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Guerra do Contestado - 100 anos (1912/16 - 2012)
<<  ENTREVISTA COM PAULO PINHEIRO MACHADO

Data da entrevista: 4 de setembro de 2012

CPDOC: Professor Paulo, você é hoje um dos pesquisadores mais destacados na reflexão sobre a guerra do Contestado (1912-1916). Pode nos contar um pouco sobre sua experiência de aproximação acadêmica com o assunto?

PAULO PINHEIRO: Estudo o Contestado desde o final dos anos 1980, quando passei a trabalhar na UFSC. A grande oportunidade de pesquisa foi o doutorado, realizado entre 1997 e 2001 na UNICAMP. Ao longo do trabalho de pesquisa alternei viagens ao planalto e meio oeste catarinense, com entrevistas com os últimos sobreviventes do conflito e a consulta a arquivos de Florianópolis, Porto Alegre, Curitiba e Rio de Janeiro. Tive a sorte de contar com o acesso a grande acervo de fontes judiciárias (civis e criminais) e militares (das Polícias e do Arquivo do Exército) que durante muito tempo não estiveram disponíveis aos pesquisadores.

CPDOC: Durante muito tempo o conflito foi analisado reiterando uma série de preconceitos contra os moradores da região, os sertanejos. Recorrentemente foram empregados, inclusive por historiadores, termos pejorativos como “fanáticos” e “matutos” para se referir à população rural envolvida no conflito. Em sua opinião, qual o momento em que esse viés de análise começa a ser rompido?

PAULO PINHEIRO: A expressão “fanatismo” foi empregada por militares, médicos e jornalistas não só para o movimento do Contestado, mas para uma série de movimentos sociais rurais que criaram uma linguagem própria, diferente da praticada pela intelectualidade e pelas classes médias das capitais e do litoral. Além da deliberada intenção de desqualificação e infantilização dos sertanejos, mesmo os autores antigos que procuravam entender de forma próxima as razões dos rebeldes, como o Major Matos Costa, só conseguia ver ignorância e abandono. Esta verdadeira barreira cultural - que impediu muitos pesquisadores que pudessem entender a vida, a cultura e as ações da população do interior - começou a ser derrubada com a obra de Maurício Vinhas de Queiroz (Messianismo e Conflito Social: a Guerra Sertaneja do Contestado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966). Vinhas foi o autor com a maior pesquisa empírica sobre o conflito, empregou o conceito de messianismo para explicar a expressão cultural e social sertaneja e associou o movimento sertanejo à crise social no planalto, à questão de terras e ao abuso dos Coronéis, grandes fazendeiros. Entretanto, para Vinhas o movimento do Contestado ainda era uma “revolta alienada” que revelava um autismo, um isolamento patológico dos sertanejos em relação à sociedade circundante. A grande virada interpretativa acontece com a obra de Duglas Teixeira Monteiro (Os Errantes do Novo Século. São Paulo: Duas Cidades, 1974). Para Monteiro, os participantes do movimento sertanejo eram “pessoas normais”, afastando qualquer noção de loucura ou irracionalidade e ressaltando os aspectos culturais da população, as expectativas milenares, de desencantamento com o mundo dos Coronéis e da Estrada de Ferro e reencantamento com o mundo das “Cidades Santas” formadas pelas irmandades caboclas. Duglas Monteiro inaugura os novos estudos sobre os movimentos sociais rurais em geral e do Contestado, em particular, condenando todas as visões que só pensavam o mundo rural como espaço de carências e miséria, e não compreendiam a cultura, a vida e os sonhos dos sertanejos. A partir dele, toda uma nova geração de pesquisadores tem procurado investigar os traços culturais, as experiências políticas e a tradição local que deu sustentação à invenção cabocla das “Cidades Santas”, o verdadeiro projeto da “Monarquia Cabocla”, que não procurava a restauração dos Braganças, mas sim a construção de um regime de justiça e bem-estar.

CPDOC: Você pode apontar alguns trabalhos que foram importantes para essa mudança de abordagem?

PAULO PINHEIRO: Além dos autores citados, há uma nova geração de pesquisadores que trouxe uma grande contribuição ao conhecimento sobre este conflito. O livro de Marli Auras (Guerra do Contestado: a organização da Irmandade cabocla. Florianópolis: Ed. UFSC, 1984), procura entender a formação da Irmandade Cabocla a partir de uma interessante abordagem gramsciana dos processos pedagógicos do mundo sertanejo rebelde. Euclides José Felipe (O Último Jagunço: o Folclore na História da Guerra do Contestado. Curitibanos: Ed. UnC, 1995), apesar de ser um antigo pesquisador, publicou muito recentemente sua coletânea de poesias e décimas declamadas pelos caboclos, ao longo de 40 anos de importante pesquisa. Ivone Gallo (O Contestado: o sonho do Milênio Igualitário. Campinas: Ed. UNICAMP, 1999) analisa os princípios apocalípticos e milenares da tradição do profetismo popular do Contestado. Nilson Thomé (Os Iluminados. Florianópolis: Insular, 1999) faz um importante inventário das lideranças místicas e desfaz uma série de equívocos sobre o curandeiro José Maria e outros personagens. Todos estes autores foram muito relevantes para a atualização das pesquisas e uma renovação da reflexão sobre as fontes.

CPDOC: Em nosso levantamento para esse dossiê, observamos que a partir, sobretudo, do início dos anos 2000, período de defesa de sua tese de doutorado, começam a surgir inúmeros trabalhos que procuram compreender o assunto de forma mais ampla, a partir dos aspectos econômicos, políticos, sociais e culturais, e, sobretudo, tentando se aproximar da realidade daquela população para entender as motivações do conflito. Uma segunda observação é que essa renovação historiográfica parte principalmente de pesquisadores do Sul do país. Podemos dizer que esses esforços tiveram como mote apresentar uma resposta aos trabalhos anteriores produzidos nos centros acadêmicos localizados em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo?

PAULO PINHEIRO: Sim, felizmente são autores com quem aprendi muito e mantenho constante interlocução. Márcia Janete Espig possui duas obras muito importantes. A primeira é o resultado de sua dissertação de mestrado na UFRGS (A presença da Gesta Carolíngea no movimento do Contestado. Canoas: Ed. ULBRA, 2004). A autora faz um estudo muito cuidadoso sobre a apropriação do texto medieval da “História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França” entre os sertanejos do Contestado e de como determinados valores e ideias da Gesta foram recriados pelos caboclos e utilizados para a criação da instituição dos Pares de França ou Pares de São Sebastião, guarda de elite cabocla. A segunda obra é a tese de doutorado de Márcia Espig, (Personagens do Contestado: os turmeiros da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande. Pelotas: Ed. UFPEL, 2011), onde há um importante estudo sobre o impacto da construção da estrada que cortou o Contestado, uma incursão em micro história nos conflitos e impasses de sua construção e nas repercussões para a Guerra ocorrida entre 1912 e 1916. Delmir José Valentini (Da cidade santa à corte celeste: memórias de sertanejos e a Guerra do Contestado. Florianópolis: Insular , 2002) faz uma importante balanço da memória dos últimos sobreviventes, estudo que também tem continuidade com a sua tese de Doutorado na PUC-RS sobre a atuação das empresas norte-americanas Brazil Railway e Lumber and Colonization. Rogério Rosa Rodrigues é outro pesquisador da nova geração, fez inovador estudo, em sua tese de doutorado na UFRJ, sobre a modernização do exército durante o governo Hermes e a Guerra do Contestado. Rogério fez importante avaliação da atuação dos “vaqueanos civis” e dos historiadores militares. Há ainda as contribuições de Jaisson Teixeira Lino, sobre a arqueologia no Contestado e o excelente trabalho de Alexandre de Oliveira Karsburg, que defendeu tese neste ano na UFRJ sobre a trajetória do primeiro monge João Maria, desde a Europa, a América do Sul e Brasil até seu falecimento em 1869 no deserto do Novo México, nos Estados Unidos.

CPDOC: O conceito de “messianismo”, para explicar o comportamento político e social dos sertanejos foi utilizado pioneiramente por Maria Izaura Pereira de Queiróz e Maurício Vinhas em trabalhos publicados ao longo dos anos de 1950. Em sua opinião qual o avanço que esses trabalhos representam em relação aos anteriores e quais as implicações (positivas e negativas) que a utilização do conceito trouxe ao entendimento do conflito?

PAULO PINHEIRO: O grande problema do conceito de messianismo é sua imprecisão e extrema maleabilidade, serve muito mais para colocar movimentos sociais e populações inteiras “fora de nosso mundo”. Foi um conceito com origem no próprio cristianismo, utilizado por séculos por muitos teólogos e pesquisadores da história da Igreja Católica. O uso contemporâneo, por parte da sociologia, tem como base os estudos de Max Weber e de sua apropriação da noção de “anomia”, originalmente criada por Emile Durkheim. Para Weber, comunidades “tradicionais” que sofriam o impacto da “modernização” tinham grandes chances de viver uma perda de identidade, uma “anomia social”, que estaria na base dos modernos movimentos messiânicos. Apesar de condenar o uso da expressão “fanatismo” os sociólogos tributários desta vertente weberiana, principalmente nos anos 1950 e 1960, não escondiam que esta concepção considerava estas populações “patológicas” o que às empurrava à ideia de “anormalidade”. Como já referido anteriormente, é Duglas Monteiro que rompe com estas concepções, ainda influenciado pela obra de Weber, mas sem mais considerar as noções de patologia ou anormalidade. Não há como negar a presença de aspectos messiânicos e milenares no movimento do Contestado, mas estes conceitos não são suficientes para entender o universo cultural e político dos rebeldes, sua recusa das instituições republicanas e do coronelismo, sua luta por terras e a construção de um novo mundo.

CPDOC: Quando pensamos em uma história nacional e vamos buscar o assunto em alguns livros didáticos adotados pelo Ministério da Educação e distribuídos para todo o país, notamos que o conceito de “messianismo”, continua pautando a apresentação do conflito, assim como também não é raro encontrar a reprodução do viés negativo que atribui à falta de informação daquela população as origens do conflito. Como você avalia a recepção das pesquisas recentes tanto nos livros didáticos como em revistas especializadas de grande circulação?

PAULO PINHEIRO: O movimento do Contestado começa a aparecer nos livros didáticos ainda de forma muito resumida e simplificada. São poucos verbetes e reduzidos os textos sobre a questão de limites entre os Estados e a trajetória dos monges. Geralmente só aparece como uma espécie de repetição de Canudos. Mas o tema tem se nacionalizado, já foi questão de vestibular no Rio, em Minas Gerais, Maranhão e Bahia. Já foi questão do ENEM. Este é um importante desafio aos novos pesquisadores acadêmicos: traduzir a produção mais atualizada em material didático e paradidático para o ensino escolar.

CPDOC: Por último, gostaríamos que dissesse aos jovens pesquisadores de todo o Brasil que se interessam pelo assunto porque o estudo da guerra é importante no entendimento mais amplo da história do Brasil.

PAULO PINHEIRO: A experiência dos sertanejos do Contestado teve como foco a luta em oposição ao Coronelismo, à concentração fundiária, à exploração de empresas estrangeiras e a construção de comunidades autônomas em relação ao Estado e ao Clero. Estes aspectos vão muito além das especificidades locais ou regionais. São questões que permeavam, e ainda permeiam, nosso país e boa parte da América Latina.

 

 

   

 

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