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Verbetes do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro - DHBB

PREFÁCIO À 1ª EDIÇÃO

Numa perspectiva bem ampla do conceito de imparcialidade, vê-se, não raro, que ela pode ser bem mais atingida na medida em que haja bastante tempo decorrido entre o objeto e o sujeito.

Esse teria sido o desafio inicial desta obra, Buscando averbar a biografia de todas as personalidades atuantes na esfera federal e nacional com espírito público e com estrita observância do político como matéria por excelência de sua vida, imaginemos as dificuldades enfrentadas pelo diretor desta obra colegiada e seus assistentes de vária natureza: de um lado, quantitativamente, era mister que cada biografia tivesse extensão compatível com as demais biografias, de tal modo que o número de linhas ou de páginas atribuído a cada uma guardasse essa compatibilidade; de outro lado, ainda quantitativamente, ao averbar figuras que o tempo diluiu num quase anonimato, seria mister estender-se no limite das disponibilidades das fontes, a fim de que os consulentes pudessem depreender a importância que, ao tempo, tiveram essas figuras, que já não a têm ou têm mais ainda do que ao tempo. É o sempre buscado esforço de justiça histórica.

Por isso, duas dificuldades foram aqui sempre superadas, quanto a limites: limitou-se a averbação aos políticos e à política brasileira de 1930 até a quase contemporaneidade, sabendo que, em obras desta natureza, com atuantes ou actantes ainda vivos, é necessário ter a coragem de ir até determinada data, após a qual não se registram os eventos que nos parecem conhecidos: com essa delimitação temporal, consegue-se chegar ao termo de uma obra assim, pois de outro modo seria levar, como Sísifo, a mesma pedra ao topo da montanha sempre e sempre. Quanto a limites ainda, ver-se-á que a extensão de cada verbete já de si é indicativa da importância política relativa da figura averbada. Esses dois escolhos são típicos em obras desta natureza, que devem ser aclamadas, quando conseguem atingir esses objetivos de isenção e imparcialidade. Assim também tratar-se-á do direito de ser aqui incluído: os eventos e as personalidades acontecidos ou aparecidos depois dessa data limite 1975 - não constam dos registros desta obra, a não ser incidentemente e com excepcionalidade justificada.

Indo a um universo de quase cinco mil entradas, pode-se imaginar o esforço que terão dispendido os trabalhadores desta obra à luz do que dissemos sobre limites.

Mas, concomitantemente, surgem as dificuldades do que, em boa técnica, se chama normalização. Eis, a título de memento, um elenco de problemas, nessa área:

  1. que ortografia seguir, inclusive quanto aos nomes próprios de nossa língua e quanto aos estrangeiros e, des­tes, os de mera transcrição e os de transliteração?

  2. que critérios de entrada se seguirão quanto a esses nomes próprios?

  3. como referir as fontes primárias e as secundárias, de tal arte que se consiga a máxima economia verbal e a máxi­ma economia espacial?

  4. que eventos registrar, não apenas no que concerne às biografias, senão que também no que concerne aos chamados temas?

  5. como despojar os registros de qualquer tipo, volun­tário, de exaltação ou denigrição?

  6. como e até onde se usará de reduções - braquigrafias, acrografias, abreviações, abreviaturas etc.?

  7. até que ponto se evitará atipicidade num registro e até que ponto será ela buscada?

  8. como fazer, e onde, uso das imagens fotográficas e outras, da icônica, em suma, e como capitular dentro de um arquivo de documentos visuais?

  9. que técnicas redatoriais e que pontos referenciais deverão ser sempre buscados nos verbetes?

  10. que convenções deverão ser observadas, quanto aos caracteres gráficos, aos tipográficos, às manchas, às margens, aos corpos?

  11. como estabelecer critérios para as referências cruzadas ou recíprocas?

 

 Para quem, como o signatário deste prefácio, teve de enfrentar essas e outras questões em duas oportunidades de uma vida só, é matéria inevitável de admiração e louvor a realização decorosa de uma obra como esta. É que, se o elenco de questões técnicas é mais que o conjunto acima apontado, o elenco de ditames éticos é incomparavelmente maior.

 Se, porém, esta obra vem à luz com a observância da­queles requisitos técnicos e éticos, é porque alguém conse­guiu mobilizar áreas adormecidas, impossíveis burocráticos, tesouros raros para a aventura intelectual, em suma, teve de lutar uma boa luta para que a semente vingasse, a planta sobrevivesse, as flores luzissem e os frutos - que os temos aqui - pudessem madurar.

 A ação oficial é, por excelência, aquela que se faz com vistas a resultados tão imediatos quanto possível. Vendo­ se bem, isso não é sempre um estigma, pois não raro é unia qualidade: o trabalho deve render, para que um dia o tra­balho venha a ser de todos e para todos, criando, por sua, excelência, cada vez mais horas de lazer para todos. Essa utopia, contudo, que parece tão lógica e tão simples, é barreira quase intransponível. Pois, em verdade, com qualquer dispêndio que seja, sempre é possível ter resultados mais cedo que outros. Uma obra desta natureza inclui-se, por definição, nos "outros" atrás subentendidos. É que sua rentabilidade é um aleatório tal, que sua necessidade só se justifica em termos - digamos - culturais. Pois não é um milagre que ela, obra, apareça no momento ou a partir do momento em que o Brasil começa a magnificar-se, transformando urna política quase de campanário - que o era até 1930 - em política de grandes embates políticos, econômicos e sociais, com grandes divergências segmentares? Minha pergunta deriva do fato de que, se quiséssemos realizar o contraponto desta obra, vale dizer, uma obra tal qual ela, mas de 1930 para antes, é quase certo que não precisaríamos mais do que se precisou para esta, em termos de esforços, de produtos e de resultados. É que, em verdade, do passado anterior a 1930 já se recuperou muito para a memória histórica nacional, em enciclopédias, repertórios, referências, biografias, obras episódicas, faltando, portanto, antes urna consolidação do que uma elaboração como foi esta.

A obra começa com uma "Introdução" seguida de "Corno usar o Dicionário Histórico-Biográfico Basileiro", que deveriam, ambos, ter um subtítulo, a saber, "de leitura necessária para quantos consultarem a obra e quiserem tirar dela o maior proveito possível". Com efeito, esses dois preliminares bibliológícos, se não respondem explicitamente às 11 interrogações que formulei acima, dão conta, minudentemente, do que foi ela, obra, como tenacidade, como concórdia de partes, como investimento e como resultados. Imagino, a partir dagora, como se fará mais fácil qualquer indagação política ou biográfica sobre o Brasil contemporâneo, pois que, qualquer que for essa indagação, aqui serão achadas, quando não soluções, pelo menos preciosas indicações. Mas essa "Introdução" e seu "Como usar. . . ", ademais, dão conta da aventura biográfica dos que fizeram a obra, no relato fiel e quase documental do seu principal responsável intelectual, Israel Beloch.

Tive a ventura de tê-lo tido como companheiro de trabalho. E agora vejo que ele sempre pensou e desejou servir a sua pátria e seus concidadãos, de modo que algo sé acrescentasse de positivo, por seu intermédio, às nossas condições culturais. De fato, não ternos tido continuidade senão acidental quanto a projetos de memória cultural corno este. É por isso que, quando algo deste tipo monumental, algo globalmente informativo, aparece, devemos todos reputar esse "quando" como uma festa do espírito. Israel Beloch, Alzira Alves de Abreu e seus companheiros de cruzada, de aventura e de risco estão efetivamente de parabéns, para bem não apenas da nossa historiografia, mas para bem de nossa mais lúcida tomada de consciência, indagando-nos se teremos força de continuar a ser o que vimos sendo, com as melhoras necessárias que justificam a vida pessoal e social.

Se minha experiência pregressa me titula algum direito de passar em julgamento algo, e que este algo seja este admirável "dicionário", não vacilo em recomendar aos meus concidadãos que queiram conhecer melhor o Brasil a consulta constante desta obra, verdadeira enciclopédia histórica e biográfica, que condensa grande parte do essencial das fontes possíveis no Brasil de hoje, inclusive nos legados documentais de alguns brasileiros eminentes ao seu tempo.

É minha esperança que venhamos a reconhecer o mérito sem-par deste trabalho colegiado, encabeçado por Israel Beloch, todos quantos pudermos manuseá-lo: sua ação informadora será acompanhada de uma ação fecundante dos espíritos, para que dentro de umas poucas décadas meio século, por exemplo, isto é, pelo ano 2030 - venhamos a ter o "segundo" momento desta verdadeira enciclopédia histórico-biográfica do Brasil de hoje. Por isso, reitero meus parabéns a Israel Beloch e seus colaboradores das muitas profissões intelectuais que cooperaram para este acontecimento cultural, Eis o meu voto, entusiasta.

 

Rio de Janeiro, 10 de setembro de 1983

Antônio Houaiss

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