mimoseado” com perguntas e insinuações as mais esdrúxulas. Havia até uma que, digamos, fazia certo sentido: a dois meses do AI-5 (1968) – beneficiado por um habeas corpus –, eu fora excluído de um Inquérito Policial Militar que apurava “delito de opinião” entre uma trintena de jornalistas paranaenses dedurados por seus colegas de redação. O coronel-censor insistia que eu dissesse que inconfessáveis motivos me haviam levado a “mexer neste vespeiro, que é o Contestado, logo agora” (sic).
Era esse o pedágio que eu estava pagando pelo auxílio logístico (imprescindível), que só existia numa guarnição militar, então solicitado às Forças Armadas. Só era factível encenar o que previa o roteiro tendo à disposição munição de festim, armamento (fuzis e canhões da época ainda funcionando) e cobertura profissional de sargentos-armeiros para prover a manutenção e guarda de todo um razoável arsenal de campanha. A princípio houve sinal verde (sem trocadilho...), o que me soou como uma régia retribuição por ter-me “curvado” ante a estúpida censura prévia. Ela, na verdade e na prática não produziu sequela alguma - porque o coronel-censor candidamente admitiu sua incapacidade para “ler” o roteiro, deixando-o tal e qual.
Quando já me encontrava com uma equipe paulista e um elenco nacional em Caçador, no vale do rio do Peixe, a mais de 300 quilômetros da Capital paranaense (700, de São Paulo), pronto para o primeiro tour de manivele, veio uma comunicação seca e peremptória de que tudo o que fora apalavrado era letra morta. Não demorou, atitude idêntica tomou a Polícia Militar de Santa Catarina, que iria colocar à nossa disposição parte de contingente local como extras fazendo o “papel” das tropas do Governo.
Ainda, numa caravana suicida, dirigimo-nos todos, atores e técnicos, para Curitiba, na doce ilusão de conseguir demover o general-comandante de sua inesperada decisão, ele que, pessoalmente, autorizara a cessão do equipamento bélico solicitado. Nem fomos recebidos, que dirá alvo de justificativas ou explicações.
Mas logo soubemos que a negativa albergava duas vertentes plausíveis que acabaram confluindo: 1) o Exército temia pelos rumos que o roteiro, apesar de “censurado” (teoricamente), poderia tomar quando as cenas fossem materializadas em celuloide; e 2) o país entrara em estado de prontidão porque as Forças Armadas haviam detectado a guerrilha do capitão Lamarca na região de Registro, à beira da rodovia BR-116 (que liga São Paulo a Curitiba e ao Sul) .
E nós que queríamos apenas fazer um filme... Um filme com tiros e morteiros que de uma hora para outra ficara “belicamente” inerme. Não tínhamos uma arma sequer, muito menos canhões (tão-somente uma metralhadora de museu, autêntica de 1910, “inadvertidamente” emprestada pela PM do Paraná, muito cinematográfica, por sinal...).
Foi uma operação inacreditável, essa de tocar o projeto a qualquer custo e sacrifício, o mesmo entusiasmo que congregara a todos no projeto de filmar um inaudito levante popular em plena castração ditatorial. Tema-tabu, seu mito estava acima de nós.
Aos poucos e com paciência, porém, um civil aqui e outro acolá emprestando Winchester e revólveres, a caboclada espontaneamente desovando dezenas de enrustidas carabinas e espingardas, armas brancas e munição, a produção de “A Guerra dos Pelados” pôde organizar seu “exército” regular. Felizmente já havíamos alugado as fardas do exército da época que o roteiro exigia, trazidas de São Paulo - espólio autêntico pertencente a um colecionador. Quanto à indumentária dos pelados, foi bem mais fácil: como os próprios sertanejos interpretavam a si mesmos, a roupa rota do presente acabava se confundindo à roupa rota dos seus antepassados. Não poucas vezes ouvi da caboclada me confessando que se sentia na pele de algum avô ou parente morto nos entreveros com “a força” (genérico para Polícia Militar e Exército). Um inescapável atavismo que as circunstâncias trouxeram à tona e puderam revelar à câmara rostos antológicos e atuações memoráveis. Portanto, nem tudo estava perdido.
Ponto de honra: faltavam apenas os canhões. Carpinteiros contratados em uma semana fabricaram quatro exemplares de madeira (com rodado de carroça) - cópias fiéis de congêneres utilizados em combate conforme iconografia de 1914 à mão. Para fazê-los “funcionar” atulhava-se sua boca de bosta de gado ou cavalo, adicionava-se talco industrial e pólvora, e através da faísca de uma espoleta, provocava-se formidável explosão que lançava excremento (e seu respectivo “perfume”...) e imitação de fumaça pelos ares. Na fase de sonorização do filme, acoplamos o som de canhões da Guerra da Secessão americana e os nossos soavam melhor (...) do que se os canhões fossem os próprios, originais do Contestado. Os fotogramas do filme são indesmentíveis.
Para os alvos acertados, mais de cem quilos de dinamite substituíram os efeitos da detonação das balas que só existiam na trilha sonora. Um oportuno lance da imaginação para um filme que parece uma superprodução, e que em 1970 custou apenas 450 mil cruzeiros (orçamento médio para filme brasileiro de então; hoje não seria factível por menos de US$3 milhões).
Quando pensamos que “exibindo” defronte às câmaras o nosso “Exército Brancaleone” catarina (alcunha inventada para o natural de Santa Catarina pelos vizinhos paranaenses e gaúchos), as agruras diminuiriam – o clima das filmagens era gravado quase diariamente por denúncias de militares à paisana infiltrados entre as centenas de anônimos figurantes – à procura de informações. A delegacia de polícia de Caçador ameaçava fichar todos os extras, atores e nossa equipe, como “comunista”, logo após um jornal local, em tom de “falsa” brincadeira (na verdade, fora uma alcaguetagem cifrada), ter anunciado em manchete (reproduzida pela rádio da cidade) que produtores de cinema, sob o pretexto de estarem filmando, acobertavam treino de guerra de guerrilha. Dentre as dezenas de explosões imitando queda de balas de canhão, uma – ocorrida na travessia de um riacho –, ferindo dois atores, alimentou as suspeitas.
No mesmo diapasão de baixo astral, e pela total ausência de militares especialistas, a improvisação de emboscadas, escaramuças e nas lutas corpo-a-corpo, características de uma guerra de guerrilhas como foi o Contestado, sempre deixava enorme rescaldo de involuntários feridos e ofendidos. E todos acabavam baixando no hospital de emergência para as dores do nosso infortúnio...
A “guerra” fora do alcance da objetiva não raro competiu com a de “mentirinha” à frente das câmaras. Mas, uma vez findas as filmagens, todos festejamos a “vitória”, pois o filme estava na lata! – como se diz no jargão do cinema, o que significa que os maiores riscos ficaram para trás. Assim transcorreram aqueles terríveis, porém, inesquecíveis, cem dias entre preparação e rodagem propriamente dita de “A Guerra dos Pelados”. E sua travessia só foi possível graças à obsessão e ao destemor que mobilizaram desde o anônimo figurante à enorme equipe técnica e às dezenas de atores. Nos momentos de maior cerco institucional, cujos reflexos eram imediatamente sentidos na hora de dar visibilidade ao imaginado, todos os meus colaboradores, próximos ou distantes, entenderam que, ao resgatar um episódio maldito da história do Brasil, o preço seria alto. Ninguém desertou...
E não foi por acaso que a censura da ditadura Médici soube com argúcia acertar exatamente os diálogos com a cena em que aparece a palavra-chave “terra”, como sinônimo para os rebeldes, de propriedade, liberdade e poder. Por causa disso, em 1971, às vésperas de sua estreia nacional, o filme pernoitou em Brasília por mais de seis meses: os censores se dividiam entre proibi-lo pura e simplesmente ou liberá-lo com cortes. Esses argumentavam que, afinal, “uma andorinha (leia-se, o filme) não faz verão” (leia-se, algum tipo de surdo agito). Que o longa-metragem apenas sofresse cortes lapidares. E pronto!
Impotentes, ficamos em São Paulo – os coprodutores, Antonio Polo Galante e Alfredo Palácios, e eu, que também produzia o filme através de financiamento bancário – com nostalgia de quando a censura era exercida pela polícia e alguns “bons” cruzeiros resolviam impasses de ordem política e moral... Agora todo cuidado era pouco.
A partir da década de 1970 a censura passou (como, aliás, continuou até o final da ditadura, inclusive fortalecida, basta ver os atentados contra o filme “Je Vous Salue Marie”, de Jean-Luc Godard e a música, “Merda”, de Caetano Veloso) às mãos de “gente letrada”. Eram intelectuais ou que tais, militares, leigos e religiosos, supostos especialistas em Marx, Lênin, Mao, Fidel, “Teologia da Libertação”, mass media, isto é, em teorias, modelos e técnicas de “evangelização” das chamadas “ditaduras de esquerda”. O ideário fascista do almirante Penna Boto e do Papa Pio XII ainda nem havia desencarnado e já mudara de lado...
Depois de um silêncio atroz, só quebrado por notícias oficiosas, aliás, as mais lúgubres, fomos ansiosos ler o verso do certificado de censura. Eram três cortes cirúrgicos na imagem e no som: o primeiro mandando extirpar cena em que um “coronel” surra na bunda desnuda dois “pelados” com vara de marmelo (enquadração que, por sua aura esteticamente simbólica, acabou impondo o mote visual do cartaz do filme, de autoria do premiado arquiteto e designer catarinense, Manoel Coelho).
No segundo e terceiro cortes, ali sim, flagra-se uma leitura político-ideológica direta na jugular das intenções, atenções e pretensões de “A Guerra dos Pelados”. Eram impostas a ablação de cenas-chaves em que os fanáticos, sob o comando do seu líder, Adeodato, invadem a serraria da Southern Lumber and Colonization Company: em meio à destruição do escritório, e enquanto os demais rebeldes destroem o local, Vitorino (Zózimo Bulbul) descobre documentos que podem ser títulos de propriedade ou contratos de compra-e-venda de madeira, e começa a gritar (rasgando-os um a um): “Chega de pobreza! Chega de pobreza! Fora co's gringo! A terra é nossa! A terra é nossa! Vingança!” Sem comentários.
CPDOC: Em seu penúltimo filme O Contestado – Restos Mortais (2010) você voltou a abordar o tema, desta vez a partir de fontes pouco tradicionais, que foram os testemunhos de médiuns. Conte-nos sobre essa experiência.
SYLVIO BACK: A inclusão do relato mediúnico como fio condutor do filme pegou de surpresa espectadores e críticos quando da exibição de “O Contestado – Restos Mortais” na competição dos festivais "É Tudo Verdade" e em Gramado. Houve quem, equivocadamente, até elogiasse a minha direção de atores durante os debates por não acreditar que aquela trintena de médiuns explodindo em falas insólitas, choros, risos, apelos, gritos e sussurros, era um elemento de linguagem. Ao invés de uma encenação teatral, era uma incursão, digamos, à "invisibilidade" do Contestado, ele mesmo, inoculado pelas mais insondáveis correntes místicas e míticas.
Houve, também, quem ridicularizasse o recurso, talvez, por desconhecer minha filmografia, toda ela na contramão do discurso cinematográfico, majoritariamente, anódino e conservador, ora em cartaz (documentários de corte "chapa branca", que repicam o vezo do Estado ou de ideologias políticas; hagiográficos e/ou turísticos), onde jamais dublei um estilo narrativo, mas cujo objetivo sempre foi deixar o espectador desarvorado, sem saber se deveria ou não acreditar no que vê e ouve. Como teve crítico que deu crédito ao inaudito recurso pontuado por "vozes do além" que trazem à tona uma "outra" verdade nunca antes arvorada sobre a Guerra do Contestado.
E, pela constatação de que eu, com essa operação cinemática, levar ao espectador a própria polêmica se a mediunidade colocada sob suspeita por alguns depoimentos, como encará-la, como aceitá-la hoje dentro de um filme que se quer "histórico"? Por não ser "espírita", nem adepto de qualquer credo religioso, mas por respeitar e admirar a imponderabilidade e o mistério que corpo, espírito e alma mutuamente se conjuram, é que promovi em "O Contestado - Restos Mortais" um amálgama de cinema, depoimentos e testemunhos, iconografia fixa e em movimento, história e mitologia, fatos & atos, tênues de veracidade e verossimilhança.
Todo esse aparato audiovisual, de aparente difícil absorção mental, imbricado ao inconsciente coletivo que continua a fervilhar na região, se aplica para tentar desvendar um Contestado até hoje ainda insepulto, inacessível, inconcluso! O espectador é sempre mais esperto e rápido do que o filme e o diretor juntos, já que o olho é mais rápido do que o pensamento. Portanto, a inserção do relato dos médiuns no miolo do filme, e que perturba e conturba seu fluxo, serve justamente para borrar as fronteiras draconianas entre documentário e ficção. Afinal, qual a diferença entre ambos: uma vez o real filmado torna-se depositário infiel do pretérito, ou seja, uma ficção sempre mediatizada pela imponderabilidade da memória. Cada um apropria e introjeta seu complexo sentido como achar melhor, acreditando, endossando, edulcorando, contraditando ou desconfiando. Eu faço um cinema que desconfia!
Depois, o projeto nunca foi fazer um documentário tal qual (não sou um documentarista lato senso) sobre a Guerra do Contestado, daí os clipes com imagens de arquivo (fotos & filmes), por exemplo, raras vezes surgirem para sublinhar depoimentos e entrevistas, o que seria empobrecê-las, desacreditar nas minhas próprias imagens e na capacidade de “viajar” do espectador. Ao contrário, por serem todas flagrantes oficiais, feitos de encomenda, a própria "história oficial" funciona como uma espécie de contraponto ”heroico” do que sobrevive da realidade trágica na cabeça das pessoas um século depois. Essa autonomia do acervo, premeditadamente procurada, e colocada sob suspeita pelas recordações afetivas e pela história, é uma das claves que emprestam a amperagem polêmica do filme e que melhor lhe definem o torque revisionista do tema face às minhas convicções como homem e artista.
CPDOC: Ao longo de anos você tem reclamado sobre a pouca atenção dada ao conflito nos meios acadêmicos, nos manuais escolares, nos meios jornalísticos e no interesse da população em geral. Qual a sua opinião sobre o espaço que o conflito deixou na memória nacional? Você acredita que esse espaço esteja mudando?
SYLVIO BACK: Sim, regionalmente dá para conferir que a Guerra do Contestado já adquiriu maior visibilidade na mídia e no universo acadêmico. No livro didático e junto à população não se constata o mesmo. O conhecimento, de um modo geral, circunscreve-se mais a Santa Catarina e ao Paraná, enfim, os dois estados (à época, províncias) em disputa jurídica e institucional desde o final do século XIX, nos estertores da Monarquia, antes do desenlace bélico em 1912. Tanto no Rio Grande do Sul, estado vizinho de Santa Catarina e que, indiretamente, pelo traçado da estrada de ferro, a Brazil Railway Company, que rachava ao meio, de norte a sul, o território em disputa, esteve na iminência de se envolver no conflito, quanto no eixo Rio São Paulo, o Contestado continua no limbo da divulgação, reflexão e discussão na imprensa e na universidade.
Venho acompanhando a produção acadêmica, literária, teatral e poética sobre o Contestado, desde o início dos anos '60 do século findo quando li pela primeira vez o romance "Geração do Deserto", do escritor e contista catarinense Guido Wilmar Sassi (1915-2003), natural de Lages, um dos epicentros do Contestado, e publicado em 1964 pela Editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro. Cinco anos depois, já com os direitos autorais adquiridos, em parceria com o jornalista gaúcho, Oscar Milton Volpini, militando na imprensa paranaense, escrevemos a adaptação cinematográfica do instigante livro de Sassi. Entre 1969 e 1971 foi pesquisado e realizado no próprio teatro de operações do evento e lançado nacionalmente o filme, "A Guerra dos Pelados", naquele mesmo ano selecionado como representante oficial do Brasil ao Festival de Cinema de Berlim.
Em 1963, com o selo da Livraria Martins Editora (SP), veio a lume o poético romance "Casa Verde", do paranaense Noel Nascimento, certamente, a primeira abordagem, digamos, paraficcional do Contestado. Ao contrário de Sassi, que prioriza a ficção na sua expressão mais límpida, chegando a armar uma estrutura episódica e uma trama quase hollywoodianas (que procurei desmontar nos diálogos e na formatação final do roteiro de filmagem), Nascimento fixa-se em referências biográficas e históricas antes de dar asas à imaginação. Aliás, essa pegada telúrica do livro de Nascimento nos influenciou fortemente durante a escritura do roteiro de "A Guerra dos Pelados".
Ainda no quesito ficção, é preciso destacar o quase esquecido romance “Eles Não Acreditavam na Morte”, do paranaense Fredericindo Marés de Souza (1911-1968), concluído em 1958, mas só editado vinte anos depois pelo Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. O livro procura reproduzir a fala do sertanejo catarinense, como sua narrativa baseia-se em relatos colhidos junto a velhos combatentes do Contestado. A exemplo de “Casa Verde”, ele consegue articular história e estórias individuais e coletivas com especial encanto e habilidade literários.
É desse período a peça, misto de musical, teatro brechtiano e panfleto político, “O Contestado”, do catarinense Romário Borelli, historiador, musicista e dramaturgo, pioneiramente levada ao palco na Universidade de São Paulo em 1974. Pelo tom engajado das situações e diálogos, muitas vezes as sessões foram assediadas pela censura. Inspirado nos espetáculos do Teatro de Arena (onde Borelli autuou como músico) e do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, só a partir de 1979 a peça ganhou uma grande encenação em Curitiba (PR). Desde então, “O Contestado” já teve dezenas de encenações nas capitais e no interior de Santa Catarina e de Paraná.
No mesmo diapasão heroico, surgem dois poemas épicos longos, da carioca, Stella Leonardos, “Romanceiro do Contestado” (Editora Pontes, SP, 1996) e outro, da matogrossense do sul, Raquel Naveira, intitulado “Caraguatá” (Editora do Autor, RJ, 1996), cujo título se refere à segunda grande “cidadela santa” ocupada pelos crentes de “são” José Maria em 1914.
A moderna preocupação acadêmica com a Guerra do Contestado nasceu com a brilhante e consistente tese, La guerre sainte au Brésil: le mouvement messianique du "Contestado", da paulista Maria Isaura Pereira de Queiroz, defendida na França e publicada entre nós pela Universidade de São Paulo em 1957, só depois, em português, com o título “O messianismo – no Brasil e no mundo” (Dominus Editora, SP, 1965). Nela, a autora se remonta a outros levantes milenaristas do mundo para explicar o surto do centro oeste de Santa Catarina, praticamente ignorado e esquecido.
No Brasil, no entanto, coube a Oswaldo Rodrigues Cabral (1903-1978), historiador catarinense, com o belo livro, "João Maria, Interpretação da Campanha do Contestado" (Companhia Editora Nacional, SP, 1960), a primazia de se debruçar criticamente sobre as matrizes religiosas da guerra. Para tanto, como era apaixonado por “Os Sertões” (1902), a organização de sua obra nos remete ao autor, Euclides da Cunha (1866-1909), sem, contudo, perder em originalidade e profundidade na sua exegese da religiosidade que impulsionava o movimento rebelde.
Contrastando com o memorial afetivo, o inconsciente coletivo ainda sobrevivente na região e, principalmente, com uma nem sempre pertinente postura desideologizada, grande parte da historiografia (e da recente ficção) sobre o Contestado é sensivelmente chamuscada por um ideário que lhe é muitas vezes estranho. Ora vem balizada por românticas teses sociológicas e interpretações utópicas, ora por arroubos anti-imperialistas e separatistas, inclusive, xenófobos e de cunho racista. Isso, sem falar de inúmeras conclusões ancoradas numa discutível similitude ideológica com a Guerra de Canudos (1896-1897). Um repertório de ralas e rasas aproximações isentas de parti pris que contemplem com a mesma densidade o âmago messiânico, religioso, geopolítico, socioeconômico e, também, a complexidade ética e etnoantropológica da regionalidade e vocação autóctones da Guerra do Contestado.
Nas últimas cinco décadas, com a publicação do ciclópico estudo (com inédita pesquisa in loco), e de sua grande repercussão na imprensa, “Messianismo e Conflito Social” (Civilização Brasileira, RJ, 1966), de Maurício Vinhas de Queiroz, que veio na esteira de "Geração do Deserto”, o tema ameaçou entrar em voga. Aliás, três anos antes, pela mesma casa editora, Rui Facó publicou “Cangaceiros e Fanáticos”, também, fartamente comentado e adotado na academia. Facó, enxergando os revoltosos do Contestado a partir de um enfoque marxista, recebem o mesmo relevo libertário que Canudos e Juazeiro (1914), sedição liderada pelo padre Cícero Romão Batista (1844-1934), no Ceará. Rebelião essa que, pura ironia, acabou debelada pelo futuro comandante do exército no Contestado, general Setembrino de Carvalho. O livro deitou profundas raízes nas próprias conclusões de Vinhas de Queiroz e no pensamento da esquerda brasileira.
Sem nenhuma coincidência, os livros de Facó e Queiroz trazem o selo da mesma editora de Sassi (“Geração do Deserto”), dado o explícito alinhamento de seu editor, Ênio Silveira (1925-1996), à resistência ao golpe de 1964, e por essa coragem, inúmeras vezes preso. A reação dos militares ocorre, sintomaticamente, com as primeiras atividades guerrilheiras (no interior dos estados sulinos) contra a ditadura, que se agudizam dali em diante.
Em plena ditadura Médici, com a publicação do incensado à época, por identificar no Contestado sementes de uma sociedade igualitária, “Errantes do Novo Século”, do pernambucano Duglas Teixeira Monteiro (Duas Cidades, SP, 1974), o tema, novamente, ameaçou “existir”. No entanto, sem espraiar-se por muito tempo pela mídia, ainda que acarinhado e divulgado por boa parte da academia. O livro reinterpreta o caráter teológico da rebelião cabocla, chamada de “Guerra Santa”, aproximando-se de Vinhas de Queiroz e de Facó, ao compartilhar o empírico da investigação com teorias caras ao viés do vencido.
É forçoso reconhecer que nos últimos vinte e poucos anos, especialmente, em Santa Catarina e no Paraná (mais naquele do que nesse), tem crescido a produção de mestrados e doutorados, muitos editados em livros, como também, obras de ficção. Todos, na verdade, à procura de novas vertentes confessionais, geopolíticas, ideológicas, institucionais, místicas e mitológicas, sociais e demográficas que expliquem a complexidade do intrincado conflito.
Pesquisas acadêmicas e incursões ao universo imaginário, uns mais, outros menos, entretanto, ninguém deixou de beber na fonte dos cinco autores acima resenhados, cujas obras, hoje, reconhecidas como "clássicos", lançaram uma espécie de pedra fundamental sobre o Contestado: Maria Isaura Pereira de Queiroz, Oswaldo Rodrigues Cabral, Maurício Vinhas de Queiroz, Duglas Teixeira Monteiro e Rui Facó.
A propósito, seria uma injustiça histórica e moral, excluir desse inestimável elenco, alguns autores, civis e militares, testemunhas oculares dos acontecimentos que, mesmo comprometidos com a repressão e reféns dos preconceitos em voga, nos legaram obras lapidares que também serviram de fonte inaugural para todas as abordagens modernas do Contestado, indistintamente. Portanto, uma literatura obrigatória para compreendê-lo, engrossar ou descarnar e, até higienizá-lo, de tantos mitos e tabus.
A começar pelo relato do general Setembrino de Carvalho (1861-1947), comandante das tropas que enfrentaram e liquidaram a ferro e fogo, literalmente, o levante jagunço: “Relatório apresentado ao General de Divisão José Caetano de Faria, ministro da Guerra – 1915” (Imprensa Militar, RJ, 1916); e de dois outros militares, Herculano Teixeira d’Assumpção, “A campanha do Contestado (Operações da Coluna Sul) (Imprensa Oficial, MG, 1917); e Demerval Peixoto (pseudônimo de Crivelaro Marcial), “Campanha do Contestado – Episódios e impressões” (Biblioteca Militar, RJ, 1920), visões castrenses que, de certa maneira, se comunicam com depoimentos posteriores, também, atravessados de preconceitos: “Fr. Rogério Neuhaus”, de Frei Pedro Sinzig (Editora Vozes, RJ, 1934) e “Os fanáticos – crimes e aberrações da religiosidade dos nossos caboclos”, de Aujor Ávila da Luz (Edição do autor (?), SC, 1952).
Reiterando o já anunciado linhas atrás, dos anos '80 à frente, com mais periodicidade, o interesse reacendeu e amadureceu com a edição de uma extensa estante de livros e textos que, sem escamotear a influência dos “clássicos” e históricos citados, findam por reverenciá-los, quase sempre, acriticamente. O que se constata é que na mesma proporção em que as pesquisas históricas e interpretativas sobre o Contestado avançaram em todos os sentidos, sobrevém a ausência de um torque político-ideológico inovador, que os apartasse do discurso contestador de viés romântico, utópico e populista que coincidia com aquelas duas terríveis quadras de resistência à ditadura militar.
Esse repertório de criadores e suas criaturas, reconhecido trabalho de embasamento acadêmico, cada um à sua maneira e embocadura textual, sem ordem de valoração e/ou categoria profissional, é constituído, entre outros, por: Marli Auras (“Guerra do Contestado: A Organização da Irmandade Cabocla”, Editora da Universidade Federal de Santa Catarina – Cortez Editora e Assembleia Legislativa de Santa Catarina, 1984); Jean-Claude Bernadet e Valêncio Xavier (“Guerra Camponesa no Contestado”, a partir do roteiro inédito de "A Guerra dos Pelados", Global Editora, SP, 1979); Ruy Wachowicz (“O Comércio da Madeira e a Atuação da Brazil Railway no Sul do Brasil”, separata dos Anais do V Simpósio Nacional dos Professores Universitários de História, Campinas (SP), 1971); Paulo Ramos Derengoski (“O Desmoronamento do Mundo Jagunço”, Fundação Catarinense de Cultura, SC, 1986); Beneval de Oliveira (“Planaltos de Frio e de Lama”, Fundação Catarinense de Cultura, SC, 1985; ou Nilson Thomé (“Trem de Ferro: A Ferrovia no Contestado”, Imprensa Universal, (SC), 1980; e “Os Iluminados”, Editora Insular (SC), 1999).
Toda essa extensa e variada biblioteca, infelizmente, como o próprio longa-metragem “A Guerra dos Pelados” (1971), ainda que nos últimos trinta anos rotineiramente exibido em TVs aberta e/ou por assinatura, além de distribuído em vídeo/DVD, não tiveram a força para sedimentar, fixar e ampliar o trágico retrato e a importância histórica do Contestado nos livros didáticos, na academia e na mídia. Nem, o que me parece mais grave como esquecimento e ocultação do processo civilizatório (e, por que não? das barbáries perpetradas por ambos os litigantes) do sul do país, para inoculá-lo na corrente sanguínea dos debates sobre as revoltas populares que assombraram a frágil democracia brasileira durante a chamada “República Velha” (1899-1930).
A partir da década de noventa, precisamente, 1991, com a publicação nos Estados Unidos (Duke University Press/North Carolina) de Millenarian Vision, Capitalist Reality; Brazil’s Contestado Rebellion (1912-1916) , do brasilianista Todd Diacon (da Kent State University/Ohio); e no Brasil, de “Guerra do Contestado: o sonho do milênio igualitário” (Editora Unicamp, SP, 1999), de Ivone Cecília D’Ávila Gallo (professora da história da Unicamp/PUC/SP); e “Lideranças do Contestado” (Editora Unicamp, SP, 2004), do gaúcho, Paulo Pinheiro Machado (atualmente, professor de História da Universidade Federal de Santa Catarina), a exegese da Guerra do Contestado, ao tempo em que, também nela são homenageados os “clássicos”, extravasa novos meandros sobre as motivações religiosas, político-ideológicas e econômicas (como a chegada do capital estrangeiro e do capitalismo à região, cf. Todd Diacon) do movimento, robustece a sua incontornável importância histórica para a compreensão da questão da terra no Brasil no século XX.
Ademais, esses estudos tiveram a força de influenciar toda uma geração de pesquisadores dentro e fora da academia, hoje, muito atuantes em Santa Catarina e em outros estados, todos depoentes do filme “O Contestado – Restos Mortais”, como Delmir José Valentini (Universidade do Contestado – UNC/SC); Eloy Tonon (Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória (PR; Nilson Cesar Fraga (Universidade Federal do Paraná – UFPR); João Batista (JB) Ferreira dos Santos, jornalista (SC); Márcia Motta (Universidade Federal Fluminense – UFF/RJ); Alexandre Assis Tomporoski (Universidade Federal de Santa Catarina), Pedro Aleixo Felisbino, historiador (SC); Rogério Rosa Rodrigues (Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC); historiador e jornalista, Celso Martins da Silveira (SC); general Aureliano Pinto de Moura (Instituto Geográfico e Histórico Militar do Brasil – RJ; Márcia Janete Espig (Universidade Federal de Pelotas – UFPel (RS); e Fernando Tokarski (Universidade do Contestado – UNC/SC), esse historiador, por sinal, traz uma contribuição extremamente ousada na interpretação do Contestado.
Uma personalidade à margem, porém, sempre inserida no contexto acadêmico e que preserva há décadas a memória local do Contestado, é a do historiador, folclorista, compositor e músico, Vicente Telles, de Irani (SC), fundador do Museu do Contestado e de parque temático alusivo. Nessa localidade começou o conflito em 1912, no chamado “Combate do Irani”, onde morreram o monge José Maria e o coronel João Gualberto. Autor e intérprete de dezenas de músicas, livros publicados e vários CDs gravados, é uma obra de extrato poeticamente idílico, de imenso valor histórico e iconográfico.
Para finalizar, contemporâneas a esse feixe de exemplar corte acadêmico, descontadas as inúmeras entrevistas com sobreviventes e descendentes dos entreveros do Contestado, realizadas pessoalmente por Todd Diacon e Paulo Pinheiro Machado, muitas à conta de soarem mais como imaginário do que relato factual, surgiram duas obras de ficção que atualizaram em tom de fábula, o universo dramático do conflito: “O Bruxo do Contestado” (Editora Nova Fronteira, RJ, 1996), do catarinense, Godofredo de Oliveira Neto (com extensa carreira acadêmica na Universidade Federal do Rio de Janeiro); e “Império Caboclo” (UFSC/FCC; Editora Movimento, RS, 1994), do, também, catarinense, Donaldo Schüler, idem, com larga carreira acadêmica no Rio Grande do Sul), igualmente, conhecido por traduzir “Finnegans Wake”, de James Joyce.
Ambos os romances, por embaralharem estórias e história, mitologia e versões que matizam o Contestado, levam ao leitor a sensação de um passado que jamais deixou de ser um incômodo e acusador presente. Enquanto Schüler é pura inventiva de linguagem e encadeamento episódico, Godofredo Neto refaz a invisibilidade do conflito através de uma sólida e criativa trama, chegando a conjeturar que Lênin teria tomado conhecimento dos embates do planalto catarinense pelos movimentos operários de Buenos Aires. Mesmo que apartados em estilo, os autores, no entanto, revelam-se fiéis ao ideário que há décadas vem atravessando quase a totalidade da produção acadêmica e ficcional sobre e em torno do Contestado.
CPDOC: Como se trata de um assunto de interesse historiográfico, gostaríamos de saber que fontes você usou em sua pesquisa para a construção do roteiro.
SYLVIO BACK: Envolvido nos estudos e pesquisas sobre a Guerra do Contestado desde 1968/1969, ainda em plena campanha nacional de lançamento do meu primeiro longa-metragem, “Lance Maior” (1968), sou leitor assíduo e contumaz de praticamente toda a literatura acadêmica e ficcional que já se publicou sobre o evento. Cheguei mesmo a ler originais, como os do livro de Paulo Pinheiro Machado, “Lideranças do Contestado”, antes mesmo de editado. Portanto, desde os “clássicos” citados a obras recentes acima elencadas, nenhum escapou ao meu interesse, tanto que as perguntas endereçadas aos entrevistados em “O Contestado – Restos Mortais”, todas foram calcadas nas respectivas obras de cada um, acima elencadas.
A bem da verdade, naquele final da década de 1960, sim, fui muito influenciado pela leitura dos “clássicos”, daí o indisfarçável tônus quimérico de “A Guerra dos Pelados”, que o crítico Carlos Alberto Mattos, dada a linguagem épica do filme, chega a compará-lo a “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha. Nada que se desconectasse, naqueles primórdios dos anos de chumbo da ditadura, das minhas próprias convicções político-ideológicas (militante da clandestina Ação Popular-AP) que, como o genial cineasta baiano, meu filme grita, impunemente, a todos os quadrantes da tela e da plateia: “... maiores são os poderes do povo”!
Acompanhe na rede
![]()
Nosso website coleta informações do seu dispositivo e da sua navegação por meio de cookies para permitir funcionalidades como: melhorar o funcionamento técnico das páginas, mensurar a audiência do website e oferecer produtos e serviços relevantes por meio de anúncios personalizados. Para saber mais sobre as informações e cookies que coletamos, acesse a nossa Política de Cookies e a nossa Política de Privacidade.